domingo, 23 de setembro de 2018

Ele, o Coiso.


Ele, O Coiso.
Quem cultiva a memória faz menos besteira. Quem puxa pela memória, aprende com a História. Vivi intensamente a eleição presidencial de 1989. Já tinha mais de trinta anos e não sabia o que era aquilo. Minha geração cresceu durante a ditadura. Só conhecia o toma lá-dá cá da política menor feita por vereadores e deputados, e prefeitos do interior. Durante a ditadura, só restava aos parlamentares trocar os valores das emendas por votos, prática que ainda predomina. Os grandes temas eram decididos na caserna, com assessoria de FIESP, FEBRABAN e congêneres e certa Embaixada...
Em 1989 havia, no campo democrático e popular, duas candidaturas fortes: Brizola e Lula. No campo democrático e elitista, havia também dois candidatos representativos: Mário Covas e Ulysses Guimarães. E no campo oligarca, havia Paulo Maluf, representando a oligarquia urbana e Ronaldo Caiado, representando a oligarquia rural. Por fora, e sem razão, motoristas de táxi e alguns negociantes autônomos insistiam em votar no Maluf… Guilherme Afif Domingos e o seu partido liberal era o João Amoêdo da época.
Mas, em 1989, correndo por fora, como azarões, havia Enéas Carneiro, Fernando Gabeira, Roberto Freire e um tal Fernando Collor. Gabeira e Freire queriam só aparecer, alavancar suas carreiras futuras no parlamento e na Globo; Enéas e Collor eram franco-atiradores, tudo que viesse era lucro.
A inflação comia o dinheiro dos pobres. A correção monetária e o over night protegiam o dinheiro de quem tinha conta em banco. Baixo-assalariado recebia em cash; somente empresas maiores pagavam salário através de crédito em conta.
Um certo candidato Collor danou-se a dizer que ia acabar com os marajás. O povão logo entendeu, com a ajuda de certos jornalistas, que marajás eram todos que tinham conta em banco, desde assalariados médios até os políticos em geral. Grosso modo, quem tinha carteira assinada já era privilegiado, porque recebia férias, 13º e já era objeto da inveja daqueles que nem isso tinham. Um campo onde viceja a baixa escolaridade e a desigualdade (de renda e de oportunidades) é fértil à inveja.
Havia desemprego e o salário era baixo; o salário-mínimo menor que 100 dólares. Os benefícios da constituição de 1988, como aposentadoria rural, seguro-desemprego e farmácia popular, ainda não faziam efeito. A situação econômica estava insuportável. O pedreiro ou o marceneiro faziam o serviço e, na hora de receber, o que haviam cobrado valia a metade. O povão detestava os políticos tradicionais, que via como carreiristas, no mal sentido do termo. Por isso, não votava nem a pau em Maluf, Covas, Ulysses, Afif. Votava em Lula, o metalúrgico, e em Brizola, o perseguido e exilado. Nossas oligarquias urbana e rural, viúvas recentes do regime que se encerrava, estavam desesperadas. O povão rejeitava todos seus candidatos clássicos. Os democratas elitistas (isso é possível?) não aceitavam alguém sem diploma universitário no cargo de presidente.
De repente, algum publicitário notou aquele alagoano jovem, homão da porra, quase imberbe, que tinha um bordão pesado: caçador de marajás! E, de quebra, tinha “aquilo” roxo. Ele. O Coiso!
Enfim, a oligarquia desceu em peso n’o Coiso. E os desavisados foram atrás ou ficaram em casa. E um “petista” sequestrou o Abílio Diniz… E o Coiso foi eleito e atrasou nossa vida por mais de dez anos. Eu não votei n’Ele. N’#EleNão.






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