Já
contei aqui do mecânico alemão, que se vangloriava da própria
honestidade. E que funcionava comigo, tanto que, a cada quatro meses,
me abalava daqui do centro até Interlagos com meu fusca, pra regular
o carburador e outras manutenções. Era uma epopeia a viagem de
ônibus pra voltar, depois pra ir buscar. Tudo por causa da
honestidade do hômi. Tudo bem que a honestidade do hômi me era
importante, mas já então me incomodava a autodeclaração.
Porque
a honestidade é uma condição inata. Ou deveria ser. Assim como a
humanidade. Declarar-se humano, ou desumano, é uma estultícia (uma
tolice, pra economizar sua ida ao google). Ser honesto é uma
obrigação primária e, da mesma forma que ninguém se declara
desonesto, ninguém deveria se declarar honesto. A honestidade é uma
condição necessariamente outorgada por outrem, um terceiro.
Outorgada, mas não declarada. Constatada, apenas, para efeitos
práticos… Mas, na época do mecânico alemão, eu tinha mais que
fazer e apenas estranhava, ligeiramente. Acusava a anormalidade mas,
na dúvida, fazia um sacrifício danado pra deixar meu fusca em mãos
confiáveis… autodeclaradas confiáveis!
Sim,
n’algum ponto, entre aqueles longínquos tempos e esta parte, tive
alguma conversa íntima comigo mesmo sobre a honestidade. Constatei,
com algum alarme, que nunca me declarara honesto. Vejam bem, não em
voz alta, para algum interlocutor de carne e osso, mas para mim
mesmo. De fato, nunca me declarei, nem a mim mesmo, ser honesto. E,
cá entre nós, tenho alguma dúvida. Nada, porém, que me abale.
Porque a honestidade, bem… vai vendo:
No
banco de trás, a mulher se declarava mulher direita, honesta, muito
honesta. Em voz alta e bem articulada, tanto que eu ouvia direitinho,
apesar do ronco do próprio ônibus e do trânsito infernal da
Rebouças. Acho que voltava do serviço, conversava com uma outra,
talvez trabalhassem na faxina de algum grande escritório. Aí a
autodeclaração se complicava ainda mais, por se tratar de mulher.
Porque, como sabemos, na mulher, a condição de “direita”, de
“honesta”, assume uma conotação sexual. Tanto que eu, muito
preconceituoso, logo deduzi que a mulher era assexual. Quer dizer,
era direita demais, era honesta demais, só podia não gostar de
sexo.
Taí um dos motivos da minha bronca com a tal honestidade, em que não havia pensado. Um outro é a banalidade. Sendo que, por algum recôndito desconfiômetro, associo o "banal" ao "venal". De fato, nunca engoli muito bem essas pessoas e essas instituições que vivem alardeando a própria honestidade. Ou o fazendo indiretamente, ao alardear a desonestidade alheia. Porque
desonestidade não se comenta, se prova. E se pune. Enquanto isso,
todos são honestos. É
algo parecido com a caridade: quando alardeada, perde o efeito. Ou deveria perder...
É
inconcebível tratar com um desonesto notório. Quem tem fama de
desonesto, pode procurar outra freguesia. É algo perpétuo, o cara
pode virar santo que não adianta. Sim, a honestidade é condição
indispensável, na vida prática, todo mundo sabe. Daí porque os pobres de espírito
não conseguem ser honestos e ficar calados.
Nenhum comentário:
Postar um comentário