segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

TIRO E LOTERIA


Nunca dei um tiro na vida. Um tiro com arma de fogo, digo. 
Mas já peguei na mão, garrucha, revólver, cartucheira. 
Até já peguei uma carabina na mão. Mas tiro, nunca dei.
Nunca peguei um fuzil na mão, uma granada, nunca treinei para a guerra.

Me defendo com os olhos e a fé: os olhos da igualdade e a fé na humanidade.
Ninguém é mais forte que eu. Nem mais fraco.
Ninguém é mais humano que eu. Nem menos.
Não jogo na loteria. Não quero ficar rico.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O PRIMEIRO EBOOK QUE LI.


O PRIMEIRO EBOOK QUE LI.
Devo confessar a vocês que o primeiro livro digital (ebook) que li na vida tem o seguinte título: “UM MILHÃO DE PASSOS PENSOS. No Picadão de Cuyabá”, de um certo Roberto Buzzo. Foi publicado neste mês. Ora, sou antigo, tenho mais de sessenta. Gosto de livro de papel, com no mínimo 200 gramas de peso. E, de preferência, que tenha mais de 150 páginas. E que esteja surrado, se obtido em biblioteca ou sebo.
Mas, enquanto autor, fujo do livro impresso. É tudo muito caro: edição, diagramação, impressão. E, distribuição! A distribuição (colocar o livro nos pontos de venda) é quase tudo. Escrever é fácil, difícil é vender. Isso é assim para qualquer produto que se queira vender, desde um alfinete até um avião, passando pelo livro, que é uma mercadoria tanto quanto um sabonete.
Qualquer campanha publicitária custa uma fortuna. E o retorno é incerto. E tem coisa mais constrangedora do que um autor fazendo propaganda de seu livro? Tem: um médico ou um hospital fazendo propaganda de seus serviços.
Mas o mais constrangedor do livro impresso é o estoque. Um livro de 21x14x1,5cm pesa cerca de 200 gramas. Duzentas unidades desse livro ocupa no espaço da sua sala um espaço de 100(cem) litros e pesa tanto quanto uma saca de batatas (40 kg).
É quase inevitável que autores desconhecidos (em geral, de primeira viagem) e metidos a besta (que bancam a publicação, praticamente a única maneira de ver o livro publicado) passem pelo vexame de tropeçar no trambolho na sala por largo tempo, alguns até o fim da vida. Poucos mais pernósticos passam a vida a importunar pedestres próximo a museus, tentando desovar o estoque.
Porque o pretensioso manda imprimir 300 exemplares. Vende 100, com sorte e muito esforço. E fica com os 200 atrapalhando o direito do seu cônjuge de ir e vir.
O livro digital (ebook) é uma beleza. Pesa 0,00, tem o volume de 0,00 e até na memória do seu smartphone quase não existe (o meu ocupa meros 1300 Kb). E, num piscar de cliques, é colocado lá nas prateleiras virtuais das maiores livrarias do mundo, ao lado dos clássicos e dos best-sellers.
Quer dizer, mais ou menos. Menos, menos. De fato, ele está lá, público, à disposição de qualquer neozelandês, russo, francês. O diabo é que ele está entre bilhões de bits, um grão de areia no deserto.
Seus amigos e colegas e familiares não se interessam por ele, porque santo de casa não faz milagre. E os demais mortais têm mais quê fazer a perder tempo com as ideias de um desconhecido. Não, os demais mortais jamais tomarão conhecimento da sua existência. Para que o ebook saia desse biliardário anonimato, é preciso que um conhecido o mostre.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

BOA VISTA DA ADELAYDE


BOA VISTA DA ADELAYDE.
Bem poderia ser uma encruzilhada daquelas pra se fazer pacto. Apesar da venda do lado direito e da igrejinha do lado esquerdo, pode-se dizer que o lugar é ermo. A venda está fechada, não sei se pra sempre ou se só de manhã e dias de trabalho. Com o advento das motocicletas, todo mundo vai comprar qualquer quilo de sal em Inconfidentes, a 8 quilômetros. Na igrejinha, cujo padroeiro é o Senhor Bom Jesus, só tem missa uma vez por mês, que não tem padre pra atender tantas comunidades rurais espalhadas por essas grotas de montanha. Além do mais, as tentações daqui são raríssimas, o povo peca pouco, não precisa de mais de uma missa por mês. O povo trabalha muito, que essas vacas leiteiras carecem de ordenha todos os 366 dias do ano, não tem tempo para mais de uma missa por mês. O povo daqui é parco e pobre, contribui pouco, não paga duas horas-padre por mês. Nem campo de futebol nem de bocha nem de malha tem, que aqui não tem mais que dez metros contínuos de terra plana, exceto nos varjões do Moji, viável apenas aos sapos e capivaras, de tão encharcados.
Parou de chover há meia hora, a estradinha está um barro só. Ainda bem que vim de bota e não de tênis. Minha estradinha se eleva, depois cai de novo, de tal maneira que seu ponto mais elevado se localiza bem no centro do cruzamento com a outra estradinha, que faz o traçado oposto, com seu ponto mais baixo ali onde se cruzam. Cinco ou seis casinhas espalhadas num raio de 200 metros e não vejo, mas sei que o Rio Moji-Guaçu está 500 metros à esquerda, minha caminhada segue paralela a ele.
A igrejinha está fechada, mas em sua frente há vários moleques em roupas e comportamentos de missa. E apenas um adulto. Chego, pergunto se vai ter missa. O senhor Francisco me responde que é catequese. Estão esperando as catequistas. São três meninos e duas meninas, na faixa dos 10 anos de idade. No meu tempo, éramos catequizados aos 7 anos de idade. Não se usava o verbo, usava-se o substantivo: catecismo. Depois do advento do Carlos Zéfiro, o substantivo caiu em desgraça. Agora ninguém mais faz o catecismo, faz a catequese. Ou é catequizado. No meu tempo, aos 10 anos de idade, já éramos pecadores formados e já havíamos papado muita hóstia.
Começo a perguntar o nome das crianças. O primeiro que me responde é o Júlio Cesar. Depois o Mateus. São crianças que não estão acostumadas a falar com estranhos, respondem num grunhido quase ininteligível. Quando chego no Mateus, a menina mais alta, que, pela ordem de localização, está no final da fila e será a última a ser inquirida, sai andando lá para o fundo do quintal. Só fica a Ivone, que responderá depois do Dênis. A fujitiva já tem uns 12 anos e pensa que é mulher, não gostará de informar seu nome a um estranho atrevido. Aqui ainda estamos no tempo em que as mulheres baixam o olhar ou olham para o outro lado, quando cruzam com um homem, nem precisa ser muito estranho.
Sigo a viagem. Mais 3 meninonas e 2 meninos mirrados estão chegando para a catequese. Vou refletindo. Será que não foi esse sacramento, que recebi no limiar da minha primeira infância, que me manteve forte e saudável até aqui? Talvez. Mas certamente foram todas aquelas ameaças do fogo do inferno que me mantiveram na linha até os 16 anos. Ah! O ípsilon de Adelayde é por minha livre e pensativa conta.


domingo, 21 de outubro de 2018

COISA DO DIABO.


