A P. O.
Vinha
do parque, um casal de P.O. revistava alguém encostado na parede da
casa rente à calçada. O homem escarafunchava todos os meandros das
vestes e pochetes e mochilas e meias e tênis e lenços do jovem de
bermudão e boné e pele escura, depois de apalpar, com astúcias de
sexoterapeuta e minúcias de acupunturista, todas as partes pudendas
ou não do desinfeliz, enquanto a mulher assistia, atenta à cena e
às redondezas. Tanto que viu o homem branco quase loiro com pinta de
fresco que passava a observar, na borda do asfalto, após a fila de
carros estacionados no meio-fio. Me esboçou um sorriso, pedindo
aprovação. Não, sorriu pra mim, certa da aprovação.
Eu vinha de
uma caminhada no parque, estava com uma camiseta estilosa verde
limão, que para mim é amarelo-cheguei, uns óculos escuros e uns
tênis que, embora surrados e baratos, eram Asics. Embora escuros e
estilosos também, os óculos eram de grau, receitados pelo médico,
por causa de meus olhos claros mas, apesar do boné chinfrim, eu
realmente parecia pertencer à classe dos frescos, se é que não
era, realmente… O fato é que, na pressa da passagem e na emoção
da abordagem lá deles, a mulher me considerou um legítimo
representante da categoria idolatrada e, subservientemente, sorriu
pra mim.
É uma felicidade ser flagrado num ato agradável a alguém
que valorizamos. Sentimos na hora o calor do foco meritocrata.
Assim
como uma greve total dos lixeiros não precisaria de mais de duas
semanas para fazer com que metade dos habitantes da megalópole a
abandonassem, incomodados com o fedor e acossados pelos mosquitos e
as doenças, o status quo não duraria nem duas semanas sem a
P.O. Não, não é o sistema judiciário nem a imprensa oligopolista
que sustenta o regime. Tampouco é a polícia política ou o serviço
secreto ou mesmo o aparato bélico das Forças Armadas. Sem a P.O. e
seu trabalho minucioso e abrangente de controle e repressão cotidiana aos
pequenos atos individuais de rebeldia do povo pobre e desorganizado,
o Sistema não duraria duas semanas. É a P.O. que sustenta essa
putaria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário