O
cara ganhou uma bolada na loteria. Na Caixa, pediu tudo em espécie.
Era muito, tiveram que provisionar pro outro dia. Teve de ir com uma
mochila cargueira pra trazer a grana. Chegou em casa depois do
almoço, a mulher dormia. Despejou os pacotes de dinheiro sobre a
cama, ao lado dela. Quando a mulher abriu os olhos e viu o dinheiro
sobre a cama, teve um piripaque. Ficou muito puta com ele, onde já
se viu colocar dinheiro sobre o lençol, dinheiro é coisa suja. É,
todo mundo pega, vai saber por onde passaram aquelas notas. O lençol,
a fronha do travesseiro, aquela imundície…
Terminado
o piripaque, a mulher quis saber como é que ele tinha arranjado todo
aquele dinheiro. Ou seja, começou outro piripaque. Porque, vejam
bem, tão importante quanto o dinheiro, é a origem do dinheiro. É,
a mulher era fresca. Dessas que, no banheiro, tem uma toalha para os
pés, outra para as mãos e outra para o resto do corpo. Dessas que
passam a ferro quente toalhas e lençóis. Dessas que usam muito
amaciante e sabão e as roupas ficam até cheirando demais… Dessas
que nunca faltaram nem chegaram atrasadas no serviço a vida inteira.
É, porque a mulher, assim como o marido, já eram aposentados,
depois de 38 anos de contribuição ao INSS.
Juntando
as merrecas das aposentadorias dos dois, dava pra viver bem. Os
filhos já se viravam por conta própria. Uma vida simples, regrada.
Casinha própria na Vila Matilde, um golzinho 98, TV via antena
parabólica, nenhum crediário, nenhum papagaio, nenhuma dívida.
Nenhum gato pra gastar com veterinário… Lendo de cabo a rabo os
panfletos do supermercado, pra aproveitar as ofertas. E nenhum dos
dois gostava de pizza nem de entregador de pizzas nem do glamour de
comer fora. Era uma vida besta, mas tranquila.
O
marido, aquele somongozão, podia ter caído numa trapaça,
alarmava-se a mulher. Dinheiro, ela gostava, desde que muito bem
explicado. A frescura dela não subia a dilemas filosóficos, tipo se
um tem muito, necessariamente muitos têm pouco. Daí que, quando
ela soube que o marido tinha ganhado na loteria, começou um terceiro
piripaque. Este, de alegria. Enquanto jogava lençóis e fronhas no
lixo…
Naquela
mesma tarde, o felizardo novo milionário já não suportava seu
impecável carrinho de 12 anos. Nem aguentava mais os vizinhos nem a
linha vermelha do metrô nem a Vila Matilde. Não conseguia entender
como vivera tanto tempo naquele muquifo. A felizarda nova milionária
marcou uma depilação e o cabeleireiro para aquela mesma tarde. E,
pra comemorar, pediram uma pizza… com cocacola, que as
transformações são rápidas, mas nem tanto…
Claro,
depositaram a grana na poupança. Bom, isso aqui daria um romance,
coisa de 200 páginas bem cheias. Começaria tipo "Inocentes endinheirados é vexame na certa...". Mas não tenho saco. Se mudaram
prum apartamento um por andar nos Jardins e passaram a consumir tudo
isso que vive nos tentando nas vitrinas nas ruas nas novelas nos
sonhos…
Mudaram
de bairro de carro de hábitos de amigos, mas mantiveram a alma de
assalariados. Inocentes enrolados nas teias das propagandas. Se
tivessem virado capitalistas, a ruína viria lá pela terceira ou
quarta geração. Felizmente, não deixaram esse amargo legado. Daí
que, passados cinco anos, o dinheiro acabou e voltaram pra Vila
Matilde. Mentira, foram pra Casa Verde, para fazer novos amigos…
Ah, sim, a merreca do INSS nunca parou de pingar. Retomaram a vida
digna. Mas infeliz.
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