O APARELHINHO REALMENTE É COISA DO DIABO.
Lá vem textão. Não consigo aprender que aqui só funciona papo reto, curto e grosso. E rasteiro. E, se tiver uma pitada de desonestidade, melhor ainda. Sou cabeça dura. Dia desses, fiz uma citação desabonadora ao aparelhinho que quase me fez brigar com meu amigo André. Por que já não escrevo direto smartphone? Por que insisto em escrever nas entrelinhas e fazer tiradas irônicas? Em metáforas e catacreses, ainda que rasteiras? Por que não resumo tudo que penso já neste primeiro parágrafo, conforme todas as regras que aprendi na escola?
É que hoje é domingão e tenho tempo. Mas posso já adiantar que o aparelhinho é o final dos tempos. Sim, aquela coisa do Apocalipse, o Juízo Final. Vai lendo.
Sim, sei da manifestação-monstro que ocorreu ontem(20/10/18) em Londres(não pelos jornais brasileiros), vou escrever Brexit, notícia falsa, eleições fraudadas, essas picuinhas que estão na ordem do dia. Mas de leve, como acessórios. O grave e importante é que acordei tarde hoje, já disse que é domingo. Antes de tomar café, antes de olhar pela janela, acendi meu aparelhinho. Entrei no feicibuque. Algum amigo reclamava que fora roubado em 1 hora. Deduzi que ele estava se referindo ao horário de verão. Era hoje? Diabos, ninguém me avisou que hoje começa o horário de verão! Olhei a hora que meu aparelhinho me dava, não pensei que tivesse dormido tanto… ou o danado já estava atualizado ao novo horário? Confesso que havia pulado, rapidamente, durante a semana, todas as notícias que quisessem me informar sobre o horário de verão de 2018.
Com meu aparelhinho na mão, consulto o relógio do micro-ondas e o relógio de parede (sim, em minha casa ainda há relógio de parede). Batata! Meu aparelhinho já está 1 hora adiantado, que maravilha! Mas fico com a pulga atrás da orelha. Por mais que eu me desinteressasse pelo assunto, eu teria sido avisado, impossível! Vou ao supermercado. O relógio do carro bate com o do meu aparelhinho. Cruzo a Paulista. O relógio da prefeitura, aquele de rua, bate com o do meu aparelhinho. Putz, ando meio alienado ultimamente, nas coisas práticas da vida. Fico aí pelas ruas, preocupado com esse inacreditável candidato que está prestes a nos governar, e esqueço um detalhe tão real e decisivo em minha vida cotidiana, como esse do horário de verão. Chego em casa e a primeira coisa que faço é atualizar o relógio do micro-ondas e o de parede.
Essas duas peças de museu ficam na cozinha, onde permaneço, a fazer o almoço. Daí a pouco, minha cônjuge passa apressada na cozinha e me pergunta, assustada, se mexi nos relógios(Gostaria de dizer “mulher”, mas dizem que é machista, e não acho correto dizer “companheira”, porque isso tenho várias, e me nego a dizer “esposa”). Ela está envolvida com a Mostra de Cinema e segue horários rígidos, hoje. Eu, seguro, informo-lhe, displicentemente, “sim, horário de verão”. Ela cai matando, me esclarecendo que o horário de verão só começa em 04 de novembro e aproveita pra desfiar um rosário de recriminações quanto à forma que tenho gastado meu tempo ultimamente, no aparelhinho, no aparelhão… e ainda assim, não sei que o horário de verão não começa hoje...
Enfim, ia escrever sobre a suspeita de manipulação da votação do Brexit, via aparelhinho; sobre a manipulação da eleição do Trump, via aparelhinho; essas duas votações(ambas em 2016) apresentaram resultados estranhos, contrariaram todas as pesquisas e evidências, ambas decididas favoravelmente a certa direita sem escrúpulos, na véspera e no dia da votação, surpreendendo o mundo. Ia escrever que é impossível usar as redes virtuais a nosso favor sem ser desonesto; que doravante toda votação democrática está inviabilizada, enquanto durar essas caixas pretas que nos enfeitiçam, via aparelhinho… mas meu aparelhinho apita, opa! chegando mensagem nova no Whatsapp!


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

A VINGANÇA DO BAIXO CLERO.

Sabe aquele padre que nunca foi convidado para a festinha de aniversário do bispo? Aquele cabo que nunca foi pescar com o tenente? Aquele chefe de seção que nunca compartilhou uma cerveja com o superintendente? Aquele escriturário do fórum que se sente obrigado a chamar o juiz de excelência? Aquele deputado que em 20 anos no Parlamento só fez 4 discursos, sendo o mais extenso de 5 minutos? (e só aprovou dois projetos irrelevantes). Sabe aquele artesão que pensa que é artista?
O integrante do baixo clero se caracteriza por ocupar uma posição subalterna numa estrutura de poder.
 É o padre ou pastor, que está acima dos fiéis, mas sabe da sua insignificância perante a hierarquia eclesiástica. É o militar de baixa patente, temido/admirado em sua comunidade civil, mas impotente dentro do quartel. É o executivo das camadas intermediárias, chamado de chefe ou supervisor ou gerente, que só executa normas, sem nenhuma autonomia. É o funcionário público, admirado em casa por ter passado no concurso, mas perdido nos meandros dos protocolos burocráticos. É o deputado respeitado e temido em seu reduto e ignorado dentro da Câmara. É o suposto intelectual que só reproduz e só copia e é considerado a inteligência da família.
Mas o integrante do baixo clero não é só isso. Para que pertença realmente ao baixo clero, ele precisa ser medíocre. Não ter capacidade intelectual para desenvolver antídotos pessoais à irrelevância de sua existência. Para pertencer ao baixo clero, o sujeito precisa ser, além de insignificante dentro da estrutura a que pertence, um frustrado.
Entendido portanto que ninguém da ralé, da base mais rasteira da pirâmide social, pertence ao baixo clero. Esses assumem naturalmente a própria pequenez, sem qualquer ilusão de poder, cientes da condição de rebanho; desenvolvem estratégicas próprias de sobrevivência e legitimação. O baixo clero se localiza, essencialmente, dentro da classe média. A classe média baixa é um celeiro de baixo clero.
O baixo clero, ainda que tosco, sente os terríveis efeitos da arrogância dos superiores. E cozinha sua impotência, à espreita de se vingar.


domingo, 23 de setembro de 2018

Ele, o Coiso.


Ele, O Coiso.
Quem cultiva a memória faz menos besteira. Quem puxa pela memória, aprende com a História. Vivi intensamente a eleição presidencial de 1989. Já tinha mais de trinta anos e não sabia o que era aquilo. Minha geração cresceu durante a ditadura. Só conhecia o toma lá-dá cá da política menor feita por vereadores e deputados, e prefeitos do interior. Durante a ditadura, só restava aos parlamentares trocar os valores das emendas por votos, prática que ainda predomina. Os grandes temas eram decididos na caserna, com assessoria de FIESP, FEBRABAN e congêneres e certa Embaixada...
Em 1989 havia, no campo democrático e popular, duas candidaturas fortes: Brizola e Lula. No campo democrático e elitista, havia também dois candidatos representativos: Mário Covas e Ulysses Guimarães. E no campo oligarca, havia Paulo Maluf, representando a oligarquia urbana e Ronaldo Caiado, representando a oligarquia rural. Por fora, e sem razão, motoristas de táxi e alguns negociantes autônomos insistiam em votar no Maluf… Guilherme Afif Domingos e o seu partido liberal era o João Amoêdo da época.
Mas, em 1989, correndo por fora, como azarões, havia Enéas Carneiro, Fernando Gabeira, Roberto Freire e um tal Fernando Collor. Gabeira e Freire queriam só aparecer, alavancar suas carreiras futuras no parlamento e na Globo; Enéas e Collor eram franco-atiradores, tudo que viesse era lucro.
A inflação comia o dinheiro dos pobres. A correção monetária e o over night protegiam o dinheiro de quem tinha conta em banco. Baixo-assalariado recebia em cash; somente empresas maiores pagavam salário através de crédito em conta.
Um certo candidato Collor danou-se a dizer que ia acabar com os marajás. O povão logo entendeu, com a ajuda de certos jornalistas, que marajás eram todos que tinham conta em banco, desde assalariados médios até os políticos em geral. Grosso modo, quem tinha carteira assinada já era privilegiado, porque recebia férias, 13º e já era objeto da inveja daqueles que nem isso tinham. Um campo onde viceja a baixa escolaridade e a desigualdade (de renda e de oportunidades) é fértil à inveja.
Havia desemprego e o salário era baixo; o salário-mínimo menor que 100 dólares. Os benefícios da constituição de 1988, como aposentadoria rural, seguro-desemprego e farmácia popular, ainda não faziam efeito. A situação econômica estava insuportável. O pedreiro ou o marceneiro faziam o serviço e, na hora de receber, o que haviam cobrado valia a metade. O povão detestava os políticos tradicionais, que via como carreiristas, no mal sentido do termo. Por isso, não votava nem a pau em Maluf, Covas, Ulysses, Afif. Votava em Lula, o metalúrgico, e em Brizola, o perseguido e exilado. Nossas oligarquias urbana e rural, viúvas recentes do regime que se encerrava, estavam desesperadas. O povão rejeitava todos seus candidatos clássicos. Os democratas elitistas (isso é possível?) não aceitavam alguém sem diploma universitário no cargo de presidente.
De repente, algum publicitário notou aquele alagoano jovem, homão da porra, quase imberbe, que tinha um bordão pesado: caçador de marajás! E, de quebra, tinha “aquilo” roxo. Ele. O Coiso!
Enfim, a oligarquia desceu em peso n’o Coiso. E os desavisados foram atrás ou ficaram em casa. E um “petista” sequestrou o Abílio Diniz… E o Coiso foi eleito e atrasou nossa vida por mais de dez anos. Eu não votei n’Ele. N’#EleNão.






sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Ô TRISTEZA!

