Calçada
da Av. da Aclimação, as duas mulheres vinham num passo titubeante,
quase parando. Bati o olho e saquei. Assim mesmo diminuí o passo,
uma delas aproveitou:
—
Podemos
conversar com o senhor?
—
Sobre
o quê?
Eu
sabia muito bem sobre o que elas queriam conversar comigo. Nem é
preciso ser muito observador para sacar rápido sobre essas duplas de
mulheres que infestam São Paulo, especialmente nos finais de semana.
Há também alguns homens, às vezes. Se tivesse que opinar, diria
que as duas eram bonitas. Na faixa dos trinta anos de idade, visual
bem cuidado, vestidas com sobriedade, uma usava saia e a outra
vestido, mangas curtas e nenhum decote na parte de cima e, embaixo,
saia e vestido cinco centímetros abaixo do joelho. Sapato sem salto
alto, meia. Maquiagem discreta e cabelos bem-arrumados, sem destaque.
Ambas com cinturas bem delineadas.
O
fato é que me deu vontade de conversar com elas, ainda que eu não
me interessasse pelo único tema que assola dia e noite, da juventude
à velhice, suas graciosas cabecinhas. E elas — ao menos a que
começou — queria conversar comigo, mesmo sabendo que eu era ateu
ou pastor luterano. Sendo que nem aquele, nem este, toleram as
Testemunhas de Jeová e vice-versa.
Porque
eu tenho cara de ateu ou de pastor protestante, segundo o contexto e
o interlocutor. Alguns, mais delicados, para disfarçar, perguntam se
eu sou professor. Mas eu sei o que estão pensando. Quando eu era
mais jovem, havia uma terceira suspeita: padre. Mas agora, com esse
semblante carregado de velho, já deixei de parecer padre e não sei
se isso é uma vantagem ou desvantagem.
A
moça queria conversar comigo e eu queria conversar com a moça,
ainda que ambos soubessem do desencontro incontornável de
interesses. Enfim, eu fui com a cara da moça e ela foi com a minha
cara, só pode ser.
—
Sobre
a Bíblia — respondeu ela.
—
Ah,
não, eu não mexo com isso não — respondi.
—
O
senhor nunca leu a Bíblia? — intrometeu-se a outra, quebrando
nosso futuro idílio. É que ela percebeu minha resposta provocativa,
embora chocha, indício de ovelha desgarrada, treinada que é nas
lides de caçar e pescar. Olhei para ela, as duas pareciam irmãs,
porque educadas pelo mesmo pai, tamanha a uniformidade de gestos e
entonação da voz(sendo que esse povo é criado sob o jugo de duas
autoridades: a dona de casa e o chefe do domicílio). Então, para
meu desgosto e desgosto da outra, suponho — não tenho culpa se a
manhã domingueira estava radiante e eu estava de bom humor e cheio
de autoconfiança e nenhuma modéstia —, tive de entrar no assunto
que nos desunia:
—
Já
li a Bíblia de cabo a rabo. Do Gênese ao Apocalipse. — respondi,
triunfante com esta e desesperançado com aquela. Então a da Bíblia
destemperou a querer saber se eu lia a tal com frequência, eu disse
que às vezes conferia alguma citação lá, ela perguntou se
diariamente, eu quase subi nas tamancas — e a outra muda —; eu,
então, antes que nossa conversa azedasse, disse-lhes, me dirigindo à
muda desconsolada, que meu interesse pela Bíblia era literário e
histórico. Esse “literário e histórico” deixou as duas
pálidas. Então nos despedimos civilizadamente, com desejos
recíprocos de bom dia.
Segui
meu caminho, eu e meus botões: essas comedidas e santas mulheres
guardam similitudes com as putas. Essas e aquelas se postam na via
pública a chamar os homens que passam. Essas querendo levá-los para
o céu; aquelas, para a cama. Eu não tenho dúvidas de qual seja o
melhor destino.
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