terça-feira, 30 de agosto de 2016

A ZELITE

A ZELITE DE VERDADE

O homicida-suicida carioca pensava que era da zelite. Aí, quando descobriu a verdade, preferiu matar a mulher e os filhos e se suicidar.

Você pertence à zelite?

Conheço muito pé-rapado que pensa que é da zelite. A expressão “pé-rapado” é típica de quem é ou gostaria de ser da zelite.

Mas que diabos é zelite? Bom, aí é muita metafísica pra explicar. Sendo que se a gente botar metafísica no meio, não dá pra explicar. Porque, se a terra vai comer todo mundo, não existe a zelite: todos são iguais.

Sendo práticos, há muita zelite por aí sim, num sistema tão desigual como o nosso. Porém, todas muito relativas, todas muito discutíveis.

Tem assalariado que, só porque pensa que ganha bem e ganha tapinha nas costas do chefe (outro assalariado), pensa que é da zelite econômica.

E passeia com ela, e pensa com ela, e milita com ela, e vota com ela…

Ainda quando é demitido, continua passeando e pensando e militando e votando com essa zelite.

Só descobre a verdade meses depois, sofrendo pra caramba, em plena fila do SUS. Que, diga-se de passagem, não tem mais fila, só senha, sala de espera com cadeira e TV e até agendamento de consultas – algo até digno, se o cidadão não for muito zelitoso demais.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

COPA DE 2014: FUTEBOL, DEUS, ACASO E RAZÃO.

     Deus existe? Mas claro! Senão, como explicar os 7x1 de Brasil e Alemanha? Aquilo foi puro castigo divino a nossa soberba. E a quantidade de jogador fazendo o sinal da cruz? Acaso também existe. Todos os gols do Fred, por exemplo. E do David Luis. O gol do Van Basten, da Holanda na Espanha. Já o gol do James Rodrigues é pura razão: a bola é acolhida, ajeitada e chutada, sem mais nem menos tempo que o necessário e com intensidade e curva adequadas.

     Pelé e Maradona são indícios de que Deus está entre os homens. Já Ademir da Guia, apesar de ser chamado de divino, era razão pura, sinal de que há espaço no mundo para os ateus. Fred e David Luis são oportunistas. Por acaso, a bola bate neles ou eles batem na bola e, sendo o adversário azarado, a bola entra e é gol. Zico e Sócrates eram racionais. Gerson não tinha fé, sorte ou razão: só queria levar vantagem.


     Mas há situações ou craques que não têm explicações divina, casuística ou racional. É o caso de Neymar, malabarista mambembe. Que brilha quando encontra um companheiro capaz de lhe enfiar bolas na cara do gol, fruto de uma curva cartesianamente traçada, como é o caso de Ganso, outro racional. Artífice do produto final, Neymar é badalado pelos alto-falantes midiáticos, segundo os rasos interesses de seus operadores. Isso deve explicar a inapetência atual do Ganso.


     Outro mágico de circo é Ronaldinho Gaúcho. Já Kaká não se enquadra em nada do que foi dito até agora. É apenas um bom rapaz, que toda sogra gostaria de ter como genro. Ainda não se enquadram nessas três balizas propostas os casos fortuitos de Oscar, que cisca, de Hulk, que tromba, de Júlio Cesar, que franga e dá entrevista, e de Tiago Silva, que chora. Todos rezam. Sendo que o vice-capitão David queria levar alegria a seu povo, mas não foi eleito.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

LINHA AMARELA, ESTAÇÃO PAULISTA

     Prezados turistas, São Paulo encanta na saúde e na doença... Vocês querem conhecer o verdadeiro caráter paulistano? Venham comigo. Embarquem na Estação Brigadeiro da linha verde do metrô. Desçam na Estação Consolação e embarquem na linha amarela, em direção ao Terminal Butantã. Vão e voltem.
 
     Vamos. Na transição entre a linha verde e a amarela, vocês conhecerão a verdadeira racionalidade paulistana. Logo encontram uma esteira rolante. Desligada! Não tem problema, caminhem sobre ela. É uma sensação que vocês, oh turistas lá dos cafundós do Judas, nunca sentiram. Mas, se ela estiver rolando, caminhem assim mesmo. Porque se esperarem serem transportados, serão atropelados pelos esforçados paulistanos de verdade. Serão xingados. No mínimo serão mal-olhados.