Saio na varanda para assuntar o dia. Tem sol e faz calor. Lindo! Vou à Zona Cerealista. O polvilho, no supermercado, está a 7,90 e na ZC está a 4,90. A castanha, no supermercado, é incomprável, por causa do preço; na ZC dá pra comprar uns 300 gramas. No Extra, aqui perto, quase nunca encontro farelo de aveia. E quando encontro, é naquelas caixinhas minúsculas, que devem ser a razão do preço ser o dobro lá do Empório Santa Filomena. Além do mais, la na Zona Cerealista encontro pimenta biquinho, tomate seco, damasco turco…
Posso ir de ônibus e descer no terminal D.Pedro II; posso ir de metrô e descer na estação Pedro II. E posso ir de bicicleta. Tudo de graça. Mas escolho ir a pé. Se ando 12 quilômetros no parque para suar, posso andar 3 quilômetros para abastecer minha despensa. Moro do lado oposto ao Brás, em relação ao centrão. A Zona Cerealista fica no Brás. Então, devo cruzar a Praça da Sé. Saio de casa planejando não só passar na Sé, como entrar na catedral. Faz quase meio século que moro nas redondezas e só entrei na catedral uma única vez. Para quem não conhece, a catedral da Sé é monumental, pretendo entrar lá para conferir se vale uma visita turística.
Chego por trás, pela Praça João Mendes. Por isso, não noto o rebuliço. Pretendo entrar pela porta lateral. Ih! Está tendo missa. Não é uma boa visitar uma igreja como turista, na hora da missa. Ponho o pescoço para dentro, não está tão cheia, acho que dá para passear por uma das laterais sem ser notado. Mas que tanto de gente fardada é esse? Gente do exército, gente da polícia militar, gente da guarda civil. Só então noto a policial militar se fazendo de porteira, me olhando do Gênese ao Apocalipse. Tiro os trem. Eu, hem? Então começo a ver um monte de viaturas de tudo quanto é calibre pela praça. É a missa dos militares, me informa um, que está guardando uma delas.
A praça está irreconhecível. Nenhum mendigo nas escadarias e nem entre as palmeiras imperiais  que envolvem o marco zero. Ninguém sentado nos muros, muito menos deitado nos gramados suspensos sobre a estação Sé do metrô. Onde será que enfiaram todo aquele povo? Só lá no fundão, debaixo das tipuanas, na direção do Páteo do Colégio, vislumbro um arremedo de pregação evangélica. Um sujeito baixinho e troncudo e opaco, vestindo terno, cisca no meio de um quadrado de quatro por quatro metros, delimitado a giz no calçadão. Em volta do quadrado, uns 15 curiosos. Há alguma coisa escrita, também a giz, no meio do quadrado. Chego mais perto para ler. Sou o 16º curioso. “JESUS VOLTARÁ EMBREVE”. Tô lascado!
Na Rua General Carneiro, que antigamente era ladeira, o locutor da Daisy Modas está afoito-apoplético: não entendo nada da sua fala. Vai ver, tem duras metas a cumprir. Como se escreve Daisy Modas em miamês? Pouco abaixo, o locutor da Betty Modas é o oposto. Começa me confirmando que o dia está lindo. Aquele é jovem, este é idoso. O tempo passa, todos aprendem. Como se escreve Betty Modas em noviorquês?
Chego ao destino. Posso escolher entre o Empório Santa Rosa, o Santa Rita, o Santa Fé. Ou o São Vito. Mas entro no Armazém Santa Filomena, o mais cheio. Dizem que é por causa do preço, da variedade e qualidade e da alta rotatividade dos produtos, que faz com que sejam sempre frescos. Os demais empórios estão vazios, esse está cheio. O moço da senha me dá a preferencial, a coisa já foi pro brejo… Esse povo somos bestas, vai ver isso aqui é tudo de um dono só, e certeza que os fornecedores são os mesmos. A cidade está aí para quem quiser assuntar. Sendo que a cidade não está nem aí.


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

NETAS


NA VIDA, TODO ACRÉSCIMO É BENFAZEJO. Não na retórica, em que todo acréscimo será castigado. O avô vai buscar a neta na creche. Lá está ela, na lateral do pátio, sobre um enorme pneu de carreta deitado e cheio de terra, confabulando com três amigas. Ele chega. A neta se encaminha para a saída. Ele demora entender o movimento dela. Todo avô é demorado. Enquanto isso, uma das amigas lhe pergunta se a amiga é sua filha. Ele diz que não, que é sua neta. E, ao invés de parar por aí, acrescenta que é avô dela. Todo avô é cheio de aposto. Então a amiga constata, admirada da casualidade:
Ah, eu também tenho um avô!
O avô já havia constatado, à primeira olhada, que não tinha uma neta, mas uma gata. Aliás, a cheche era um verdadeiro gatanil. Se canil é onde tem muitos cães, gatanil é onde tem muitos gatos. Na rua, a sós, o avô diz à neta que ela está uma gata muito bonita. Todo avô é aderente. Ao que a neta lhe esclarece, didática e peremptória:
Não é gata, é onça.
De fato, era onça. A julgar apenas pelos bigodes, poderia ser gata. Mas havia as pintas, era onça. Pintada. Pintada. Todo avô é tosco. Sendo que havia um avô que tinha uma neta. E, a partir de hoje, há um avô que tem duas netas. E que aposta nelas.

terça-feira, 3 de julho de 2018

ALARMANTES NOTÍCIAS SOBRE BELGAS E CAPETAS.


Na campanha da Rússia, temos os belgas atravessados em nosso caminho. Aquele povo vizinho dos franceses, holandeses e alemães que, igualmente, tem a mania de convocar africanos pra jogar bola em seu lugar. Os belgas, que falam francês, holandês e alemão! Línguas oficiais. Que entendem de bola como francês, holandês e alemão, juntos e misturados. Tamonov lascadov.
Pense numa seleção Franco-alemã-holandesa. É a seleção da Bélgica! Os belgas são uma mistura dos povos romanos e germanos e, alarme! têm algo de italiano também. Mau, se é assim, os belgas devem ter, também, todas as maníacas qualificações futebolísticas dessa cambada toda!
Outro alarme: belga é bom de guerra. Tanto que, quando esses povos todos aí citados querem guerrear entre si, sabe aonde vão brigar? Na Bélgica! Nunca ouviu que a Bélgica é o campo de batalha da Europa?
Mais um alarme: os belgas sabem mexer os pauzinhos (influenciar a arbitragem). Tanto que sediam a UE e a OTAN. Enfim, os belgas são a própria encarnação moderna do Sacro Império Romano-Germânico, todas essas seleções atravessadas em nossas redes com uma ruma de golos.
Lembrar o fato de que os belgas têm muito em comum com os franceses já não ajuda, nessa hora grave do vamuvê. Perdemos feio dos franceses em 98 e, neste 18, novamente estão voando baixo e em nosso horizonte, se passarmos por seus vizinhos. Como se não bastasse, além dessas inconvenientes coincidências com os franceses, os belgas têm uma preocupante semelhança com os… alemães!
Sabe o quê belgas e alemães têm em comum, além da fronteira e da habilidade com a bola? As cores nacionais. O verde-amarelo lá deles, belgas e alemães, é Preto, Vermelho e Amarelo. Como se não bastasse o fato de os belgas viverem recebendo más influências e ensinamentos futebolísticos dos seus vizinhos dos quatro ventos, eis que estão encravados no meio de holandeses, franceses, alemães e ingleses, os belgas, de quebra, têm as mesmas cores dos alemães de triste memória futebolística a nós brasileiros. Parece que esse pentágono obsta nosso hexa. 
Mas a informação mais alarmante, relativa a essas tais cores comuns de alemães e belgas, vou dar agora. Porque o raciocínio é simples: futebolisticamente falando, preferimos ver e cheirar o capeta a qualquer coisa que lembre os alemães. Nessa copa, já despacharam os alemães por nós. Mas eis que veremos muito de perto os belgas, suas cores e sua bandeira. E elas lembram os alemães. Os alemães e os capetas!
Calma. Explico. Os capetas, no plural, são os assessores d’O Coiso. O inominado. O Três Caras. É. Aqui na nossa vidinha a gente encontra muito delator, traíra — e a gente achava que chamar o falso de “duas caras” era o máximo. Mas o quente, mesmo, é chamá-los de “três caras”. Porque o “Três Caras” é sinônimo da Falsidade Maior(acho que nem o Guimarães Rosa se lembrou dessa).
Sim, O Coiso tem três caras. Uma amarela, uma preta e uma vermelha! Quem contou isso foi o Dante. Não a mim, à Humanidade. Lá no Canto XXXIV, do Inferno. O amarelo é a impotência, o preto, a ignorância e o vermelho, a raiva(Eu, particularmente, acho que ele tava sacaneando o Sacro Império, que tinha tais cores na bandeira).
Enfim, cá no séc.XXI, partícula de microfarinha na massa do mundo, acho melhor a gente esquecer essa conversa de impotência, ignorância e raiva dos alemães(e belgas!). Porque, com a bola, aqueles capetas são excelentes. E ladinos.

domingo, 1 de julho de 2018

O PÊNALTI.


