segunda-feira, 4 de julho de 2022

MINHA TERRA TEM PARQUE AQUÁTICO

MINHA TERRA TEM PARQUE AQUÁTICO... e macaúbas e gairovas. Vai lendo. Está no jornal de hoje que Andradina terá o maior parque aquático do mundo. Por enquanto, o maior parque aquático do mundo fica a uns 200 Km dali, em Olímpia, no mesmo meu noroeste paulista. Sim, nasci naquele pedaço e lá vivi até os 18 anos.

Nunca pensei que aquelas amenas colinas pudessem se transformar em covis de descontraídos e acalorados turistas rápidos de banhos públicos. Pensava que a vocação inexorável daquelas férteis e amigáveis terras era a produção de café, de laranja, de cana, de gado... mas eis que meus conterrâneos se transformam em hospedeiros e exploradores de turistas!

Quem diria, aqueles capiaus!

Mas um observador arguto já saberia da vocação espetaculosa daquela pacata gente. Olímpia já teve um Rei do Café; Andradina já teve um Rei do Gado. Mas não deixa de ser inusitado (e talvez irônico) que aquela gente, que nunca viu o mar, proporcione um turismo de águas, transforme suas praças num megalomaníaco banheiro coletivo.

Evidente que nesses parques aquáticos tem praias!

Isso me lembra um livro do escritor italiano Francesco Piccolo, L’Italia spensierata (A Itália despreocupada), de 2007. Ele descreve algumas situações em que os italianos demonstram sua alienação e mediocridade: a moda de desperdiçar uma tarde inteira como figurante na gravação de um programa de auditório, de acotovelar-se nos postos de beira de estrada durante o êxodo de férias, de ficar horas nas filas dos brinquedos do Play Center lá deles e gastar um salário inteiro com os filhos em guloseimas e pequenas bobagens, de enfrentar o tropel da multidão para ver o “cinepanettone” natalício do ano (aqui entre nós, aqueles filmes bobos sobre o nascimento e a morte de Jesus, no Natal e 6ª f. da paixão, respectivamente).

Tudo isso despreocupados e deslumbrados, como os passageiros de um cruzeiro marítimo ou os hóspedes de um hotel-fazenda, acrescento eu.

Acho que na Itália não tem parque aquático. Se tem, não chega nem aos pés dos nossos e a água não é quente.

Sim, amigos e amigas. Tudo água quente, quer dizer, morna. Eles aprenderam a perfurar poços mais que profundos e retiram a água do mais profundo aquífero, lá perto do núcleo quente do planeta. Mas pode ser também que a água fique morna com o tórrido sol e os 40ºC do ambiente de janeiro a janeiro.

Pensando bem, não sei se é vantagem a água morna naquele calorão (tenho conhecimento de causa, já tomei muito banho de córgo lá). De todo modo, a água sai quente de dentro da terra ou é esquentada na chaleira. Pense naqueles rios e cascatas e ondas artificiais de águas cristalinas e quentes a escoarem brejo afora... Sim, é um atentado ecológico.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

O MONSTRO CRACOLÂNDIA

 

Leio no jornal que o Cracolândia se movimentou, foi para a Av. Rio Branco com a General Osório. Imagino que esse Cracolândia seja um bicho futurista de cem cabeças, mas um e único bicho. Ou, ao contrário, um bicho resgatado diretamente da era dos dinossauros.

 Imagino a mecânica dessa movimentação, desse deslocamento: cem pernas se deslocando, em sincronizado movimento, todas com a mesma direção e velocidade. Cem cabeças e cem pernas, é um bicho coletivo composto por indivíduos que não conseguem parar de pé por causa da perna única ou da falta da outra perna. Indivíduos insignificantes e invisíveis que, quando se juntam, adquirem personalidade única e poderosa.

Esse bicho com cara e cheiro e rosnado de monstro amedronta a população da vizinhança. Imagino o terror de moradores e comerciantes da Luz, Campos Elíseos, Santa Ifigênia, Centro Novo, Santa Cecília, Vila Buarque e até Barra Funda e Higienópolis. “O Cracolândia está esticando as pernas”. “O Cracolândia vem vindo pra cá, meu deus!”. Sem dar uma dentada, o Cracolândia destrói as vidas do pedaço onde ele para pra descansar.

