terça-feira, 29 de março de 2022

A REVOLUÇÃO DOS SIGNOS

 

Num ponto de táxi aqui perto de casa há um carro com um adesivo no centro da parte superior do para-brisa em que está escrito “Fora Dória” e “Globolixo”.

Perfeito!, não gosto do Dória nem da Globo.

Na antena de teto do mesmo carro está hasteada uma bandeira verde-amarela do Brasil. Perfeito!, sou brasileiro e estou quase satisfeito.

(Pensando bem e analisando as alternativas, até que é razoável ser brasileiro. É possível que eu mereça a qualificação de patriota.).

Continuemos com os signos estampados no táxi. O taxista. É um rapaz de informal estampa, tênis, calça jeans, camiseta, barba de 15 dias e farta cabeleira presa por um rabo de cavalo.

Perfeito!, segundo minha rebelde estética anos 1970.  

Entretanto...

Contudo..., trata-se de um bolsonarista militante, o tal taxista.

Como eu sei? Sim, sei e ninguém me contou. O ponto fica perto de casa, mas na contra-mão. Nunca peguei táxi ali não, até porque pego um táxi na vida, outro na morte.

Sei porque li os signos. O conjunto dos signos, sem esquecer a época e o local em que são exibidos. Em SP, atualmente, ser militantemente contra Dória e Globo ao mesmo tempo é bolsonarismo na certa. Se adicionar a bandeira, é certeza.

Nos anos 1980, esse conjunto de signos denunciaria um petista. Mas os petistas, depois de vencerem quatro eleições seguidas, deixaram de ser antissistema e passaram a defender o Supremo. Os petistas, agora, fazem passeatas uniformizados com coletes de identificação... 

Em 1980, esse jovem taxista, nascido numa família patriarcal de moral cristã, classe e escolaridade média baixa, seria automaticamente anticomunista, meritocrata, racista, machista e defensor da Rota na Rua.

Esse jovem nasceu naquela década, diga-se. Seu equivalente de então votava em vereador que prometia asfaltar a rua e no prefeito que prometia acabar com os bikinis. Mas, principalmente, usava barba escanhoada, sapato preto engraxado e terno e gravata para dirigir seu táxi.

Quarenta anos depois, no centenário da Revolução Soviética, a Direita se apropriou dos ícones da Esquerda. O youtuber ultra liberal que defende a legalização do partido nazista fuma maconha on line. Inconformados e ignorantes herdeiros de fortunas fumam paiêros e usam barbas e cabelos ao vento a la Fidel e Chê.

Em 2022, o jovem taxista continua prisioneiro da sua ignorância sistêmica e, enquanto esperneia, leva água para o moinho da contra-mudança. Ninguém escapa da vertiginosa e confusa escalada dos signos, enquanto não se descobre que peido de pato não é incenso.

Daqui a pouco, até os crentes vão abandonar as boas maneiras para eleger trogloditas.

Mas eu só vou sossegar diante dessa reviravolta semiótica quando esses tais incorporarem mais algumas atitudes esquerdistas, como, por exemplo, serem contra a instituição do rico.

Sim, do rico, aquele que para existir precisa, necessariamente, gerar 900 pobres.

Aliás, cá pra nós, por que nenhum desses informais de vitrine é contra a propriedade privada dos pesados meios de produção?

  

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