THE PENALTY
     Juro que, quando eu era menino, e jogava futebol — sempre peladas, jogo sério mesmo, de jogar contra, acho que joguei umas três partidas —, jogava descalço, com a roupa do corpo, quero dizer, com a roupa que estava, com a roupa que ia para a escola ou para lá e para cá. Acho que nunca joguei sob a mediação de um juiz. As faltas e demais punições, inclusive os penalties, eram marcados pelos próprios jogadores, por consenso (quem falou que o consenso não é possível?).
     O que eu ia jurando, aí em cima, é que, então, goleiro era goalkeeper. Escanteio era corner. Impedimento era offside. Zagueiro era Half. E zagueiro central era back central, e é daí que vem a palavra beque. Juro que era assim que a gente se referia a esses eventos do football. Já football ninguém jogava. A gente jogava bola, mesmo.
     Pois é, tudo mudou dramaticamente: hoje é goleiro, escanteio, impedimento, zagueiro. Se aos 12 anos eu tivesse viajado para Marte e voltado agora, não ia entender nada da regulamentação do football. Exceto no caso do penalty. The penalty.
     No caso do penalty, eu ia continuar sabendo bem do que se trata, porque aportuguesaram a the penalty para pênalti (mas não todo mundo, porque vi o plural penalties em nossa imprensa, hoje). A pronúncia é a mesma, a nossa lá do início dos tempos. Então, se eu voltasse de Marte agora e fosse jogar bola, eu entenderia perfeitamente o significado da palavra pênalti ou penalty, que meu nono italiano, que, às vezes, apitava o jogo dos adultos, falava “pênis”. E, em jogando na linha, ia me esconder lá no fundo do gramado para não ser o cobrador. E, em sendo goleiro do time penalizado, ia vibrar.
     Porque, com o penalty, estabelece-se o paradoxo perfeito. Quem cobra(e pode marcar), tem tudo a perder. Quem defende(e pode sofrer gol), tem tudo a ganhar. No penalty, quem chuta tem obrigação de marcar. Quem defende, não tem obrigação nenhuma de defender.
     No penalty, quem chuta não tem sua fama aumentada se marcar. Ao contrário, se errar ou o goleiro defender, é defenestrado pela torcida e pelos colegas. Já o goleiro, se não defender, tudo bem; se defender, vira herói.
     O cobrador de penalty deveria apresentar atestado de sanidade cardíaca antes do chute.
Afinal, é pênalti ou pênalte?

sexta-feira, 22 de junho de 2018

A P. O.


A      P.  O.
Vinha do parque, um casal de P.O. revistava alguém encostado na parede da casa rente à calçada. O homem escarafunchava todos os meandros das vestes e pochetes e mochilas e meias e tênis e lenços do jovem de bermudão e boné e pele escura, depois de apalpar, com astúcias de sexoterapeuta e minúcias de acupunturista, todas as partes pudendas ou não do desinfeliz, enquanto a mulher assistia, atenta à cena e às redondezas. Tanto que viu o homem branco quase loiro com pinta de fresco que passava a observar, na borda do asfalto, após a fila de carros estacionados no meio-fio. Me esboçou um sorriso, pedindo aprovação. Não, sorriu pra mim, certa da aprovação.
 Eu vinha de uma caminhada no parque, estava com uma camiseta estilosa verde limão, que para mim é amarelo-cheguei, uns óculos escuros e uns tênis que, embora surrados e baratos, eram Asics. Embora escuros e estilosos também, os óculos eram de grau, receitados pelo médico, por causa de meus olhos claros mas, apesar do boné chinfrim, eu realmente parecia pertencer à classe dos frescos, se é que não era, realmente… O fato é que, na pressa da passagem e na emoção da abordagem lá deles, a mulher me considerou um legítimo representante da categoria idolatrada e, subservientemente, sorriu pra mim. 
É uma felicidade ser flagrado num ato agradável a alguém que valorizamos. Sentimos na hora o calor do foco meritocrata.
Assim como uma greve total dos lixeiros não precisaria de mais de duas semanas para fazer com que metade dos habitantes da megalópole a abandonassem, incomodados com o fedor e acossados pelos mosquitos e as doenças, o status quo não duraria nem duas semanas sem a P.O. Não, não é o sistema judiciário nem a imprensa oligopolista que sustenta o regime. Tampouco é a polícia política ou o serviço secreto ou mesmo o aparato bélico das Forças Armadas. Sem a P.O. e seu trabalho minucioso e abrangente de controle e repressão cotidiana aos pequenos atos individuais de rebeldia do povo pobre e desorganizado, o Sistema não duraria duas semanas. É a P.O. que sustenta essa putaria.

terça-feira, 19 de junho de 2018

VIDA DE CASADO.


Amigas e amigos, tô pensando em investir no setor de serviços. Virtual, claro. Um blog de largo interesse. Algo do tipo “Blog da Vida de Casado”. Já disse que é da área de serviços, prestação de serviços. Serviços concretos, práticos. Dicas. Nada de lamentações, de falar mal da mulher, de reclamar de que trabalha muito e não é reconhecido. De que quando ela chega em casa do serviço, senta no sofá, pede pr’eu tirar o sapato dela, levar um licor de jenipapo pr’ela, enquanto já vai ligando a TV e nem olha p’ra mim, que dirá dar um beijinho. Não. Será um blog p’ra cima, senão não vende.
Não vende o quê? Serviços, ora. Uma espécie de assessoria virtual de como cuidar da casa. Da despensa ao quarto, dos metais aos papéis, das compras às dívidas, das janelas ao apocalipse. Tem de ser virtual, porque não posso sair de casa. Um bom dono de casa não fica batendo perna por aí. Tive a ideia quando precisei decifrar os símbolos das etiquetas de lavagem que vem nas roupas. Fiquei meia hora procurando e ainda tive de usar a imaginação para entender. E esse meu blog será para você, dono de casa, economizar a imaginação. No bom sentido, deixar a imaginação sobrando para outras searas físicas e metafísicas…
Então, no blog, começarei pelo mais elementar: como lavar a roupa da mulher, aquelas peças delicadas, como não cometer o suicídio de querer passar aquela blusinha de tecido sintético que ela comprou na Itália, na viagem de núpcias. Como escolher o melhor tintureiro para aquele vestido da festa de debutantes da sobrinha, a maneira correta de guardar as peças no armário, os produtos de cheiro apropriados para roupas… porque, se sua mulher pronunciar a palavra “fedendo” em relação a uma roupa dela que você lavou, pule pela janela que o machucado é menor.
Algo importante que vou ensinar vai ser sobre presentes p’ra mulher. Dicas, sempre. Porque, todos sabem, essa é uma área delicada do casamento. E as minhas dicas serão no sentido de preservar o casamento. Máquina de lavar, fogão, aspirador de pó, você nem vai pensar em dar p’ra ela, porque esses utilitários são usados por você. Um fim de semana com um garoto de programa num resort em Ubatuba, você também não precisa dar, que ela se vira. Quanto a um jantar fora, muito cuidado. Ela sempre pode pensar que você está com preguiça ou com falta de criatividade para cozinhar. E as joias, bem, são caras, o grosso do dinheiro está na conta dela, você teria de obter esse dinheiro com muito cuidado, aos poucos, ao longo do ano, é muito trabalho, não vale a pena.
Vocês vão gostar. Por exemplo: as bodas mensais de casamento. Aposto como vocês não sabem o nome do material que nomeia as Bodas de 10º mês. Como organizar as festinhas de aniversário. Como receber em casa. Como se comportar na frente da sogra. Quais os assuntos mais adequados para entabular com o pai dela. A melhor maneira de arrumar a mala dela, quando ela vai viajar a serviço. Os tipos de alimentos servidos no café da manhã, almoço, jantar, café da tarde, ceia; como escolher as músicas para tocar alto em casa que não a deixam irritada, os chás e unguentos para tosses e contusões, e uma infinidade de dicas sobre viagens de férias, decoração, chás de bebê, ops, chás de bebê não, bem-estar, comidinhas, de como conseguir autorização dela para aquela sua partida trimestral de futebol com os amigos… Aguardem!

quinta-feira, 14 de junho de 2018

VIDA ETERNA.