Mas na Praça Princesa Isabel o Cracolândia não descansa mais. A Princesa Isabel é o risco no chão: daqui você não passa, ô Cracolândia! A Câmara deliberou e a prefeitura cercou; com cerca de homens da guarda municipal enquanto a cerca de aço não fica pronta. Mas a prova de que a prefeitura é poderosa e venceu a parada é que, na Praça Princesa Isabel o Cracolância não passa mais.

Acompanho com interesse literário as movimentações do Cracolância. É que moro aqui na encosta do espigão da Paulista, aonde o monstro não chega, estou seguro (mas não nego que tive um leve arrepio quando vi a barraca de lona preta instalada junto à parede do prédio novo ali da esquina e uma cordinha com roupas penduradas entre dois dos coqueiros que compõem o paisagismo frontal).

 As movimentações do Cracolândia me lembram o Ensaio sobre a nossa cegueira, do Saramago. No começo, eram poucas (minoritárias) as pessoas que zanzavam, cegas, pela cidade. Mas a epidemia se alastrou e, finalmente, todos ficaram cegos. Apenas uma mulher permaneceu com a visão normal. Essa mulher descreve a cidade degradada e as movimentações dos vários grupos de cegos, bem como a aleatória ocupação das casas, eis que perdeu todo o sentido a noção de espaço privado.

 A moral da história é que, se a gente não deixar de ser cego, mais dia menos dia cruzaremos o caminho do Cracolândia. Saibam que as águas do Dilúvio afogaram a todos, até aqueles que viviam nos mais altos cumes.

 

terça-feira, 17 de maio de 2022

TIROTEIOS EM MASSA

 Péra aí gente, a coisa é mais grave do que eu pensava. Fui ao Gugol e digitei TIROTEIO. A primeira sugestão foi “tiroteios estados unidos”. Entrei. A primeira notícia sugerida é “Caso de Buffalo é o 198º tiroteio em massa nos Estados Unidos em 2022”, da CNN Brasil.

 Em seguida, uma notícia da abril.com.br diz que “Em 48 horas, EUA somam ao menos quatro tiroteios com vítimas fatais”.

 A notícia da CNN informa que “no ano passado, os EUA registraram 691 tiroteios em massa e quase 21.700 mortes relacionadas a disparos de arma de fogo”. É uma estarrecedora descoberta.

 Sim, descobri a partir de uma notícia na TV; eu que nunca vejo notícia na TV, hoje vi, zapeando lá. Não acreditei e vim aqui conferir. É fato! Mais de 10 tiroteios em massa por semana.

 Claro que eu sabia dos tiroteios em massa nos EUA, mas não imaginava que ocorressem nessa quantidade. Bem, não vou me alongar em especulações sociológicas, psicológicas, ideológicas sobre essa catástrofe social. Apenas digo-lhes que eu não quero viver num país com tanto ódio acumulado.

 Aqui talvez caiba uma comparação entre a violência social brasileira e a estadunidense. A nossa violência, também em massa, é decorrência da miséria. A violência deles é decorrência do ódio. Sendo que o ódio é a gigantesca frustração isolada de milhões, que vai fermentando também isoladamente, até explodir em... episódios isolados!

 É uma grave doença social, tanto que dão o nome de epidemia. Epidemia de tiroteios.

 Se coubesse a você o absurdo de escolher a fonte da violência a que seria submetido, qual delas você escolheria? Dias atrás, contei do assaltante que levou minha grana, mas deixou meus documentos (enquanto me rendia com uma faquinha, ordenou ao seu comparsa que vasculhava minha carteira que tirasse apenas o dinheiro, deixasse os documentos).

 Disse que não ia me alongar... enfim, não quero ir à AMÉRICA nem a passeio. “América”? Sim, a “América” lá deles, a doença começa aí. Da próxima vez, vou perguntar ao Gugol o que é tiroteio em massa.

domingo, 15 de maio de 2022

REZAR E COMER

 CONTO DE 500 PALAVRAS SOBRE CANIBALISMO. A primeira coisa que o cara comeu dela foi o dedo seu vizinho, aquele dos anéis. Ainda bem que ela só usava um anel, senão ele teria tido um arranhão maior na garganta.

