sexta-feira, 22 de junho de 2018

A P. O.


A      P.  O.
Vinha do parque, um casal de P.O. revistava alguém encostado na parede da casa rente à calçada. O homem escarafunchava todos os meandros das vestes e pochetes e mochilas e meias e tênis e lenços do jovem de bermudão e boné e pele escura, depois de apalpar, com astúcias de sexoterapeuta e minúcias de acupunturista, todas as partes pudendas ou não do desinfeliz, enquanto a mulher assistia, atenta à cena e às redondezas. Tanto que viu o homem branco quase loiro com pinta de fresco que passava a observar, na borda do asfalto, após a fila de carros estacionados no meio-fio. Me esboçou um sorriso, pedindo aprovação. Não, sorriu pra mim, certa da aprovação.
 Eu vinha de uma caminhada no parque, estava com uma camiseta estilosa verde limão, que para mim é amarelo-cheguei, uns óculos escuros e uns tênis que, embora surrados e baratos, eram Asics. Embora escuros e estilosos também, os óculos eram de grau, receitados pelo médico, por causa de meus olhos claros mas, apesar do boné chinfrim, eu realmente parecia pertencer à classe dos frescos, se é que não era, realmente… O fato é que, na pressa da passagem e na emoção da abordagem lá deles, a mulher me considerou um legítimo representante da categoria idolatrada e, subservientemente, sorriu pra mim. 
É uma felicidade ser flagrado num ato agradável a alguém que valorizamos. Sentimos na hora o calor do foco meritocrata.
Assim como uma greve total dos lixeiros não precisaria de mais de duas semanas para fazer com que metade dos habitantes da megalópole a abandonassem, incomodados com o fedor e acossados pelos mosquitos e as doenças, o status quo não duraria nem duas semanas sem a P.O. Não, não é o sistema judiciário nem a imprensa oligopolista que sustenta o regime. Tampouco é a polícia política ou o serviço secreto ou mesmo o aparato bélico das Forças Armadas. Sem a P.O. e seu trabalho minucioso e abrangente de controle e repressão cotidiana aos pequenos atos individuais de rebeldia do povo pobre e desorganizado, o Sistema não duraria duas semanas. É a P.O. que sustenta essa putaria.

terça-feira, 19 de junho de 2018

VIDA DE CASADO.