— Faça um pedido — disse a figura em minha frente, na sala da minha casa, onde até então eu me encontrava sozinho.

— Hã!? — reagi assustado.

Antes que eu tomasse pé da nova situação, a figura continuou, rápida:

— O senhor tem direito a um pedido.

Era um tipo andrógino, vestido com uma roupa gozada, lembrava um anjo, lembrava um gênio, sei lá, não vi de onde ele saiu. Quando vi, estava dentro da minha casa, conversando comigo. Eu estava meio sonolento, só tive condições de dizer “O quê?”

— Posso realizar o seu maior desejo — confirmou a figura.

Olhei em volta, olhei pela janela, estiquei minha perna danada, era minha casa mesmo e eu estava acordado. Mas continuei na pasmaceira: “Que história é essa?” esbravejei na direção dela.

— Estou esperando — insistiu, paciente, a pessoa.

— Pela vida eterna! — respondi, agora firme, com voz segura, para não deixar dúvidas de que eu era o chefe do domicílio, eis que a titular-chefa não se encontrava e, para o efeito específico de expulsar um estranho intruso, eu poderia me investir provisoriamente na função de dono da casa.

— Pois não — respondeu o(a) sujeito(a).

— Pois não o quê? — inquiri, exasperado.

— O senhor terá vida eterna. Agora, por favor, escolha a idade em que gostaria de viver para sempre.

Então comecei a perceber que a coisa era séria. A andrógino me chamava de senhor, mas não parecia nada subserviente. Antes, parecia um robô, sem brechas para titubeios, depois que acordei de vez. E agora eu já estava bem acordado e a figura na sala da minha casa era incontornável. Impossível o diálogo. Então retomei a calma, ao menos na maneira de falar, e retruquei, querendo saber que história era aquela de vida eterna. Ela(e) respondeu que isso já era assunto encerrado. Agora eu devia dizer a elae qual a idade. “Idade de quê?”, perguntei. Elae explicou mais uma vez que eu devia escolher a idade com que viveria para sempre. Eu poderia ser uma eterna criança, um eterno adolescente, um eterno velho...

— Peraí — alterquei — eu nunca pensei na vida eterna, eu nem sou religioso.

— Não se trata daquela vida eterna prometida por Deus não — explicou elae — é essa nossa vidinha mesmo, com todos os percalços da idade que o senhor escolher.

— Se eu não quero nem aquela vida eterna prometida por Deus, lá no bem bom do Paraíso, imagina se vou querer essa aqui, em plena floração protofascista, sem contar essa movimentação toda pra reformar a Previdência…

— Já disse que isso é assunto vencido. O senhor afirmou, agora há pouco, em palavras bem pronunciadas, que desejava a vida eterna. O desejo lhe foi concedido. Agora é preciso escolher a idade, para concluir o procedimento. Se dentro de dois minutos o senhor não escolher, escolho eu — sentenciou Elae.

Bom, pra esse tipo de dilema, dois minutos é uma eternidade. Dá pra analisar e repassar uma vida inteira. Pouco antes de terminar o tempo, eu decidi escolher a idade de 61 anos, que é a idade em que o homem está no auge do seu vigor físico e intelectual. Mas aí lembrei da minha hérnia de disco numa das lombares e, considerando que essa minha tese poderia gerar alguma polêmica, resolvi escolher a idade de 40 anos para viver pra sempre, já que não tinha mais jeito.

Quando anunciei minha escolha, Elae me explicou que o tempo continuaria correndo, eu faria aniversário todo ano, etc., só que eu seria um eterno quarentão. Eu envelheceria só no calendário e nos virtuais registros cadastrais. Quanto à minha escolha — 40 anos — Elae me parabenizou, disse que era uma escolha sábia, que essa sim é a melhor idade, inclusive para as mulheres. Eu estava sem jeito, não sabia onde pôr a cara, me submeter àquela besteira... Então me virei resoluto em direção a Elae para chutar o pau da barraca, ela(e) havia desaparecido. E eu me sentia com o corpo e a mente de um sujeito de 40 anos e a experiência de um de 61 anos. Então pensei que aquilo poderia ser bom. E me sentei no sofá. E viajei no tempo. (CONTINUA EM "VIDA ETERNA II").

VIDA ETERNA II.

(Continuação de "VIDA ETERNA")

Com 120 anos, eu era um homem absolutamente solitário. Todos os meus amigos e os filhos dos meus amigos já haviam falecido, meus tataranetos nem se aproximavam de mim (não precisava, eu tinha a saúde de um homem de 40 anos), por causa da minha ranhetice e da minha ignorância.
Sim, eu era um homem ignorante — no bom sentido, de desconhecer as novas tecnologias, os novos costumes, até o vocabulário, a literatura, a arte, a culinária. Eu continuava comendo arroz com feijão e ovo frito e dava um trabalhão danado pra encontrar esses ingredientes, eu morava só em minha casa, que parecia a toca de um animal pré-histórico, com móveis e eletrodomésticos e pratos e talheres só encontrados em museus. Aliás, meus tataranetos, tantos, eram tão estranhos, não via neles nenhum traço familiar.

Com 120 anos de idade, eu era o homem mais experiente do mundo. Eu era o homem mais sábio do mundo, aquela sabedoria real, que só o passar do tempo confere. E era essa sabedoria que impedia que eu aprendesse as novas maneiras e rotinas de se viver e manusear. Porque a aprendizagem depende do interesse, do entusiasmo. Aos 120 anos, eu não tinha nem uma coisa nem outra. Meu olhar batia num semblante e resvalava rápido na alma do interlocutor (lembrem-se de que eu não havia ultrapassado ainda nem o limiar da presbiopia). E o que eu via me desanimava, pela ausência de ineditismo. Eu já havia visto tudo. Eu já havia provado tudo (lembrem-se de que eu estava nessa vida quarentona e eterna há 59 anos, desde que, aos 61, me aparecera Elae, e tivera tempo e disposição para correr atrás de todos meus desejos).

Mulher, nem pensar, nenhuma mulher me suportava (sendo que, devo confessar, a recíproca era verdadeira. A velha mais apetitosa era criança, perto de mim).

Então, eu, aos 120 anos de idade, era um homem absolutamente anacrônico em plena forma. E havia o agravante de que eu não usava remédios nem ia ao médico. Pela simples razão — esqueceram? — de que meu corpo ainda não precisava. E isso era mais um fator de isolamento. Limitava minha sociabilidade(eis que a sociabilidade dos velhos se dá nas antessalas de consultórios e hospitais, ou idas a drogarias). Tudo bem, eu ainda tinha disposição para praticar esportes, muitos ainda em bases competitivas. Mas era impossível conviver com a infantilidade dos homens e mulheres de 35 anos ou aprender as regras das novas modalidades. E por mais que eu me refugiasse no sofá a ver TV, minha coluna vertebral continuava incólume, a sustentar minha saúde indestrutível. (os gadgets de então — microcomputadores e smartphones haviam desaparecido; a TV funcionava, parada no tempo — estavam fora do meu alcance, por incapacidade de aprender a manuseá-los).

Sei lá, estou aqui me beliscando, sonho tenho certeza de que não é. Acho que eu não devia ter comido tanto. Poderia ter esperado um pouco mais pra deitar, realizado os exercícios de relaxamento receitados pela fisioterapeuta(se não fosse tão preguiçoso). Poderia ter feito uma reza...

domingo, 10 de junho de 2018

CONVERSA NA CATEDRAL.