     Vencido o trecho das caras e futuristas esteiras que não rolam, preparem-se para emocionantes zigue-zagues. Não se preocupem com a sinalização, senão se perderão. Soltem o corpo e deixem-se levar. Caprichem nas curvas. Quando derem num retão, estarão sobre as plataformas. Preparem-se! Fiquem atentos ao caudal humano que vem no sentido contrário do lado esquerdo. Porque logo ali na frente vocês baterão de frente com ele, eis que sua plataforma está também à esquerda. E cuidado com os corpos que atravessam esse rio em que estão inseridos. Mas pensem no lado positivo. É uma experiência inusitada essa de atravessar um rio de gente apressada.

     Desçam a escada fixa colados à direita e não ousem peitar quem vem subindo. Embora inferiorizados pela ação da gravidade, esses paulistanos que sobem atrasados, pensando na comida de rabo da chefia. (quase todo paulistano leva uma dessas comidas ao menos uma vez por semana e, apesar dessa frequência, não se acostumam), são fortes e podem vos derrubarem. Aguardem o trem no primeiro piso encontrado. O espaço claustrofóbico dado por paredes de ambos os lados e a inexistência de qualquer linha férrea no campo visual não significam que ali não passará um trem. Vocês verão que daí a pouco duas portas se abrirão naquele tapume de acrílico fumê e um modernoso trem estará à espera. Entrem confiantes de que naquela linha amarela o trem vai e vem direitinho, apesar de andar sozinho, sem maquinista. E são muito bons também aqueles tapumes de acrílico em todas as estações. Eles não deixam nenhum paulistano inconformado pular na frente do trem e atrapalhar vossa viagem e vosso turismo. Creiam, existem muitos paulistanos inconformados.

     Cuidado na volta, para embarcarem na linha verde novamente. Na ida aquela estação se chama Consolação, mas na volta ela se chama Paulista. Os nomes mudam, mas o lugar é o mesmo. Coisa de paulistano. Aí, de novo, vocês disputarão escadas fixas, atravessarão rios e integrarão rios de rolantes humanos e, enquanto partículas desse rio, sustentarão outros humanos em contrárias travessias e, outra vez, não tentem se orientar pela sinalização, para não se perderem. Soltem o corpo e deixem-se levar. Finalmente voltarão ao alívio da menos burra e estatal linha verde. Desçam na Brigadeiro e, se estiverem com fome, comam dois pastel e tomem um chopps no Pastel da Maria, na esquina da Av. Paulista com a R. Carlos Sampaio. Em pé. E se continuarem com fome, paciência, porque já gastaram tudo que deviam e um pouco mais no almoço.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A VIOLÊNCIA E OUTRAS MUTRETAS

A VIOLÊNCIA E OUTRAS MUTRETAS. 

Quando Deus era jovem, a coisa era assim: olho por olho, dente por dente. Bateu, levou. Toda ação provocava uma reação. O violentado dava o troco, na mesma moeda.

Na medida do possível e quando podia, é claro. Imagina o sujeito na delegacia levando um sopapo do delegado e dando outro de volta? E tem marmanjo burro que faz isso e se arrepende na porrada.

O sujeito vai crescendo e aprende algumas manhas. Fica de butuca, joga uma casca de banana... Bate na conversa, maldando. Goza, tira lasca, desmoraliza na maciota. Encosta o corpo, joga. Pega o fortão no contra-pé, usa a funda, feito David, e mata na pedrada.

Aí vem a maturidade. Os filhos. Mas o pobre continua levando tapa na cara. Só que, sábio, oferece a outra face, dissimulado. E desmoraliza os ingleses, feito Gandhi. E destrói um império, feito Cristo.


Mas os do andar de cima não se tocam. Fazem de conta que não é com eles. E continuam pespegando em suas mucamas esses uniformes ridículos de cores e barrados infantis. E continuam frequentando cheios de pompa os bailes da ilha fiscal.


E vem os filhos. E volta os filhos. Cansados da opressão acumulada. Sábios na imaturidade, a parafrasear Nelson Rodrigues: toda violência será castigada. E danam-se a quebrar Bradescos