segunda-feira, 11 de setembro de 2017

VIDA & LOTERIA.

O cara ganhou uma bolada na loteria. Na Caixa, pediu tudo em espécie. Era muito, tiveram que provisionar pro outro dia. Teve de ir com uma mochila cargueira pra trazer a grana. Chegou em casa depois do almoço, a mulher dormia. Despejou os pacotes de dinheiro sobre a cama, ao lado dela. Quando a mulher abriu os olhos e viu o dinheiro sobre a cama, teve um piripaque. Ficou muito puta com ele, onde já se viu colocar dinheiro sobre o lençol, dinheiro é coisa suja. É, todo mundo pega, vai saber por onde passaram aquelas notas. O lençol, a fronha do travesseiro, aquela imundície…
Terminado o piripaque, a mulher quis saber como é que ele tinha arranjado todo aquele dinheiro. Ou seja, começou outro piripaque. Porque, vejam bem, tão importante quanto o dinheiro, é a origem do dinheiro. É, a mulher era fresca. Dessas que, no banheiro, tem uma toalha para os pés, outra para as mãos e outra para o resto do corpo. Dessas que passam a ferro quente toalhas e lençóis. Dessas que usam muito amaciante e sabão e as roupas ficam até cheirando demais… Dessas que nunca faltaram nem chegaram atrasadas no serviço a vida inteira. É, porque a mulher, assim como o marido, já eram aposentados, depois de 38 anos de contribuição ao INSS.
Juntando as merrecas das aposentadorias dos dois, dava pra viver bem. Os filhos já se viravam por conta própria. Uma vida simples, regrada. Casinha própria na Vila Matilde, um golzinho 98, TV via antena parabólica, nenhum crediário, nenhum papagaio, nenhuma dívida. Nenhum gato pra gastar com veterinário… Lendo de cabo a rabo os panfletos do supermercado, pra aproveitar as ofertas. E nenhum dos dois gostava de pizza nem de entregador de pizzas nem do glamour de comer fora. Era uma vida besta, mas tranquila.
O marido, aquele somongozão, podia ter caído numa trapaça, alarmava-se a mulher. Dinheiro, ela gostava, desde que muito bem explicado. A frescura dela não subia a dilemas filosóficos, tipo se um tem muito, necessariamente muitos têm pouco. Daí que, quando ela soube que o marido tinha ganhado na loteria, começou um terceiro piripaque. Este, de alegria. Enquanto jogava lençóis e fronhas no lixo…
Naquela mesma tarde, o felizardo novo milionário já não suportava seu impecável carrinho de 12 anos. Nem aguentava mais os vizinhos nem a linha vermelha do metrô nem a Vila Matilde. Não conseguia entender como vivera tanto tempo naquele muquifo. A felizarda nova milionária marcou uma depilação e o cabeleireiro para aquela mesma tarde. E, pra comemorar, pediram uma pizza… com cocacola, que as transformações são rápidas, mas nem tanto…
Claro, depositaram a grana na poupança. Bom, isso aqui daria um romance, coisa de 200 páginas bem cheias.  Começaria tipo "Inocentes endinheirados é vexame na certa...". Mas não tenho saco. Se mudaram prum apartamento um por andar nos Jardins e passaram a consumir tudo isso que vive nos tentando nas vitrinas nas ruas nas novelas nos sonhos…

Mudaram de bairro de carro de hábitos de amigos, mas mantiveram a alma de assalariados. Inocentes enrolados nas teias das propagandas. Se tivessem virado capitalistas, a ruína viria lá pela terceira ou quarta geração. Felizmente, não deixaram esse amargo legado. Daí que, passados cinco anos, o dinheiro acabou e voltaram pra Vila Matilde. Mentira, foram pra Casa Verde, para fazer novos amigos… Ah, sim, a merreca do INSS nunca parou de pingar. Retomaram a vida digna. Mas infeliz. 

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