domingo, 10 de junho de 2018

CONVERSA NA CATEDRAL.


Calçada da Av. da Aclimação, as duas mulheres vinham num passo titubeante, quase parando. Bati o olho e saquei. Assim mesmo diminuí o passo, uma delas aproveitou:
Podemos conversar com o senhor?
Sobre o quê?
Eu sabia muito bem sobre o que elas queriam conversar comigo. Nem é preciso ser muito observador para sacar rápido sobre essas duplas de mulheres que infestam São Paulo, especialmente nos finais de semana. Há também alguns homens, às vezes. Se tivesse que opinar, diria que as duas eram bonitas. Na faixa dos trinta anos de idade, visual bem cuidado, vestidas com sobriedade, uma usava saia e a outra vestido, mangas curtas e nenhum decote na parte de cima e, embaixo, saia e vestido cinco centímetros abaixo do joelho. Sapato sem salto alto, meia. Maquiagem discreta e cabelos bem-arrumados, sem destaque. Ambas com cinturas bem delineadas.
O fato é que me deu vontade de conversar com elas, ainda que eu não me interessasse pelo único tema que assola dia e noite, da juventude à velhice, suas graciosas cabecinhas. E elas — ao menos a que começou — queria conversar comigo, mesmo sabendo que eu era ateu ou pastor luterano. Sendo que nem aquele, nem este, toleram as Testemunhas de Jeová e vice-versa.
Porque eu tenho cara de ateu ou de pastor protestante, segundo o contexto e o interlocutor. Alguns, mais delicados, para disfarçar, perguntam se eu sou professor. Mas eu sei o que estão pensando. Quando eu era mais jovem, havia uma terceira suspeita: padre. Mas agora, com esse semblante carregado de velho, já deixei de parecer padre e não sei se isso é uma vantagem ou desvantagem.
A moça queria conversar comigo e eu queria conversar com a moça, ainda que ambos soubessem do desencontro incontornável de interesses. Enfim, eu fui com a cara da moça e ela foi com a minha cara, só pode ser.
Sobre a Bíblia — respondeu ela.
Ah, não, eu não mexo com isso não — respondi.
O senhor nunca leu a Bíblia? — intrometeu-se a outra, quebrando nosso futuro idílio. É que ela percebeu minha resposta provocativa, embora chocha, indício de ovelha desgarrada, treinada que é nas lides de caçar e pescar. Olhei para ela, as duas pareciam irmãs, porque educadas pelo mesmo pai, tamanha a uniformidade de gestos e entonação da voz(sendo que esse povo é criado sob o jugo de duas autoridades: a dona de casa e o chefe do domicílio). Então, para meu desgosto e desgosto da outra, suponho — não tenho culpa se a manhã domingueira estava radiante e eu estava de bom humor e cheio de autoconfiança e nenhuma modéstia —, tive de entrar no assunto que nos desunia:
Já li a Bíblia de cabo a rabo. Do Gênese ao Apocalipse. — respondi, triunfante com esta e desesperançado com aquela. Então a da Bíblia destemperou a querer saber se eu lia a tal com frequência, eu disse que às vezes conferia alguma citação lá, ela perguntou se diariamente, eu quase subi nas tamancas — e a outra muda —; eu, então, antes que nossa conversa azedasse, disse-lhes, me dirigindo à muda desconsolada, que meu interesse pela Bíblia era literário e histórico. Esse “literário e histórico” deixou as duas pálidas. Então nos despedimos civilizadamente, com desejos recíprocos de bom dia.
Segui meu caminho, eu e meus botões: essas comedidas e santas mulheres guardam similitudes com as putas. Essas e aquelas se postam na via pública a chamar os homens que passam. Essas querendo levá-los para o céu; aquelas, para a cama. Eu não tenho dúvidas de qual seja o melhor destino.

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