Saio
na varanda para assuntar o dia. Tem sol e faz calor. Lindo! Vou à
Zona Cerealista. O polvilho, no supermercado, está a 7,90 e na ZC
está a 4,90. A castanha, no supermercado, é incomprável, por causa
do preço; na ZC dá pra comprar uns 300 gramas. No Extra, aqui
perto, quase nunca encontro farelo de aveia. E quando encontro, é
naquelas caixinhas minúsculas, que devem ser a razão do preço ser
o dobro lá do Empório Santa Filomena. Além do mais, la na Zona
Cerealista encontro pimenta biquinho, tomate seco, damasco turco…
Posso
ir de ônibus e descer no terminal D.Pedro II; posso ir de metrô e
descer na estação Pedro II. E posso ir de bicicleta. Tudo de graça.
Mas escolho ir a pé. Se ando 12 quilômetros no parque para suar,
posso andar 3 quilômetros para abastecer minha despensa. Moro do
lado oposto ao Brás, em relação ao centrão. A Zona Cerealista
fica no Brás. Então, devo cruzar a Praça da Sé. Saio de casa
planejando não só passar na Sé, como entrar na catedral. Faz quase
meio século que moro nas redondezas e só entrei na catedral uma
única vez. Para quem não conhece, a catedral da Sé é monumental,
pretendo entrar lá para conferir se vale uma visita turística.
Chego
por trás, pela Praça João Mendes. Por isso, não noto o rebuliço.
Pretendo entrar pela porta lateral. Ih! Está tendo missa. Não é
uma boa visitar uma igreja como turista, na hora da missa. Ponho o
pescoço para dentro, não está tão cheia, acho que dá para
passear por uma das laterais sem ser notado. Mas que tanto de gente
fardada é esse? Gente do exército, gente da polícia militar, gente
da guarda civil. Só então noto a policial militar se fazendo de
porteira, me olhando do Gênese ao Apocalipse. Tiro os trem. Eu, hem?
Então começo a ver um monte de viaturas de tudo quanto é calibre
pela praça. É a missa dos militares, me informa um, que está
guardando uma delas.
A
praça está irreconhecível. Nenhum mendigo nas escadarias e nem
entre as palmeiras imperiais que envolvem o marco zero. Ninguém sentado nos muros, muito menos deitado nos gramados suspensos sobre a estação Sé do metrô. Onde será que enfiaram todo aquele povo? Só lá no fundão, debaixo das tipuanas, na direção do Páteo do Colégio, vislumbro um arremedo de pregação evangélica. Um sujeito baixinho e troncudo e opaco, vestindo terno, cisca no meio de um quadrado de quatro por quatro metros, delimitado a giz no calçadão. Em volta do quadrado, uns 15 curiosos. Há alguma coisa escrita, também a giz, no meio do quadrado. Chego mais perto para ler. Sou o 16º curioso. “JESUS VOLTARÁ EMBREVE”. Tô lascado!
Na
Rua General Carneiro, que antigamente era ladeira, o locutor da Daisy
Modas está afoito-apoplético: não entendo nada da sua fala. Vai
ver, tem duras metas a cumprir. Como se escreve Daisy Modas em
miamês? Pouco abaixo, o locutor da Betty Modas é o oposto. Começa
me confirmando que o dia está lindo. Aquele é jovem, este é idoso.
O tempo passa, todos aprendem. Como se escreve Betty Modas em
noviorquês?
Chego
ao destino. Posso escolher entre o Empório Santa Rosa, o Santa Rita,
o Santa Fé. Ou o São Vito. Mas entro no Armazém Santa Filomena, o mais
cheio. Dizem que é por causa do preço, da variedade e qualidade e
da alta rotatividade dos produtos, que faz com que sejam sempre
frescos. Os demais empórios estão vazios, esse está cheio. O moço
da senha me dá a preferencial, a coisa já foi pro brejo… Esse
povo somos bestas, vai ver isso aqui é tudo de um dono só, e
certeza que os fornecedores são os mesmos. A cidade está aí para
quem quiser assuntar. Sendo que a cidade não está nem aí.
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