Infelizmente o anel ainda era metálico; se fosse de plástico, como todo bom anel moderno, ele nem teria sentido. Só que ele, o anel, sendo de plástico, sairia íntegro do outro lado, e íntegro permaneceria por séculos atravancando nosso caminho. Sendo de lata, e de lata vagabunda, desintegra-se já dentro do estômago, vantagem para o fiofó.

Sim, o dedo anular, vizinho ao mindinho.

Quando jovem, o cara comia a bola. Em seguida, ainda jovem, passou a comer a bíblia. Depois, passou a comer o smartphone.

No episódio do anular, seu vizinho do mindinho, o sujeito já estava na casa dos 30 anos. Comeu o dedo, avançou para a mão, o braço e o sovaco. Mas o sovaco, sendo um oco, como o próprio nome sugere, não tem sustança de se morder, então ele atravessou aquela depressão e se concentrou nos montes frontais.

Sim, comeu um seio, depois o outro.

Aí sim, se engasgou feio, com tanto silicone. Mas engoliu.

Aí sim teve uma indigestão, com tanta matéria orgânica e inorgânica no estômago. Mas pelo fiofó a coisa fluiu fácil, deixando no terreno algo parecido com uma corda de naylon.

Dos montes frontais, ele subiu ao rosto, mas antes de comer, lambeu. Foi a pió viaje! O rímel era do Cambodja, a base, de Bangladesh e o batom, da Coreia do Norte, vermelho e amargo. Sem contar os pontiagudos pingentes nas sobrancelhas e nariz, que lhe espetaram a língua.

A língua derreteu em sua boca, feito um sorvete.

As orelhas eram só cartilagem. Aquelas tenras partes baixas das orelhas também foram transformadas em pelancas, por enormes anéis espaçadores. Mais uma vez, a garganta sofreu, com a mistura de nervuras e metais. O estômago nem tanto, que já estava quase acostumado com tantos corpos estranhos sobre o corpo.

O cabelo ele comeu, mas não me perguntem como, nem o resultado.

Do céu à terra, da cabeça aos pés. Pés e joelhos têm sua graça. Os joelhos foram descobertos na década de 1960, com o advento da minissaia. Antes, ninguém os comia, sequer se sabia da existência deles. Só as canelas que são intragáveis, ou melhor, incomíveis.

As coxas entraram no mesmo pacote que as nádegas, cujo conjunto chamamos bunda. A parte mais apetitosa foi a bunda. Ora, nem precisava falar, isso é intuitivo. Porque na bunda, mesmo com silicone, ainda sobra muita carne. E carne de traseiro, forjada no vai e vem da vida, não aquela coisa esponjosa dos seios. A fome era tanta que ele confundiu essa parte com filé.

Tudo isso no lanche da tarde, num pic nic no parque. Ou teria sido sobre os bancos do carro, num drive thru? Enfim, fome, fruta e felicidade.

Só sei que, quando o cara deu por si, tinha comido a moça. The End.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

O CAIPIRA E O CAMELÔ

 

O CAIPIRA E O CAMELÔ. O camelô entra espalhafatoso em meu radar...; um furtivo foge afobado de fiscais após furtos a cidadãos finórios...; furto? Furtar não é quando se subtrai sutilmente? Se for, aquilo não foi furto não, aquilo foi bote.

 

Tal como o mais sonso gato, o jovem sonda o cidadão em seus mínimos gestos ao celular. Não é maldade, é sonsice e performance. Maldade é coisa de jararaca, gato é outra coisa: mão leve, olhar fixo e bote fulminante. O governo quer privatizar a Petrobrás para se isentar do aumento da gasolina.

 

E camelô não furta, camelô vende. Camelô não toma, camelô ganha: no grito, na arte e na manha. Sabe aquela estória do marido traído e do sofá? O marido pegou a mulher com outro no sofá. Aí privatizou o sofá. Camelô não vacila.

 

Camelô é instituição de cidade grande. Caipira é artesanato, camelô é arte e ardil. Gasolina uma ova: diesel, gás, até o querosene das lamparinas e dos aviões. Até velas!

 

Camelô já foi atração turística em São Paulo. Em esporádicas excursões a São Paulo, caipiras ficavam fascinados com aqueles seres extrovertidos e bem-dispostos a anunciarem improváveis produtos na via pública. Isso na década de 1950/60.

 

Dizem que o próprio Sílvio Santos ficou rico vendendo canetas nas ruas, lenda adequada a alguém que nunca deixou de ser camelô, ainda que furtivamente, surfando na superfície da superficialidade. Eu tenho uma relação de amor e ódio com os camelôs.

 

Ninguém mais usa o termo camelô, agora é ambulante ou sacoleiro. É um raro caso de nacionalização de um francesismo, que coerentemente guarda conformidade com a avacalhação da coisa. A atividade do camelô, com seus produtos e clientes típicos, dá um tratado sociológico.

 

O camelô vende produtos portáteis, baratos e cuja utilidade salta aos olhos. O produto oferecido pelo camelô não pode ser do tipo difícil, daquele que a gente vai descobrindo sua utilidade aos poucos, como um chinelo ou uma cumbuca ou uma mochila. Ou pode ser chinelo, cumbuca ou mochila descartáveis, com preços de descartáveis e aparências de duráveis.  

 

É bem ao contrário: o produto deve parecer muito útil de cara, assim como deve ser clara a grande vantagem da relação custo/benefício. O usuário deve descobrir em casa, aos poucos, que comprou gato por lebre e que a genialidade era apenas aparente.

 

O badulaque é um pequeno trambolho logo esquecido n’algum fundo de gaveta ou tão frágil que logo estraga e vai para o lixo. Odeio os camelôs no que eles têm de gananciosos alegres; eles ingenuamente acreditam que vão ganhar muito e fácil dinheiro com o genial produto.

 

Camelô nunca deve oferecer produto muito simples ou banal, que remeta o comprador à invariável banalidade da própria vida. Porque toda compra é uma fuga à mediocridade da existência. E camelô não vende produto de marca falceta. Esse é outro nicho do mercado...

 

Os próprios camelôs são os primeiros a se iludirem com as facilidades prometidas por suas pequenas engenhocas.  Mas gosto da informalidade, liberalidade e maleabilidade deles. Um camelô de verdade não briga: contorna, releva. Já os ambulantes brigam até com deus por um espaço de sobrevivência...

 

Quando vejo um camelô em atividade, torço pela venda; venda efetuada, desprezo o comprador e me comprazo com o sucesso do vendedor. O comprador está sempre à espreita de pequenas e oportunas vantagens. Sai do prejuízo por cima, sem desmoralização, porque na sua decisão de comprar estava implícito o cálculo do risco: se não prestar o prejuízo é pequeno.

 

O cliente de camelô é tão raso quanto os produtos que compra, é oportunista e gosta de levar vantagem; e ignora a engenharia social de que é vítima. O que não tem contorno e é prejuízo certo é o preço do gás. Mas aí não tem oportunismo ou ocasião ou fuga ou engenharia, é tudo preto no branco do previsível.

 

A solução é caipira: nunca comprar lebres que miam.   

segunda-feira, 2 de maio de 2022

ESCÂNDALO & VILIPÊNDIO

 A NECESSIDADE FISIOLÓGICA NA RUA, NO MEIO DO REDEMOINHO.

Se um jornal tido como sério noticia hoje, em destacada chamada, que Yasmin Brunet curte noite de carnaval sem calcinha, eu posso noticiar, sem ser considerado grosseiro ou superficial ou alienado ou sensacionalista, que, também hoje, por volta do meio dia, à Rua Santa Rosa, no Brás, São Paulo, capital, em frente à principal loja do Armazém Santa Filomena...

 ...uma mulher de cerca de 40 anos de idade abaixou suas calças em público e ficou de cócoras, para fazer suas necessidades fisiológicas.

 Eu não vi na TV ou jornal, nem ouvi no rádio, tampouco vi ou ouvi ou li em alguma rede na internet. Nenhum vizinho ou familiar me contou; eu vi, com meus próprios olhos, em plena luz do meio dia de um dia ensolarado, uma mulher adulta abaixar as calças para fazer suas necessidades fisiológicas.

 Eu não estava em nenhum posto privilegiado para observações indiscretas, nem munido de qualquer equipamento para aumento ou melhoria da visão. Eu estava andando na calçada, em meio a vários outros pedestres. Havia automóveis estacionados no meio fio, enquanto o trânsito era lento, por causa do congestionamento.

 Uma mulher de 40 anos abaixou as calças entre um carro estacionado e os carros em movimento a 10 Km/h, para fazer suas necessidades fisiológicas.

