— Faça um pedido — disse a figura em minha frente, na sala da
minha casa, onde até então eu me encontrava sozinho.
— Hã!? — reagi assustado.
Antes que eu tomasse pé da nova situação, a figura continuou,
rápida:
— O senhor tem direito a um pedido.
Era um tipo andrógino, vestido com uma roupa gozada, lembrava um
anjo, lembrava um gênio, sei lá, não vi de onde ele saiu. Quando
vi, estava dentro da minha casa, conversando comigo. Eu estava meio
sonolento, só tive condições de dizer “O quê?”
— Posso realizar o seu maior desejo — confirmou a figura.
Olhei em volta, olhei pela janela, estiquei minha perna danada,
era minha casa mesmo e eu estava acordado. Mas continuei na
pasmaceira: “Que história é essa?” esbravejei na direção
dela.
— Estou esperando — insistiu, paciente, a pessoa.
— Pela vida eterna! — respondi, agora firme, com voz segura,
para não deixar dúvidas de que eu era o chefe do domicílio, eis
que a titular-chefa não se encontrava e, para o efeito específico
de expulsar um estranho intruso, eu poderia me investir
provisoriamente na função de dono da casa.
— Pois não — respondeu o(a) sujeito(a).
— Pois não o quê? — inquiri, exasperado.
— O senhor terá vida eterna. Agora, por favor, escolha a idade
em que gostaria de viver para sempre.
Então comecei a perceber que a coisa era séria. A andrógino me
chamava de senhor, mas não parecia nada subserviente. Antes, parecia
um robô, sem brechas para titubeios, depois que acordei de vez. E
agora eu já estava bem acordado e a figura na sala da minha casa era
incontornável. Impossível o diálogo. Então retomei a calma, ao
menos na maneira de falar, e retruquei, querendo saber que história
era aquela de vida eterna. Ela(e) respondeu que isso já era assunto
encerrado. Agora eu devia dizer a elae qual a idade. “Idade de
quê?”, perguntei. Elae explicou mais uma vez que eu devia escolher
a idade com que viveria para sempre. Eu poderia ser uma eterna
criança, um eterno adolescente, um eterno velho...
— Peraí — alterquei — eu nunca pensei na vida eterna, eu
nem sou religioso.
— Não se trata daquela vida eterna prometida por Deus não —
explicou elae — é essa nossa vidinha mesmo, com todos os percalços
da idade que o senhor escolher.
— Se eu não quero nem aquela vida eterna prometida por Deus, lá
no bem bom do Paraíso, imagina se vou querer essa aqui, em plena
floração protofascista, sem contar essa movimentação toda pra
reformar a Previdência…
— Já disse que isso é assunto vencido. O senhor afirmou, agora
há pouco, em palavras bem pronunciadas, que desejava a vida eterna.
O desejo lhe foi concedido. Agora é preciso escolher a idade, para
concluir o procedimento. Se dentro de dois minutos o senhor não
escolher, escolho eu — sentenciou Elae.
Bom, pra esse tipo de dilema, dois minutos é uma eternidade. Dá
pra analisar e repassar uma vida inteira. Pouco antes de terminar o
tempo, eu decidi escolher a idade de 61 anos, que é a idade em que o
homem está no auge do seu vigor físico e intelectual. Mas aí
lembrei da minha hérnia de disco numa das lombares e, considerando
que essa minha tese poderia gerar alguma polêmica, resolvi escolher
a idade de 40 anos para viver pra sempre, já que não tinha mais
jeito.
Quando anunciei minha escolha, Elae me explicou que o tempo
continuaria correndo, eu faria aniversário todo ano, etc., só que
eu seria um eterno quarentão. Eu envelheceria só no calendário e
nos virtuais registros cadastrais. Quanto à minha escolha — 40
anos — Elae me parabenizou, disse que era uma escolha sábia, que
essa sim é a melhor idade, inclusive para as mulheres. Eu estava sem
jeito, não sabia onde pôr a cara, me submeter àquela besteira...
Então me virei resoluto em direção a Elae para chutar o pau da
barraca, ela(e) havia desaparecido. E eu me sentia com o corpo e a
mente de um sujeito de 40 anos e a experiência de um de 61 anos.
Então pensei que aquilo poderia ser bom. E me sentei no sofá. E
viajei no tempo. (CONTINUA EM "VIDA ETERNA II").