Num ponto de táxi aqui perto de
casa há um carro com um adesivo no centro da parte superior do para-brisa em
que está escrito “Fora Dória” e “Globolixo”.
Perfeito!, não gosto do Dória nem da Globo.
Na antena de teto do mesmo carro está hasteada uma bandeira
verde-amarela do Brasil. Perfeito!, sou brasileiro e estou quase satisfeito.
(Pensando bem e analisando as alternativas, até que é
razoável ser brasileiro. É possível que eu mereça a qualificação de patriota.).
Continuemos com os signos estampados no táxi. O taxista. É
um rapaz de informal estampa, tênis, calça jeans, camiseta, barba de 15 dias e
farta cabeleira presa por um rabo de cavalo.
Perfeito!, segundo minha rebelde estética anos 1970.
Entretanto...
Contudo..., trata-se de um bolsonarista militante, o tal
taxista.
Como eu sei? Sim, sei e ninguém me contou. O ponto fica
perto de casa, mas na contra-mão. Nunca peguei táxi ali não, até porque pego um
táxi na vida, outro na morte.
Sei porque li os signos. O conjunto dos signos, sem
esquecer a época e o local em que são exibidos. Em SP, atualmente, ser militantemente
contra Dória e Globo ao mesmo tempo é bolsonarismo na certa. Se adicionar a
bandeira, é certeza.
Nos anos 1980, esse conjunto de signos denunciaria um
petista. Mas os petistas, depois de vencerem quatro eleições seguidas, deixaram
de ser antissistema e passaram a defender o Supremo. Os petistas, agora, fazem passeatas uniformizados com coletes de identificação...
Em 1980, esse jovem taxista, nascido numa família
patriarcal de moral cristã, classe e escolaridade média baixa, seria automaticamente
anticomunista, meritocrata, racista, machista e defensor da Rota na Rua.
Esse jovem nasceu naquela década, diga-se. Seu equivalente
de então votava em vereador que prometia asfaltar a rua e no prefeito que
prometia acabar com os bikinis. Mas, principalmente, usava barba escanhoada,
sapato preto engraxado e terno e gravata para dirigir seu táxi.
Quarenta anos depois, no centenário da Revolução Soviética,
a Direita se apropriou dos ícones da Esquerda. O youtuber ultra liberal que
defende a legalização do partido nazista fuma maconha on line.
Inconformados e ignorantes herdeiros de fortunas fumam paiêros e usam barbas e
cabelos ao vento a la Fidel e Chê.
Em 2022, o jovem taxista continua prisioneiro da sua
ignorância sistêmica e, enquanto esperneia, leva água para o moinho da
contra-mudança. Ninguém escapa da vertiginosa e confusa escalada dos signos,
enquanto não se descobre que peido de pato não é incenso.
Daqui a pouco, até os crentes vão abandonar as boas
maneiras para eleger trogloditas.
Mas eu só vou sossegar diante dessa reviravolta semiótica
quando esses tais incorporarem mais algumas atitudes esquerdistas, como, por
exemplo, serem contra a instituição do rico.
Sim, do rico, aquele que para existir precisa,
necessariamente, gerar 900 pobres.
Aliás, cá pra nós, por que nenhum desses informais de
vitrine é contra a propriedade privada dos pesados meios de produção?
Nenhum comentário:
Postar um comentário