Amigas e amigos, tô pensando em investir no setor de serviços. Virtual, claro. Um blog de largo interesse. Algo do tipo “Blog da Vida de Casado”. Já disse que é da área de serviços, prestação de serviços. Serviços concretos, práticos. Dicas. Nada de lamentações, de falar mal da mulher, de reclamar de que trabalha muito e não é reconhecido. De que quando ela chega em casa do serviço, senta no sofá, pede pr’eu tirar o sapato dela, levar um licor de jenipapo pr’ela, enquanto já vai ligando a TV e nem olha p’ra mim, que dirá dar um beijinho. Não. Será um blog p’ra cima, senão não vende.
Não vende o quê? Serviços, ora. Uma espécie de assessoria virtual de como cuidar da casa. Da despensa ao quarto, dos metais aos papéis, das compras às dívidas, das janelas ao apocalipse. Tem de ser virtual, porque não posso sair de casa. Um bom dono de casa não fica batendo perna por aí. Tive a ideia quando precisei decifrar os símbolos das etiquetas de lavagem que vem nas roupas. Fiquei meia hora procurando e ainda tive de usar a imaginação para entender. E esse meu blog será para você, dono de casa, economizar a imaginação. No bom sentido, deixar a imaginação sobrando para outras searas físicas e metafísicas…
Então, no blog, começarei pelo mais elementar: como lavar a roupa da mulher, aquelas peças delicadas, como não cometer o suicídio de querer passar aquela blusinha de tecido sintético que ela comprou na Itália, na viagem de núpcias. Como escolher o melhor tintureiro para aquele vestido da festa de debutantes da sobrinha, a maneira correta de guardar as peças no armário, os produtos de cheiro apropriados para roupas… porque, se sua mulher pronunciar a palavra “fedendo” em relação a uma roupa dela que você lavou, pule pela janela que o machucado é menor.
Algo importante que vou ensinar vai ser sobre presentes p’ra mulher. Dicas, sempre. Porque, todos sabem, essa é uma área delicada do casamento. E as minhas dicas serão no sentido de preservar o casamento. Máquina de lavar, fogão, aspirador de pó, você nem vai pensar em dar p’ra ela, porque esses utilitários são usados por você. Um fim de semana com um garoto de programa num resort em Ubatuba, você também não precisa dar, que ela se vira. Quanto a um jantar fora, muito cuidado. Ela sempre pode pensar que você está com preguiça ou com falta de criatividade para cozinhar. E as joias, bem, são caras, o grosso do dinheiro está na conta dela, você teria de obter esse dinheiro com muito cuidado, aos poucos, ao longo do ano, é muito trabalho, não vale a pena.
Vocês vão gostar. Por exemplo: as bodas mensais de casamento. Aposto como vocês não sabem o nome do material que nomeia as Bodas de 10º mês. Como organizar as festinhas de aniversário. Como receber em casa. Como se comportar na frente da sogra. Quais os assuntos mais adequados para entabular com o pai dela. A melhor maneira de arrumar a mala dela, quando ela vai viajar a serviço. Os tipos de alimentos servidos no café da manhã, almoço, jantar, café da tarde, ceia; como escolher as músicas para tocar alto em casa que não a deixam irritada, os chás e unguentos para tosses e contusões, e uma infinidade de dicas sobre viagens de férias, decoração, chás de bebê, ops, chás de bebê não, bem-estar, comidinhas, de como conseguir autorização dela para aquela sua partida trimestral de futebol com os amigos… Aguardem!

quinta-feira, 14 de junho de 2018

VIDA ETERNA.


— Faça um pedido — disse a figura em minha frente, na sala da minha casa, onde até então eu me encontrava sozinho.

— Hã!? — reagi assustado.

Antes que eu tomasse pé da nova situação, a figura continuou, rápida:

— O senhor tem direito a um pedido.

Era um tipo andrógino, vestido com uma roupa gozada, lembrava um anjo, lembrava um gênio, sei lá, não vi de onde ele saiu. Quando vi, estava dentro da minha casa, conversando comigo. Eu estava meio sonolento, só tive condições de dizer “O quê?”

— Posso realizar o seu maior desejo — confirmou a figura.

Olhei em volta, olhei pela janela, estiquei minha perna danada, era minha casa mesmo e eu estava acordado. Mas continuei na pasmaceira: “Que história é essa?” esbravejei na direção dela.

— Estou esperando — insistiu, paciente, a pessoa.

— Pela vida eterna! — respondi, agora firme, com voz segura, para não deixar dúvidas de que eu era o chefe do domicílio, eis que a titular-chefa não se encontrava e, para o efeito específico de expulsar um estranho intruso, eu poderia me investir provisoriamente na função de dono da casa.

— Pois não — respondeu o(a) sujeito(a).

— Pois não o quê? — inquiri, exasperado.

— O senhor terá vida eterna. Agora, por favor, escolha a idade em que gostaria de viver para sempre.

Então comecei a perceber que a coisa era séria. A andrógino me chamava de senhor, mas não parecia nada subserviente. Antes, parecia um robô, sem brechas para titubeios, depois que acordei de vez. E agora eu já estava bem acordado e a figura na sala da minha casa era incontornável. Impossível o diálogo. Então retomei a calma, ao menos na maneira de falar, e retruquei, querendo saber que história era aquela de vida eterna. Ela(e) respondeu que isso já era assunto encerrado. Agora eu devia dizer a elae qual a idade. “Idade de quê?”, perguntei. Elae explicou mais uma vez que eu devia escolher a idade com que viveria para sempre. Eu poderia ser uma eterna criança, um eterno adolescente, um eterno velho...

— Peraí — alterquei — eu nunca pensei na vida eterna, eu nem sou religioso.

