UMA VONTADE DE SAIR CORRENDO.
Passo
em frente ao Shopping Paulista quase todo dia, é caminho da minha
casa. E faz tempo, desde os tempos da Mesbla, uma loja de
departamentos onde eu era freguês ocasional. Demoliram a loja,
construíram o shopping, ele ficou velho, remodelaram, ampliaram,
ficou novo de novo, tudo coisa fina, piso vitrificado, ar perfumado e
eu ali, na calçada, pra lá e pra cá, atônito. De cinco em cinco
anos, mais ou menos, entro lá, quando estou muito distraído. Foi o
que aconteceu hoje.
Das
outras vezes, eu entrava, ia até o meio do corredor do primeiro
piso, acordava e saía, quase correndo. Dessa vez não foi diferente
mas, ao acordar, lembrei do comércio de rua do centrão da cidade,
que visitei e escrevi sobre, dia desses. Então saquei meu caderninho
e caneta e fui em frente, para registrar o contraponto.
Olhando
aleatoriamente e anotando os nomes que via: Piso 13 de maio:
Criatiff, Puket, Capodarte, Clinique, Shoulder, World Tennis,
Häagen-Dozs, Fast,
Swarovski, Intimissimi, Opaque; Piso Maestro Cardim: Burger King,
Océane, Shades express, Loungerie, Bayard, Maison Depil, Gregory,
Bluebeach, Green; Piso Paulista: Sephora, Brooksfield, Siberian,
Kipling, Polishop, The Graces, Side Walk, Anna Pegova, L’Occitane
Au Brésil, Track & Field, Any, Munny, Khelf, Stroke, Crawford,
M.Officer, Practory; Piso Paraíso: Tennis Station, Starbucks Coffee,
Mr.Jack’s, Havanna, Braugarten, Baked Potato, ArtWalk, Le Pain
Quotidien, Bacio di Latte, Calvin Klein. E agora tem uma seção no
último piso, onde você pode comer finamente no The Fiffies Burger,
no Bubble Kill ou no Outback Steakhouse.
Não
andei todo o shopping não. Anotei só alguns nomes, até para não
dar bandeira. O Banco do Brasil, a Zelo e a Quem disse, Berenice?
pareciam lojas estrangeiras, num shopping de Nova Iorque.
De
soslaio, examinava os frequentadores, enquanto lia as fachadas. Mais
ou menos, 99% eram brasileiros, dos quais uns 1(hum)% dominavam a
língua inglesa básica. 98% era brasileiros monolingues. Mais da
metade eram analfabetos funcionais, sabe essas pessoas que não
conseguem traduzir uma ideia em texto? Mas todos em roupa de missa,
fascinados com o Deus-Cosmopolita, pisando miúdo, fazendo biquinhos,
muito contidos, bem-comportados, sentindo-se em Miami, deslumbrados
com todos aqueles detalhes e lojas finas, arrotando barbecue e
peidando candy potato. Foi esse povo que fugiu do centrão de São
Paulo. É essa mentalidade que atrasa nossa vida.
Na
saída secundária da 13 de maio, enojado, ainda tive a pachorra de
notar que a Fotótica agora é GrandVision: grande merda! Mas se
você não quiser comer chocolate fabricado aqui com cacau nacional,
coma Lindt: Maitre Chocolatier Suisse Depuis 1845, fabricado on
Suisse, com cacau importado. Du Brésil.
Agora,
se você quiser uma sugestão de nome fino e de responsa para um
puteiro, eu tenho: Coffee Phodô.
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