 Eu caminhava entre os carros estacionados e os em movimento, pretendendo atravessar a rua. A mulher abaixou as calças e ficou de cócoras a 10 metros de onde eu passaria, se não atravessasse a rua em meio aos carros semiparalisados pela lentidão do trânsito.

 Escrevo às 17h30, o ato foi há 5h30, creio ainda ser possível sentir ao menos o cheiro do produto deixado pela mulher, no meio da rua e dos carros e dos pedestres e do redemoinho.

 Uma mulher de 40 anos fez as necessidades fisiológicas em público, no meio da rua, em minha frente.

 A mulher na rua, no meio do redemoinho. Uma rua no centro do centro da mais rica cidade brasileira.

 Vejam bem: uma mulher. Não era uma cadela, nem uma égua, nem uma vaca, nem uma galinha. Era uma mulher. Claro, era uma mulher sem noção, sem futuro e sem banheiro. Sem nenhum escândalo e muito vilipêndio.

 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

A MISÉRIA

 MISÉRIA PÔCA É BOBAJI. Confesso que minha fé na Humanidade diminuiu depois que fui assaltado. Pouco, continuo andando por aí, em meio ao povo, só que agora vou mais de bicicleta do que a pé. Depois que levaram meu troco mediante uma faquinha de 12 cm apontada para minha barriga, passei a desentender menos aqueles que, infantilmente, desejam portar uma arma.

Digo-lhes, para os de fora, que a coisa aqui tá branca! Os pretos brancos de fome e de raiva nas ruas. Mais de raiva que de fome. Aqui na megalópole o que não falta é gente servindo refeições nas ruas (a caridade aumenta na proporção da miséria). Só passa fome quem é mané. Aliás, sabiam que esse “mané” jocoso não tem nada a ver com o Manuel português? Sim, é coisa de personagem bíblico, conto numa crônica que integra o “A bíblia sagrada em crônicas profanas”.

Frequento o centro expandido da cidade. Além dos rios, costumo ultrapassar apenas as pontes Eusébio Matoso e das Bandeiras. Quase não vou ao fundão das periferias, onde sempre foi feio. No Ibirapuera, há concentração de moradores de rua na praça do obelisco. Na Paulista, há concentrações no MASP/Trianon e nos viadutos com a Consolação. No centrão, é uma concentração só, generalizada.

Segundo levantamento da prefeitura, a população de rua aumentou 31% nos últimos dois anos. Em 2019, eram 24.344 pessoas; em 2021 são 31.884. São 12.438 pontos de concentração de gente de rua em 2021, contra 6.816 em 2019. Mas a novidade visual aqui, agora, são as barracas: temos, em 2021, 6.778 famílias vivendo em barracas. Onde eu ia escrever “miséria pouca é bobagem”, escrevo Onde esse pessoal caga e toma banho?

A Praça Princesa Isabel é apenas um pornográfico detalhe. O que é pior: passar fome ou não ter lugar pra cagar?

Agora, entre essa multidão de pobres miseráveis, 6% são profissionais, não querem sair das ruas. Conheço ao menos um deles, folgado. Construiu uma casa de lona sobre três eixos e seis rodas. Fica no meu caminho, mas não vou dizer onde... ele e o cachorro.

O cachorro, sim, é uma boa arma de defesa. Os cachorros espantam os bichos e os homens selvagens. É uma moda caipira que pegou na cidade. Em quase todos os quintais há um ou vários cachorros escandalosos. Todo mendigo esperto tem um cachorro ao lado. Ao contrário dos gatos, os cachorros são cachorros.

Pela Florêncio de Abreu, no centro, vinha eu pensando (isso porque ia atravessar a praça da Sé dali a pouco): meu deus!, só a compaixão resolve esse problema. Como pode alguém pensar em armas, repressão, competitividade num miserê desses? Em São Paulo já tivemos tantos truculentos e truculências... e vejam no que deu: uma cidade conflagrada.

Uma conflagração pela miséria, não pelas armas!

Duas coisas me envergonham em São Paulo: a desigualdade social e a sujeira dos rios.

Rio de nervoso quando lembro do prefeito Dória em seus primeiros dias de mandato, vestido de gari na praça 14 bis, dando uma de zelador da cidade. Era 2017, ouvi pela primeira vez o termo “zeladoria” da boca de um administrador público. É batata! Nas bocas desses caras, o vocabulário sempre vai na contramão da realidade.

