terça-feira, 19 de setembro de 2017

A HONESTIDADE.

Já contei aqui do mecânico alemão, que se vangloriava da própria honestidade. E que funcionava comigo, tanto que, a cada quatro meses, me abalava daqui do centro até Interlagos com meu fusca, pra regular o carburador e outras manutenções. Era uma epopeia a viagem de ônibus pra voltar, depois pra ir buscar. Tudo por causa da honestidade do hômi. Tudo bem que a honestidade do hômi me era importante, mas já então me incomodava a autodeclaração.
Porque a honestidade é uma condição inata. Ou deveria ser. Assim como a humanidade. Declarar-se humano, ou desumano, é uma estultícia (uma tolice, pra economizar sua ida ao google). Ser honesto é uma obrigação primária e, da mesma forma que ninguém se declara desonesto, ninguém deveria se declarar honesto. A honestidade é uma condição necessariamente outorgada por outrem, um terceiro. Outorgada, mas não declarada. Constatada, apenas, para efeitos práticos… Mas, na época do mecânico alemão, eu tinha mais que fazer e apenas estranhava, ligeiramente. Acusava a anormalidade mas, na dúvida, fazia um sacrifício danado pra deixar meu fusca em mãos confiáveis… autodeclaradas confiáveis!
Sim, n’algum ponto, entre aqueles longínquos tempos e esta parte, tive alguma conversa íntima comigo mesmo sobre a honestidade. Constatei, com algum alarme, que nunca me declarara honesto. Vejam bem, não em voz alta, para algum interlocutor de carne e osso, mas para mim mesmo. De fato, nunca me declarei, nem a mim mesmo, ser honesto. E, cá entre nós, tenho alguma dúvida. Nada, porém, que me abale. Porque a honestidade, bem… vai vendo:
No banco de trás, a mulher se declarava mulher direita, honesta, muito honesta. Em voz alta e bem articulada, tanto que eu ouvia direitinho, apesar do ronco do próprio ônibus e do trânsito infernal da Rebouças. Acho que voltava do serviço, conversava com uma outra, talvez trabalhassem na faxina de algum grande escritório. Aí a autodeclaração se complicava ainda mais, por se tratar de mulher. Porque, como sabemos, na mulher, a condição de “direita”, de “honesta”, assume uma conotação sexual. Tanto que eu, muito preconceituoso, logo deduzi que a mulher era assexual. Quer dizer, era direita demais, era honesta demais, só podia não gostar de sexo.

Taí um dos motivos da minha bronca com a tal honestidade, em que não havia pensado. Um outro é a banalidade. Sendo que, por algum recôndito desconfiômetro, associo o "banal" ao "venal". De fato, nunca engoli muito bem essas pessoas e essas instituições que vivem alardeando a própria honestidade. Ou o fazendo indiretamente, ao alardear a desonestidade alheia.  Porque desonestidade não se comenta, se prova. E se pune. Enquanto isso, todos são honestos. É algo parecido com a caridade: quando alardeada, perde o efeito. Ou deveria perder...

É inconcebível tratar com um desonesto notório. Quem tem fama de desonesto, pode procurar outra freguesia. É algo perpétuo, o cara pode virar santo que não adianta. Sim, a honestidade é condição indispensável, na vida prática, todo mundo sabe. Daí porque os pobres de espírito não conseguem ser honestos e ficar calados. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário