Prezados turistas, São Paulo encanta na saúde e na doença... Vocês querem conhecer o verdadeiro caráter paulistano? Venham comigo. Embarquem na Estação Brigadeiro da linha verde do metrô. Desçam na Estação Consolação e embarquem na linha amarela, em direção ao Terminal Butantã. Vão e voltem.
Vamos. Na transição entre a linha verde e a amarela, vocês conhecerão a verdadeira racionalidade paulistana. Logo encontram uma esteira rolante. Desligada! Não tem problema, caminhem sobre ela. É uma sensação que vocês, oh turistas lá dos cafundós do Judas, nunca sentiram. Mas, se ela estiver rolando, caminhem assim mesmo. Porque se esperarem serem transportados, serão atropelados pelos esforçados paulistanos de verdade. Serão xingados. No mínimo serão mal-olhados.
Vencido o trecho das caras e futuristas esteiras que não rolam, preparem-se para emocionantes zigue-zagues. Não se preocupem com a sinalização, senão se perderão. Soltem o corpo e deixem-se levar. Caprichem nas curvas. Quando derem num retão, estarão sobre as plataformas. Preparem-se! Fiquem atentos ao caudal humano que vem no sentido contrário do lado esquerdo. Porque logo ali na frente vocês baterão de frente com ele, eis que sua plataforma está também à esquerda. E cuidado com os corpos que atravessam esse rio em que estão inseridos. Mas pensem no lado positivo. É uma experiência inusitada essa de atravessar um rio de gente apressada.
Desçam a escada fixa colados à direita e não ousem peitar quem vem subindo. Embora inferiorizados pela ação da gravidade, esses paulistanos que sobem atrasados, pensando na comida de rabo da chefia. (quase todo paulistano leva uma dessas comidas ao menos uma vez por semana e, apesar dessa frequência, não se acostumam), são fortes e podem vos derrubarem. Aguardem o trem no primeiro piso encontrado. O espaço claustrofóbico dado por paredes de ambos os lados e a inexistência de qualquer linha férrea no campo visual não significam que ali não passará um trem. Vocês verão que daí a pouco duas portas se abrirão naquele tapume de acrílico fumê e um modernoso trem estará à espera. Entrem confiantes de que naquela linha amarela o trem vai e vem direitinho, apesar de andar sozinho, sem maquinista. E são muito bons também aqueles tapumes de acrílico em todas as estações. Eles não deixam nenhum paulistano inconformado pular na frente do trem e atrapalhar vossa viagem e vosso turismo. Creiam, existem muitos paulistanos inconformados.
Cuidado na volta, para embarcarem na linha verde novamente. Na ida aquela estação se chama Consolação, mas na volta ela se chama Paulista. Os nomes mudam, mas o lugar é o mesmo. Coisa de paulistano. Aí, de novo, vocês disputarão escadas fixas, atravessarão rios e integrarão rios de rolantes humanos e, enquanto partículas desse rio, sustentarão outros humanos em contrárias travessias e, outra vez, não tentem se orientar pela sinalização, para não se perderem. Soltem o corpo e deixem-se levar. Finalmente voltarão ao alívio da menos burra e estatal linha verde. Desçam na Brigadeiro e, se estiverem com fome, comam dois pastel e tomem um chopps no Pastel da Maria, na esquina da Av. Paulista com a R. Carlos Sampaio. Em pé. E se continuarem com fome, paciência, porque já gastaram tudo que deviam e um pouco mais no almoço.
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