Calçada da Av. da Aclimação, as duas mulheres vinham num passo titubeante, quase parando. Bati o olho e saquei. Assim mesmo diminuí o passo, uma delas aproveitou:
Podemos conversar com o senhor?
Sobre o quê?
Eu sabia muito bem sobre o que elas queriam conversar comigo. Nem é preciso ser muito observador para sacar rápido sobre essas duplas de mulheres que infestam São Paulo, especialmente nos finais de semana. Há também alguns homens, às vezes. Se tivesse que opinar, diria que as duas eram bonitas. Na faixa dos trinta anos de idade, visual bem cuidado, vestidas com sobriedade, uma usava saia e a outra vestido, mangas curtas e nenhum decote na parte de cima e, embaixo, saia e vestido cinco centímetros abaixo do joelho. Sapato sem salto alto, meia. Maquiagem discreta e cabelos bem-arrumados, sem destaque. Ambas com cinturas bem delineadas.
O fato é que me deu vontade de conversar com elas, ainda que eu não me interessasse pelo único tema que assola dia e noite, da juventude à velhice, suas graciosas cabecinhas. E elas — ao menos a que começou — queria conversar comigo, mesmo sabendo que eu era ateu ou pastor luterano. Sendo que nem aquele, nem este, toleram as Testemunhas de Jeová e vice-versa.
Porque eu tenho cara de ateu ou de pastor protestante, segundo o contexto e o interlocutor. Alguns, mais delicados, para disfarçar, perguntam se eu sou professor. Mas eu sei o que estão pensando. Quando eu era mais jovem, havia uma terceira suspeita: padre. Mas agora, com esse semblante carregado de velho, já deixei de parecer padre e não sei se isso é uma vantagem ou desvantagem.
A moça queria conversar comigo e eu queria conversar com a moça, ainda que ambos soubessem do desencontro incontornável de interesses. Enfim, eu fui com a cara da moça e ela foi com a minha cara, só pode ser.
Sobre a Bíblia — respondeu ela.
Ah, não, eu não mexo com isso não — respondi.
O senhor nunca leu a Bíblia? — intrometeu-se a outra, quebrando nosso futuro idílio. É que ela percebeu minha resposta provocativa, embora chocha, indício de ovelha desgarrada, treinada que é nas lides de caçar e pescar. Olhei para ela, as duas pareciam irmãs, porque educadas pelo mesmo pai, tamanha a uniformidade de gestos e entonação da voz(sendo que esse povo é criado sob o jugo de duas autoridades: a dona de casa e o chefe do domicílio). Então, para meu desgosto e desgosto da outra, suponho — não tenho culpa se a manhã domingueira estava radiante e eu estava de bom humor e cheio de autoconfiança e nenhuma modéstia —, tive de entrar no assunto que nos desunia:
Já li a Bíblia de cabo a rabo. Do Gênese ao Apocalipse. — respondi, triunfante com esta e desesperançado com aquela. Então a da Bíblia destemperou a querer saber se eu lia a tal com frequência, eu disse que às vezes conferia alguma citação lá, ela perguntou se diariamente, eu quase subi nas tamancas — e a outra muda —; eu, então, antes que nossa conversa azedasse, disse-lhes, me dirigindo à muda desconsolada, que meu interesse pela Bíblia era literário e histórico. Esse “literário e histórico” deixou as duas pálidas. Então nos despedimos civilizadamente, com desejos recíprocos de bom dia.
Segui meu caminho, eu e meus botões: essas comedidas e santas mulheres guardam similitudes com as putas. Essas e aquelas se postam na via pública a chamar os homens que passam. Essas querendo levá-los para o céu; aquelas, para a cama. Eu não tenho dúvidas de qual seja o melhor destino.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

TERRENO NO MORUMBY.


De longe vi a folha de papel sulfite, tamanho A4, pregada na banca. Não pelo tamanho, mas é que só tinha ela naquele lado. Já fiquei curioso, porque faz 40 anos que aquela lateral da banca é cinza metálico puro. E faz 40 anos que vejo o casal-dono labutando nela, eu tinha nenhum filho e um turbilhão de cabelos. Até hoje não sei o nome dos donos da banca, embora sejamos velhos conhecidos. Fui chegando mais perto, tinha coisa escrita, não era uma simples folha em branco, como tive a impressão, logo que a vi de longe. Letras de computador impressas numa impressora caseira. “VENDO TERRENO NO MORUMBY, LOCALIZAÇÃO NOBRE. PERTO DO TÚMULO DO AIRTON SENNA. 16 MIL. TEL. (11) TAL TAL TAL”. Do outro lado da banca, outra A4 com os mesmos dizeres. O anunciante está realmente querendo vender o terreno. Tô sabendo sim que terreno de cemitério já virou ativo imobiliário. Só num tô acostumado. Não frequento os veículos publicitários onde tais anúncios são publicados. Não converso sobre o assunto, quase todos meus amigos são meio imprevidentes e digo mais: irresponsáveis! A descendência que se lasque com seus — lá deles, meus amigos — corpos, de maneira que ignoro detalhes óbvios do cerimonial da morte. E está claro que se o dono do tal terreno perto do túmulo do Senna quiser me transferi-lo(me recuso a escrever "me o transferir") de graça, eu não aceito. Mas fiquei curioso sobre o grau de proximidade do tal terreno em relação aos ossos do exímio piloto. E encafifado com a suposta preferência do público em ter seus restos perto dos restos do Airton. Porque o anúncio não deixa dúvidas quanto a essa preferência. Eu, se me importasse com meus restos, não gostaria de ser enterrado perto do túmulo do ídolo. Ora, sabe-se que o túmulo do piloto é objeto de muitas visitas diárias. Deve ser um vai-e-vem danado. Quando eu morrer, quero que meus restos tenham sossego. Gente sentando sobre minha lápide, caçoando do meu epitáfio; gente se aliviando ali mesmo, na urgência de um banheiro inalcançável… No dia de finados, então, deve ser um escarcéu, meu túmulo sob a multidão incabível, meus entes queridos impedidos de se aproximar, eu, ops, meus restos ali ao lado sem nenhuma lágrima, assistindo ao vizinho famoso se banhar em ignaras lágrimas de prantos vários. No dia seguinte, quando o coveiro for remover a parafernália de oferendas sobre o túmulo do Airton, aquelas flores já fedendo, é evidente que ele, o coveiro, vai usar a minha pedra como apoio para aquela imundíça, até a chegada do caminhão de lixo. Bom, não creio que os vendedores do terreno sejam os donos da banca. Acho que estão ajudando algum amigo. Sei lá, alguém que desistiu de morrer.

domingo, 22 de abril de 2018

O DIPLOMA.


Passei agora na Feira do Rolo, aqui perto, na Praça Dom Orione, no Bixiga. Bugigangas antigas. Funciona aos domingos. Digo “feira do rolo” porque ouvi alguém falando ao celular, dizendo que estava na feira do rolo, que ia chegar pro almoço… Toca-discos, faqueiros, relógios, martelos, lâmpadas, moedas, carteiras, pequenos móveis, espelhos, quadros, castiçais, e tudo mais que usamos há 30 anos e além, e que hoje ninguém mais usa impunemente.
De repente, duas máquinas de escrever, portáteis, uma Remington e outra Olivetti, lado a lado, ambas modelo último tipo. Parei e fiquei olhando, meio de longe, um olhar morteiro de boi sonso, um olhar mais demorado que o normal, um olhar de… desejo? Não. Nenhum desejo. Se a moça da banca me desse de graça, eu recusaria.
Mas a moça me perguntou, apenas, se eu estava lembrando o passado. Como se vê, não se trata de uma vendedora novata. Em resposta, eu apenas informei a ela que eu tinha diploma de datilografia. Ela disse “eu também”. Então eu exigi que ela confirmasse: “Você também tem diploma?” e fiz um gesto imitando um papel tamanho A4 com os dois dedos indicadores, ao que ela, então, me esclareceu que, na verdade, não chegou a tirar o diploma, saiu da escola antes. Então eu reafirmei que, não somente tinha diploma, como ele fora colocado num quadro, por minha mãe.
Porque a vida é dividida entre aqueles que tiram diploma e aqueles que não tiram. Entre aqueles que leem o livro até o fim e aqueles que desistem antes, tão logo descobrem a charada do autor. Entre aqueles que vão até o fim e aqueles que desistem, assim que a coisa perde o sentido. Tenho certeza que aquela moça foi muito melhor datilógrafa do que eu. Eu nunca fui bom datilógrafo. Os caracteres da última fileira, a de cima, eu nunca consegui datilografar sem olhar e endereçar o dedo. Assim como nunca consegui usar aquelas somadoras — que eu tanto usei —, sem olhar o teclado numérico.
Entretanto, sou um datilógrafo formado, e ela não. Ela pode ter sido tão burocrata quanto eu, mas eu devo ter levado alguma vantagem sobre ela, porque sou um burocrata-datilógrafo-com-diploma-e-tudo. Devo ser mais persistente, um cadinho a mais de obtusidade...
Aliás, tenho diploma do 4º ano primário. Da conclusão do catecismo. Do colégio. Da faculdade. Da outra faculdade. Eu entrava no curso feito uma vaca braba e ninguém me segurava enquanto eu não pusesse as mãos no respectivo diploma. Na faculdade de tecnologia de são paulo, havia um professor de cálculo que se gabava de que, em sua matéria, ninguém passava sem ao menos uma reprovação. Cálculo de Derivadas e Integrais… Pois eu dei um jeito de passar direto, sem me dar tempo de aprender. Não aprendi absolutamente nada de Derivadas e Integrais, mas o diploma está no meu armário. Meu subconsciente nunca esqueceu de tal trapaça e sempre me manteve longe de qualquer tarefa que carecesse de tais conhecimentos…
Me despedi da moça, ela já desinteressada de mim, percebeu que eu era duro de roer. Difícil saber, entre nós dois, qual o mais compenetrado, eu com meus diplomas e ela, com suas antiguidades. Mas, continuei pensando nas máquinas. Aquelas maquininhas portáteis conferiam um status ao portador muito além do que confere atualmente o último modelo do mais caro laptop. Em realidade, só jornalista usava, tempo em que jornalista competia com médico em status (bagre gosta dessa palavra...). Então pensei que as tais perderam completamente o valor. As máquinas e as pessoas, elas passam… E eis que lembrei de mais um diploma que tirei. O de aposentado. Tudo a ver.