— Não se trata daquela vida eterna prometida por Deus não — explicou elae — é essa nossa vidinha mesmo, com todos os percalços da idade que o senhor escolher.

— Se eu não quero nem aquela vida eterna prometida por Deus, lá no bem bom do Paraíso, imagina se vou querer essa aqui, em plena floração protofascista, sem contar essa movimentação toda pra reformar a Previdência…

— Já disse que isso é assunto vencido. O senhor afirmou, agora há pouco, em palavras bem pronunciadas, que desejava a vida eterna. O desejo lhe foi concedido. Agora é preciso escolher a idade, para concluir o procedimento. Se dentro de dois minutos o senhor não escolher, escolho eu — sentenciou Elae.

Bom, pra esse tipo de dilema, dois minutos é uma eternidade. Dá pra analisar e repassar uma vida inteira. Pouco antes de terminar o tempo, eu decidi escolher a idade de 61 anos, que é a idade em que o homem está no auge do seu vigor físico e intelectual. Mas aí lembrei da minha hérnia de disco numa das lombares e, considerando que essa minha tese poderia gerar alguma polêmica, resolvi escolher a idade de 40 anos para viver pra sempre, já que não tinha mais jeito.

Quando anunciei minha escolha, Elae me explicou que o tempo continuaria correndo, eu faria aniversário todo ano, etc., só que eu seria um eterno quarentão. Eu envelheceria só no calendário e nos virtuais registros cadastrais. Quanto à minha escolha — 40 anos — Elae me parabenizou, disse que era uma escolha sábia, que essa sim é a melhor idade, inclusive para as mulheres. Eu estava sem jeito, não sabia onde pôr a cara, me submeter àquela besteira... Então me virei resoluto em direção a Elae para chutar o pau da barraca, ela(e) havia desaparecido. E eu me sentia com o corpo e a mente de um sujeito de 40 anos e a experiência de um de 61 anos. Então pensei que aquilo poderia ser bom. E me sentei no sofá. E viajei no tempo. (CONTINUA EM "VIDA ETERNA II").

VIDA ETERNA II.

(Continuação de "VIDA ETERNA")

Com 120 anos, eu era um homem absolutamente solitário. Todos os meus amigos e os filhos dos meus amigos já haviam falecido, meus tataranetos nem se aproximavam de mim (não precisava, eu tinha a saúde de um homem de 40 anos), por causa da minha ranhetice e da minha ignorância.
Sim, eu era um homem ignorante — no bom sentido, de desconhecer as novas tecnologias, os novos costumes, até o vocabulário, a literatura, a arte, a culinária. Eu continuava comendo arroz com feijão e ovo frito e dava um trabalhão danado pra encontrar esses ingredientes, eu morava só em minha casa, que parecia a toca de um animal pré-histórico, com móveis e eletrodomésticos e pratos e talheres só encontrados em museus. Aliás, meus tataranetos, tantos, eram tão estranhos, não via neles nenhum traço familiar.

Com 120 anos de idade, eu era o homem mais experiente do mundo. Eu era o homem mais sábio do mundo, aquela sabedoria real, que só o passar do tempo confere. E era essa sabedoria que impedia que eu aprendesse as novas maneiras e rotinas de se viver e manusear. Porque a aprendizagem depende do interesse, do entusiasmo. Aos 120 anos, eu não tinha nem uma coisa nem outra. Meu olhar batia num semblante e resvalava rápido na alma do interlocutor (lembrem-se de que eu não havia ultrapassado ainda nem o limiar da presbiopia). E o que eu via me desanimava, pela ausência de ineditismo. Eu já havia visto tudo. Eu já havia provado tudo (lembrem-se de que eu estava nessa vida quarentona e eterna há 59 anos, desde que, aos 61, me aparecera Elae, e tivera tempo e disposição para correr atrás de todos meus desejos).

Mulher, nem pensar, nenhuma mulher me suportava (sendo que, devo confessar, a recíproca era verdadeira. A velha mais apetitosa era criança, perto de mim).

