quinta-feira, 31 de março de 2022

COMO FAZER SUCESSO NAS REDES SOCIAIS

 

COMO CONSEGUIR LIKES E CLICKS E CURTIDAS E INSCRITOS E COMENTÁRIOS E COMPARTILHAMENTOS.

Começo com o exemplo da notícia falsa de que misturar manga com ovo faz mal.  

Essa notícia alarmista e falsa bombou lá na minha terra, quando eu era criança. É compartilhada até hoje!  

Não só manga com ovo, mas manga com leite, manga com pinga, coitada da manga. Só manga com pinga não “pegou”, acho que porque quem comia manga não tomava pinga e vice-versa.

Ou porque quem toma pinga é mais cético, menos susceptível a safadezas dessa natureza. Já manga, toda criança chupava adoidado, era uma boa maneira de pais sacanas contornarem a falta de ovo ou de leite...  

Então, imagino, algum benzedor (a quem todo mundo recorria, não havia médicos), querendo fazer sucesso, publicou em suas redes sociais que misturar manga com ovo era morte certa. Foi o que bastou para a fake news viralizar.

Porque não se tratava de simples indigestão estomacal; não, era comer e morrer! Na dúvida, melhor não arriscar. E alertar filhos, sobrinhos, amigos, inocentes em geral, alertar todo mundo (cuidar da saúde de todos), arrepiar a pasmaceira coletiva.

Ah, sim, tomar banho após as refeições também era morte certa.

Além dos dez mandamentos bíblicos, eu tinha mais uns 3 ou 4 que não desrespeitava nunca.

Mas a coisa pode não ter sido tão simples assim. O processo inicial da fake news pode ter ficado hibernando. Algum tempo depois, morre uma criança por motivo obscuro. Foram investigar e descobriram que, de manhã, a criança havia comido manga com ovo. Pronto, a fake deslanchou.

Notem que, muitas vezes, para fazer sucesso não basta aplicar a receita, é preciso perseverar.

Usar dicas de alimentação e saúde é compartilhamento certo, mas tem de envolver riscos e proibições. Dicas sobre hábitos comuns, como maneira correta de escovar os dentes, sob óticas inusitadas e aparentemente geniais. Alertas preventivos sobre perigos difusos sempre dão bom retorno.

E melhor se a sugestão divulgada resultar em algum efeito prático real, como aquele de justificar a falta de ovo ou leite ou a promoção/demolição de algum produto ou ideia.  

Essas receitas são boas, porque furam a bolha, interessam a gregos e turcos. Mas, às vezes, nossa bolha é tão grande que fazer sucesso dentro dela já é suficiente. Nesse caso, faça críticas contundentes ao povo da bolha contrária.

Agora, pelamordedeus, não critique a própria bolha junto com a antagônica, ainda que de forma ponderada. Você estará incorrendo no pecado da isenção ou imparcialidade, que te levará direto para o Limbo, o pior lugar dos quintos dos infernos.

Outra forma de ir para o Limbo é dar uma de limpinho e cheiroso e bem-comportado. Ou então, abordar um assunto sob ótica original, mas sutil.

Há também aqueles que fazem sucesso divulgando receitas de como fazer sucesso rs rs rs.

(Na pré-história, anos 1990, havia consultores e coaches que ganhavam dinheiro nos ensinando a ganhar dinheiro...).

Porém, pior do que fake news, só clickbait! (um dia ainda substituo a bicicleta pela bike).  

  

terça-feira, 29 de março de 2022

A REVOLUÇÃO DOS SIGNOS

 

Num ponto de táxi aqui perto de casa há um carro com um adesivo no centro da parte superior do para-brisa em que está escrito “Fora Dória” e “Globolixo”.

Perfeito!, não gosto do Dória nem da Globo.

Na antena de teto do mesmo carro está hasteada uma bandeira verde-amarela do Brasil. Perfeito!, sou brasileiro e estou quase satisfeito.

(Pensando bem e analisando as alternativas, até que é razoável ser brasileiro. É possível que eu mereça a qualificação de patriota.).

Continuemos com os signos estampados no táxi. O taxista. É um rapaz de informal estampa, tênis, calça jeans, camiseta, barba de 15 dias e farta cabeleira presa por um rabo de cavalo.

Perfeito!, segundo minha rebelde estética anos 1970.  

Entretanto...

Contudo..., trata-se de um bolsonarista militante, o tal taxista.

Como eu sei? Sim, sei e ninguém me contou. O ponto fica perto de casa, mas na contra-mão. Nunca peguei táxi ali não, até porque pego um táxi na vida, outro na morte.

Sei porque li os signos. O conjunto dos signos, sem esquecer a época e o local em que são exibidos. Em SP, atualmente, ser militantemente contra Dória e Globo ao mesmo tempo é bolsonarismo na certa. Se adicionar a bandeira, é certeza.

Nos anos 1980, esse conjunto de signos denunciaria um petista. Mas os petistas, depois de vencerem quatro eleições seguidas, deixaram de ser antissistema e passaram a defender o Supremo. Os petistas, agora, fazem passeatas uniformizados com coletes de identificação... 

Em 1980, esse jovem taxista, nascido numa família patriarcal de moral cristã, classe e escolaridade média baixa, seria automaticamente anticomunista, meritocrata, racista, machista e defensor da Rota na Rua.

Esse jovem nasceu naquela década, diga-se. Seu equivalente de então votava em vereador que prometia asfaltar a rua e no prefeito que prometia acabar com os bikinis. Mas, principalmente, usava barba escanhoada, sapato preto engraxado e terno e gravata para dirigir seu táxi.

Quarenta anos depois, no centenário da Revolução Soviética, a Direita se apropriou dos ícones da Esquerda. O youtuber ultra liberal que defende a legalização do partido nazista fuma maconha on line. Inconformados e ignorantes herdeiros de fortunas fumam paiêros e usam barbas e cabelos ao vento a la Fidel e Chê.

Em 2022, o jovem taxista continua prisioneiro da sua ignorância sistêmica e, enquanto esperneia, leva água para o moinho da contra-mudança. Ninguém escapa da vertiginosa e confusa escalada dos signos, enquanto não se descobre que peido de pato não é incenso.

Daqui a pouco, até os crentes vão abandonar as boas maneiras para eleger trogloditas.

Mas eu só vou sossegar diante dessa reviravolta semiótica quando esses tais incorporarem mais algumas atitudes esquerdistas, como, por exemplo, serem contra a instituição do rico.

Sim, do rico, aquele que para existir precisa, necessariamente, gerar 900 pobres.

Aliás, cá pra nós, por que nenhum desses informais de vitrine é contra a propriedade privada dos pesados meios de produção?

  

quinta-feira, 3 de março de 2022

ORWELL, PERIFERIAS E IMPERIALISMOS

 CÊ É PERIFÉRICO, MANÉ! O mundo está dividido em três grandes países: Oceania, o maior, composto pelo que antes eram EUA, Reino Unido e seus satélites; Eurásia, composto pelas antigas Rússia e Europa continental, e Lestásia, composto pelas ex-China, Japão, Coreia e Índia.

Isso era o escritor inglês George Orwell, em seu romance “1984”, publicado em 1948, início da guerra fria.

Acho que meu professor de Física no colégio, um dentista obtuso no interior, se inspirou no romance para nos dizer em 1973, auge da ditadura militar brasileira, com ares de premonitória sabedoria e teórica conspiração, que Mao Tsé-Tung e Leonid Brejnev não morreriam nunca, porque o Partido manteria o povo iludido de que continuavam vivos, eram imortais.

Como se sabe, Mao morreu em 1976 e Brejnev em 1982, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se desintegrou em 1991 e a República Popular da China já é a primeira potência econômica mundial em poder de compra, capitaneando uma mistura de socialismo com consumismo.

E para os novatos vai a dica de que Brejnev foi o secretário geral do Partido Comunista da URSS entre 1964 e 1982 e Mao comandou a China entre 1949 e 1976. Não era permitido falar Brejnev ou Mao em voz alta na via pública no Brasil em 1973, exceto para desacreditá-los, como fazia meu professor.

Talvez Orwell tenha se inspirado nas tretas entre Stalin e Trotsky, mas a distopia se passa na Oceania, sucessor dos EUA, onde havia uma língua em construção, criada pelo Ministério da Verdade, que quando estivesse finalmente completa impediria a expressão de qualquer opinião contrária ao regime.

Meu obtuso professor não poderia imaginar que o Ministério da Desburocratização criado pelos militares brasileiros já era a Novilíngua Orwelliana aplicada em seu duplipensar: um ministério da desburocratização para burocratizar!

Aquele desinformado teórico da conspiração em 1973 não poderia imaginar que justamente os plurais e democratas do bem EUA criariam as paraestatais Google, Facebook, Twitter, Amazon, após IBM, Apple e Microsoft, que se desdobrariam em Youtube, Instagran, Whatsapp e adjacências, como máquinas de vigilância e guerra.

Que justamente os paladinos do individualismo e da privacidade, os EUA, criariam e instalariam em todas as residências a Teletela!

Que os abertos e transparentes EUA combinariam algoritmo com sistemas massivos de notícias, para viabilizar o duplipensar “informação é ignorância”.

E para completar, como os EUA nunca tiveram um Big Brother, porque são e sempre foram humanistas-falíveis-mortais, inventaram um Big Brother de mentira que, mesmo assim, inunda as teletelas e hipnotiza a maioria dos cidadãos e cidadãs do país.

O engraçado é que a Lestásia, composta pela China, Japão e Índia, era o menor dos três impérios. Não sei se Orwell estava sendo irônico ou se errou feio. Mas a possibilidade da Rússia integrar toda a Europa e formar a Eurásia parece real demais, não acham?

Sei não, mas desconfio que os filhos de meus netos assistirão a filmes de uma Hollywood chinesa, tomarão uma Coca-cola coreana, enviarão seus filhos a uma Disneylândia tailandesa, farão compras anuais numa Miami vietnamita e colocarão seus filhos na escolinha de russo.

E farão turismo de inverno em Xangai ou Tianjin ou Moscou, de onde enviarão vídeos com batalhas de neve sob agasalhos alugados num Walmart mongol. Ah, e enviarão seus filhos mais espertos para estudarem em suas universidades.  

Ah, e somente os profissionais do ramo saberão se é a Lestásia a inimiga da vez e a Eurásia a aliada ou vice-versa. Até porque a guerra é apenas um instrumento econômico para manter privilégios e desigualdades (no pesadelo distópico orwelliano, o país era dividido em classe alta (2%), classe média (13%) e classe baixa (85%). Essa ficção te lembra algum país real?).