quinta-feira, 12 de abril de 2018

OLHAI POR NÓIS.

Todo mundo já sabe que um sujeito indeterminado usou a fachada do Colégio como suporte de uma mensagem que expressa um pedido desesperado: “Olhai por nóis”. Não é notícia falsa não, passei lá hoje, vi, toquei, nem suja o dedo, é tinta boa.
Vermelha!
Pronto! Foram esses comunistas!!
Então fiquei pensando no vocativo da oração. “Deus, olhai por nóis”. O vocativo oculto da oração só pode ser Deus. E comunista nem acredita em Deus, que dirá pedir alguma coisa a Ele.
Mas algum delegado mais afoito, desses que passaram no concurso recentemente – é um pessoal bom, que sabe a norma culta direitinho —, pode alegar que o sujeito indeterminado está se dirigindo ao Secretário da Justiça. É! O desesperado pedido é visível de todas as janelas da Secretaria da Justiça. E, sabe como é, se comunista não gosta de Deus, ele é chegado num burocrata. Taí! é um comunista desesperado se dirigindo ao secretário que, certamente, é um sujeito entendido em leis. Lei dos homens, que comunista só acredita na Lei dos Homens.
Faz sentido, essa suspeita do delegado. Porque, nesse negócio de leis, nóis tamu lascadu. Sei lá, o delegado tem elementos para formar convicção… ó o perigo!
Continuei pensando. Pode ter sido, sim, os comunistas. Comunista nunca anda sozinho. E tá na cara e na frase que foi coisa de mais de um. Se fosse um só ele pediria “olhai por mim”. Fascista também costuma andar em bando, aliás, fascista só é fascista quando em bando, mas a tinta seria verdeamarela. E fascista frequenta a igreja por dentro, jamais deixaria de fazer ou escrever seu pedido no conforto do reservado. Não, fascista não foi. Se fascista, ainda que em bando, ele escreveria “olhai por mim”, coerente com a máxima meritocrata de cada um por si e Deus pra todos.
Porém, e se o sujeito indeterminado de caráter coletivo que obrou a frase, altas horas da madrugada, queria se dirigir ao bispo? Sim: “Bispo, olhai por nóis”. Não, não pode ser. Primeiro, porque a jurisdição do bispo fica alhures; segundo porque, nesse caso, o pedido seria feito diretamente ao bispo, eis que o bispo é gente boa, encontrável em carne e osso, junto e misturado no meio de nóis.
Agora uma terrível suspeita me assola. E se eles estavam querendo se dirigir ao arcebispo? Aí estaríamos no mato sem cachorro. Mas faz sentido, porque é o território do arcebispo. E a gente já sabe que o arcebispo não olha nem ora por nóis. Aliás, o arcebispo impreca por nóis. Na outra ditadura, o arcebispo era por nóis. Nesta, até o arcebispo é contra nóis.
Ó o perigo! No parágrafo anterior, me incluí no objeto da frase. Me intrometi no meio do “nóis”. Mas é seguro que não tem nada a ver. Isto porque os escrevinhadores de fachada estavam se dirigindo a Deus mesmo. E eu ainda não estou tão desesperado assim… Porque os caras que escreveram na fachada da Igreja-colégio estavam desesperados. À vista do intermediário-arcebispo hostil, resolveram se dirigir diretamente a Deus e, para isso, nada melhor que a fachada de uma igreja. Quanto à tinta vermelha, nada a ver com comunista. Tem a mesma motivação do vermelho das ciclovias do Haddad: visibilidade.

Não, não foram os comunistas. Esse “olhai” na segunda pessoa do plural do imperativo é inconfundível: é uma súplica direta ao Todo-Poderoso. É coisa de crente (assim, também livro minha barra). Além do mais, não cometeria eu a heresia junto a Ele de escandir esse “nóis” tão rasteiro, que reservo à Literatura. Numa situação nada oblíqua, tampouco átona, enquanto tão formal e tão urgente e tão fora de hora, não deixaria por menos que a escorreita norma culta. Ainda mais numa forma tão monumental. E em letras de fôrma.





terça-feira, 3 de abril de 2018

A REVOLTA DOS BAGRES.

Bagre tem a cabeça grande, mas oca. Vive misturado ao lodo do fundo do poço. Gosta de águas turvas, barrentas. Engole a isca e não carece de nenhuma habilidade para ser fisgado. Mas ferroa o pescador que o agarra desprevenido. E não tem escamas, é liso feito um… bagre ensaboado.
Bagre é vacilão. E tem complexo de inferioridade em relação ao tubarão e à sardinha.
Linguagem figurada, a humanidade é composta de poucos tubarões, muitas sardinhas e muito, muito bagre. 
Os bagres têm pouco ou nenhum verniz cultural. Carregam apenas aquela cultura básica, herdada da família e do meio. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, há muitos médicos, engenheiros, advogados, professores bagres. Sabe aqueles caras que vão à faculdade só pensando no diploma? Ou só pensando na profissão?
Em geral, os bagres são pessoas fracassadas na vida. Não que não haja muitos bagres bem-sucedidos sob os pontos de vista material e afetivo, mas é que, em sua visão pequena, curta e egoísta, se deixam dominar pela inveja e pela realidade imediata ou alheia, escolhendo sempre os parâmetros que lhes são desfavoráveis.

Sendo que o bagre legítimo só conhece dois tipos de gente: os perdedores e os vencedores.
O ódio aos políticos de carreira e a inveja ao vizinho consumista ou supostamente bem de vida se multiplicam em épocas de recessão braba e desmoralização política. É natural que se revoltem, quando essas duas condições se concatenam, na conjuntura.
Os bagres gostam muito das expressões “bem de vida”, “bem-sucedido”, “deu certo na vida”, “pessoa realizada”, “conquistar a independência financeira”.
A real religião do bagre é a meritocracia. Que muitos confundem com regime político.
Há bagres desde as mansões do Morumbi até os barracos de Guaianazes. Há bagres em todo o espectro social. Mas, diria que há uma proporção maior de bagres na Senzala, em comparação com a Casa Grande. Creio que o fator determinante de tal diferença é o verniz cultural. Como se sabe, o verniz cultural é aquela cultura adquirida, que se sobrepõe e se imiscui àquela herdada ou assimilada naturalmente.
O sistema educacional formal — a escola — faz a diferença na maior ou menor produção de bagres cidadãos.
E a escola destinada aos integrantes da Senzala é deliberadamente pobre e esquecida.
Pensando bem, talvez seja preconceito meu achar que há essa distribuição desigual de bagres entre os diversos segmentos da população. No fundo, no fundo, esses vacilões distribuem-se igualmente, assim como a inteligência ou a idiotice.
Há tantos estúpidos entre os funcionários do Banco do Brasil ou da Receita Federal quanto entre os subcontratados aqui da obra em frente.
Assim como deve haver tolos na mesma proporção entre as sacoleiras do Brás, os marceneiros ou os diretores do Itaú ou do Grupo Votorantim. Ou entre os donos de padarias e os acionistas das Casas Bahia.
Adicionalmente, o consumo exacerbado (consumismo) forma um caldo de  boa cultura à proliferação de bagres.
Entretanto, em épocas como a que estamos vivendo, de pequenos negócios quebrando, gente perdendo o emprego a rodo, a insegurança atinge mais os pequenos, os mais fracos. A baixa classe média e os participantes da economia informal ficam mais alvoroçados, porque mais preocupados. A bagraiada miúda pula miúdo. 
Acho que é por isso que temos a impressão de que há uma proporção maior de bagres entre os trabalhadores informais, em comparação com os com carteira assinada. Ou entre os micro e pequenos empresários, em comparação com os grandes empresários.