Então, eu, aos 120 anos de idade, era um homem absolutamente anacrônico em plena forma. E havia o agravante de que eu não usava remédios nem ia ao médico. Pela simples razão — esqueceram? — de que meu corpo ainda não precisava. E isso era mais um fator de isolamento. Limitava minha sociabilidade(eis que a sociabilidade dos velhos se dá nas antessalas de consultórios e hospitais, ou idas a drogarias). Tudo bem, eu ainda tinha disposição para praticar esportes, muitos ainda em bases competitivas. Mas era impossível conviver com a infantilidade dos homens e mulheres de 35 anos ou aprender as regras das novas modalidades. E por mais que eu me refugiasse no sofá a ver TV, minha coluna vertebral continuava incólume, a sustentar minha saúde indestrutível. (os gadgets de então — microcomputadores e smartphones haviam desaparecido; a TV funcionava, parada no tempo — estavam fora do meu alcance, por incapacidade de aprender a manuseá-los).

Sei lá, estou aqui me beliscando, sonho tenho certeza de que não é. Acho que eu não devia ter comido tanto. Poderia ter esperado um pouco mais pra deitar, realizado os exercícios de relaxamento receitados pela fisioterapeuta(se não fosse tão preguiçoso). Poderia ter feito uma reza...

domingo, 10 de junho de 2018

CONVERSA NA CATEDRAL.


Calçada da Av. da Aclimação, as duas mulheres vinham num passo titubeante, quase parando. Bati o olho e saquei. Assim mesmo diminuí o passo, uma delas aproveitou:
Podemos conversar com o senhor?
Sobre o quê?
Eu sabia muito bem sobre o que elas queriam conversar comigo. Nem é preciso ser muito observador para sacar rápido sobre essas duplas de mulheres que infestam São Paulo, especialmente nos finais de semana. Há também alguns homens, às vezes. Se tivesse que opinar, diria que as duas eram bonitas. Na faixa dos trinta anos de idade, visual bem cuidado, vestidas com sobriedade, uma usava saia e a outra vestido, mangas curtas e nenhum decote na parte de cima e, embaixo, saia e vestido cinco centímetros abaixo do joelho. Sapato sem salto alto, meia. Maquiagem discreta e cabelos bem-arrumados, sem destaque. Ambas com cinturas bem delineadas.
O fato é que me deu vontade de conversar com elas, ainda que eu não me interessasse pelo único tema que assola dia e noite, da juventude à velhice, suas graciosas cabecinhas. E elas — ao menos a que começou — queria conversar comigo, mesmo sabendo que eu era ateu ou pastor luterano. Sendo que nem aquele, nem este, toleram as Testemunhas de Jeová e vice-versa.
Porque eu tenho cara de ateu ou de pastor protestante, segundo o contexto e o interlocutor. Alguns, mais delicados, para disfarçar, perguntam se eu sou professor. Mas eu sei o que estão pensando. Quando eu era mais jovem, havia uma terceira suspeita: padre. Mas agora, com esse semblante carregado de velho, já deixei de parecer padre e não sei se isso é uma vantagem ou desvantagem.
A moça queria conversar comigo e eu queria conversar com a moça, ainda que ambos soubessem do desencontro incontornável de interesses. Enfim, eu fui com a cara da moça e ela foi com a minha cara, só pode ser.
Sobre a Bíblia — respondeu ela.
Ah, não, eu não mexo com isso não — respondi.
O senhor nunca leu a Bíblia? — intrometeu-se a outra, quebrando nosso futuro idílio. É que ela percebeu minha resposta provocativa, embora chocha, indício de ovelha desgarrada, treinada que é nas lides de caçar e pescar. Olhei para ela, as duas pareciam irmãs, porque educadas pelo mesmo pai, tamanha a uniformidade de gestos e entonação da voz(sendo que esse povo é criado sob o jugo de duas autoridades: a dona de casa e o chefe do domicílio). Então, para meu desgosto e desgosto da outra, suponho — não tenho culpa se a manhã domingueira estava radiante e eu estava de bom humor e cheio de autoconfiança e nenhuma modéstia —, tive de entrar no assunto que nos desunia:
Já li a Bíblia de cabo a rabo. Do Gênese ao Apocalipse. — respondi, triunfante com esta e desesperançado com aquela. Então a da Bíblia destemperou a querer saber se eu lia a tal com frequência, eu disse que às vezes conferia alguma citação lá, ela perguntou se diariamente, eu quase subi nas tamancas — e a outra muda —; eu, então, antes que nossa conversa azedasse, disse-lhes, me dirigindo à muda desconsolada, que meu interesse pela Bíblia era literário e histórico. Esse “literário e histórico” deixou as duas pálidas. Então nos despedimos civilizadamente, com desejos recíprocos de bom dia.
Segui meu caminho, eu e meus botões: essas comedidas e santas mulheres guardam similitudes com as putas. Essas e aquelas se postam na via pública a chamar os homens que passam. Essas querendo levá-los para o céu; aquelas, para a cama. Eu não tenho dúvidas de qual seja o melhor destino.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