O bagre é simplório, subalterno e subserviente. Tem baixa autoestima.  Gosta de tudo que reduz e mistifica, como os hinos, os uniformes, as regras e os rituais.

O bagre é curto, grosso e maniqueísta. E quando se junta em bando, é fascista.





segunda-feira, 2 de abril de 2018

TRAGÉDIA NO METRÔ.


É um homem grandalhão, vi depois que ele se levantou feito doido, gritando disparado rumo à porta. Está sentado num banco do vagão do metrô, parado para embarque e desembarque na Estação São Bento. Absorto em seu celular. Há uns 50 celulares ligados neste momento, dentro do vagão, calculo. Feriadão, o trem está vazio, quer dizer, todos os bancos estão ocupados e ainda sobram umas dez pessoas em pé. Vazio diante da superlotação normal do dia a dia.
Um outro homem de pé, está parado. Parado é pouco, está imóvel. Daqui de onde estou sentado, parece uma estátua, tamanha a imobilidade do sujeito. Ao contrário do que se possa imaginar, não está nada absorto. Daqui a pouco, veremos que ele estava mais ativo do que qualquer outro, concentrado no momento que precede o bote.
A arte de dar o bote. É preciso uma compleição física e emocional adequada — natural, diria —, para aventurar-se na arte de dar o bote. O gato, por exemplo, a cascavel. Mas o homem não nasceu pra isso. Então, diferente do bote de um gato, o bote de um homem é fruto de seu inteiro querer, sem nenhuma ajuda da natureza.
O fato é que ninguém mais desembarcava nem embarcava, o condutor acionou a campainha para avisar que ia fechar as portas.
Três segundos. Menos, talvez.
De repente, aquele homem de pé parado em frente a porta meneou o corpo pra direita, avançou o polegar e o indicador em direção ao tijolinho eletrônico do absorto mais próximo e, como se impulsionado por uma mola, voltou à posição normal e deu o pinote — uma espécie de bote em zigue-zague —, no exato momento em que a porta se fechava na cara de outro homem que vinha em seu rastro.
O lesado deu com a cara na porta, impotente — absolutamente impotente —, a ver seu celular desaparecer nos meandros da estação, nas mãos o outro, a caminhar e sorrir tranquilamente.
Um artista! A precisão da complexa manobra, em absoluto acordo com a porta do trem e a inércia da vítima, a dança perfeita conforme a música alheia. Mais que um ladrão, um artista.
Dentro do trem, o homem grande e jovem, porte atlético, gritava e esmurrava a porta, furioso e impotente, e mais furioso ficava, à medida que seu bem azulava no mundo e o trem partia.
Gente, isso é um perigo! Não tem aneurisma que aguente. O corpo humano e suas veias e artérias e meandros e todo um sistema hidráulico de bombeamento e pressão… mas não é água cristalina que circula em nosso corpo, é sangue, temperado com uma carrada de hormônios pra controlar todas as vicissitudes da vida, todas as idas e vindas do amor e do ódio…
O fato é que um homem relaxado não está preparado para passar da felicidade à fúria em três segundos...



quarta-feira, 28 de março de 2018

O ASFALTO.


Aqui, n’O Asfalto, do Dória, pretendo meter A Ciclovia, do Haddad.
Preciso dizer, antes, que tenho uma relação traumático-afetiva com asfalto. É uma característica daqueles que nasceram em meados do século passado.
Quem morava nas grandes cidades, viu os pisos de paralelepípedos serem substituídos pelo asfalto. Quem morava nas pequenas cidades ou nas periferias, viu a rua de terra ser coberta pelo asfalto.
Eu vi o quadrilátero central da minha cidadezinha ser cercado por quatro quarteirões asfaltados, enquanto estudava a primeira série do ginásio, que ficava do outro lado de um desses segmentos de rua cobertos de preto. Houve festa, os professores realizaram uma gincana em volta da tal praça; deveriam realizar provas, como estourar bexigas com o próprio sopro, por ex., em oito postos. Para percorrerem a distância de 50 metros entre um posto de prova e outro, iam com seus carros – fuscas, gordinis, dkv’s — pelo asfalto novo. É, naquele tempo, professor de escola pública estadual era classe média alta…
Vi uma rodovia ser rasgada no meio do nada, ou melhor, vi os tratores invadirem os canaviais e laranjais e algodoais e milharais e abrirem um sulco largo e reto… e aquele sulco de terra pura ser aberto ao tráfego de automóveis e caminhões; só depois de alguns anos aquilo foi coberto pela capa asfáltica.
Viajei de carro e ônibus e outros bichos por estradas de terra pura; sequer um cascalho pra atenuar a argila lisa nos dias de chuva. Tive viagens embarreadas e encravadas... Quando não era barro, era poeira...
Minha geração cresceu aplaudindo a chegada do asfalto (e agora, enquanto escrevo, a chuva cai aos baldes lá fora, nenhuma gota infiltra no solo, vai tudo para o vale mais próximo; o lençol freático se esvazia e as baixadas se inundam…).
O prefeito e governador Maluf detectou essa relação de amor da população. Não propriamente com o asfalto, mas com o concreto armado. E danou-se a construir minhocões e viadutos e rodovias com muitas obras de arte (é assim que se chamam, na engenharia, as pontes e viadutos). E a prova de que se trata de algo primário — bem visível e palpável — é que a população retribuiu, elegendo-o por muitos e muitos anos…
(Niemeyer também abusou do concreto armado em outras obras de arte mais significativas..., mudando ou fundando a personalidade de cidades inteiras. Sendo que, enquanto Maluf, predador-capitalista, o fazia da forma mais rasteira possível, em troca de votos, Niemeyer nunca pediu um voto e era comunista).
Dória — o predador da vez — farejou a relação de amor do povo com o asfalto e, em tempos bicudos de orçamento curto, resolveu tirar o atraso da “Cidade Feia”, recobrindo poucas ruas estrategicamente distribuídas pela cidade com a capa preta, signo de progresso.
Ou seja, Dória, em fase de retirada, após impregnar a administração da cidade com bombásticos e efêmeros eventos de marketing (e nomear alguns corruptos, pra variar, como se descobriu esta semana), vislumbrou uma última cartada, para explorar aquele velho e infantil sentimento da população com o asfalto. E fez dele móvel de massiva campanha propagandística em faixas nas ruas, em comerciais de TV, em comentários de locutores amigos…
À moda do Haddad com as ciclovias, Dória quer que os eleitores associem sua passagem pela prefeitura com o asfalto novo nas ruas. Digo à moda do Haddad, porque as ciclovias também foram feitas assim meio nas coxas… 
Sim, o asfalto do Dória está sendo feito nas coxas, sim. Não a campanha publicitária, essa está impecável…
O que aconteceu com as ciclovias é que eram novidade, confrontavam o imaginário popular favorável ao automóvel, e precisavam se impor, sem muita delonga (e, ao contrário, tiravam votos). Já o asfalto vai exatamente a favor desse sentimento ultrapassado mas ainda dominante pró-automóvel. Acredito que ainda gera muitos e muitos votos.
Tivemos Ademar de Barros, depois Jânio Quadros, depois Maluf e agora, Dória. Sendo pessimista-realista, creio que não vai ser ainda dessa vez que a tradição será rompida, porque a perspicácia histórica do eleitorado não vai além do próprio nariz e nosotros não temos como furar a grossa e dura barreira da barbárie.