TERRENO NO MORUMBY.


De longe vi a folha de papel sulfite, tamanho A4, pregada na banca. Não pelo tamanho, mas é que só tinha ela naquele lado. Já fiquei curioso, porque faz 40 anos que aquela lateral da banca é cinza metálico puro. E faz 40 anos que vejo o casal-dono labutando nela, eu tinha nenhum filho e um turbilhão de cabelos. Até hoje não sei o nome dos donos da banca, embora sejamos velhos conhecidos. Fui chegando mais perto, tinha coisa escrita, não era uma simples folha em branco, como tive a impressão, logo que a vi de longe. Letras de computador impressas numa impressora caseira. “VENDO TERRENO NO MORUMBY, LOCALIZAÇÃO NOBRE. PERTO DO TÚMULO DO AIRTON SENNA. 16 MIL. TEL. (11) TAL TAL TAL”. Do outro lado da banca, outra A4 com os mesmos dizeres. O anunciante está realmente querendo vender o terreno. Tô sabendo sim que terreno de cemitério já virou ativo imobiliário. Só num tô acostumado. Não frequento os veículos publicitários onde tais anúncios são publicados. Não converso sobre o assunto, quase todos meus amigos são meio imprevidentes e digo mais: irresponsáveis! A descendência que se lasque com seus — lá deles, meus amigos — corpos, de maneira que ignoro detalhes óbvios do cerimonial da morte. E está claro que se o dono do tal terreno perto do túmulo do Senna quiser me transferi-lo(me recuso a escrever "me o transferir") de graça, eu não aceito. Mas fiquei curioso sobre o grau de proximidade do tal terreno em relação aos ossos do exímio piloto. E encafifado com a suposta preferência do público em ter seus restos perto dos restos do Airton. Porque o anúncio não deixa dúvidas quanto a essa preferência. Eu, se me importasse com meus restos, não gostaria de ser enterrado perto do túmulo do ídolo. Ora, sabe-se que o túmulo do piloto é objeto de muitas visitas diárias. Deve ser um vai-e-vem danado. Quando eu morrer, quero que meus restos tenham sossego. Gente sentando sobre minha lápide, caçoando do meu epitáfio; gente se aliviando ali mesmo, na urgência de um banheiro inalcançável… No dia de finados, então, deve ser um escarcéu, meu túmulo sob a multidão incabível, meus entes queridos impedidos de se aproximar, eu, ops, meus restos ali ao lado sem nenhuma lágrima, assistindo ao vizinho famoso se banhar em ignaras lágrimas de prantos vários. No dia seguinte, quando o coveiro for remover a parafernália de oferendas sobre o túmulo do Airton, aquelas flores já fedendo, é evidente que ele, o coveiro, vai usar a minha pedra como apoio para aquela imundíça, até a chegada do caminhão de lixo. Bom, não creio que os vendedores do terreno sejam os donos da banca. Acho que estão ajudando algum amigo. Sei lá, alguém que desistiu de morrer.