O que pode fazer o mané-cidadão-comum-com teto? Pode, no mínimo, não escolher a truculência, declarada de uns e camuflada de outros...

sexta-feira, 15 de abril de 2022

CRÔNICA DA SEXTA FEIRA DA PAIXÃO

O domingo anterior ao domingo de páscoa é o domingo de ramos, sabiam? Nesse dia, minha irmã sempre leva uma folha de coqueiro pra benzer na missa mais próxima. Minha mãe guardava essa folhona pregada na parede do quarto, durante o ano todo. O episódio tem a ver com a unção de Betânia, narrado por João em Jo 12, 12. (vamos, gente, coragem! Tomem uma bíblia e consultem, é um dos maiores clássicos da literatura ocidental).

O domingo de páscoa, aquele que vêm logo depois da sexta feira da paixão, que, por sua vez, sempre vem 45 dias depois da terça feira gorda do carnaval (os 40 dias da quaresma entremeados), não tem dia fixo no calendário, todo mundo sabe. Isso explica porque, às vezes, o carnaval cai em março, contradizendo o samba.

Não tem dia fixo porque depende do equinócio de outono. O equinócio de outono, por sua vez, é um fenômeno mui concreto do movimento dos astros e planetas e da Terra deveras redonda (sempre recordando aos incautos que a contraposição entre Terra redonda e Terra plana é a representação simbólica do confronto entre a Física e a Metafísica).

A história de Jesus tem quatro narrativas (na Bíblia). São bem diferentes entre si, nos detalhes. É aquilo que os poetas repentistas chamam de 4 evangelhos. Aquele pequeno país do oriente médio, ali entre o Estreito de Bósforo e o futuro e artificial Canal de Suez, onde reinavam os Judeus, fora conquistado pelo Império Romano.

O povo era calejado nessa de ser dominado por impérios. No começo, foram dominados pelos egípcios, depois pelos persas, depois pelos gregos e, na sexta feira da paixão, o império da vez era o de Roma.

Os romanos eram espertos. Chegavam com as armas, dominavam tudo e, em seguida, entregavam o poder local aos fariseus locais. Fariseu é aquele que se alia incondicionalmente ao dominador superior para auferir benefícios pessoais.

Os fariseus judeus odiavam o Nazareno (Jesus, o homem de Nazaré) porque o tal era atrevido, apesar de analfabeto. Distribuía panfletos contra os sacerdotes em plena calçada em frente ao Templo.

Por fim, os fariseus, encorajados pelos saduceus (os aristocratas, que ficavam na moita), vendo que os nazarenos (Jesus e seus apóstolos) não desistiam nem desanimavam, pediram intervenção do ministério do trabalho.

Em Jerusalém, no tempo da sexta feira da paixão, havia duas autoridades: uma local e outra imperial. Herodes era a autoridade local, judeu, portanto; Pilatos era o procurador romano, a autoridade imperial.

Na quinta feira à tarde(Mt 26, 17-nota c), no tempo em que nesse dia ainda era feriado (antes de FHC, portanto), Jesus marcou encontro com seu pai, num parque chamado Getsêmani (foi ali que ele cunhou aquele bordão muito usado até hoje, o “Vigiai e orai”, consultem lá Mateus 26, 41 ou Marcos 14, 38).

Na saída do parque, uma multidão, encabeçada pelos sacerdotes, escribas e anciãos — a fina flor da burocracia judaica —, esperava Jesus para prendê-lo. Levaram-no preso ao Sinédrio, para ser julgado. Sinédrio era uma câmara legislativo-judiciária que fazia as leis e julgava os crimes locais (as leis e os crimes estratégicos, os romanos cuidavam...).

Julgaram e o condenaram à morte. Acontece que recentemente os romanos haviam acabado com essa festa do poder local condenar à morte. A pena capital era privativa dos próprios romanos, os reais donos do poder.

Como os locais — os compatriotas judeus — queriam ver Jesus morto, levaram-no ao procurador romano, Pilatos, e pediram que o condenasse (João, 18, 28).

Pilatos interrogou Jesus. Acabado o interrogatório, Pilatos saiu pra fora e disse aos judeus: “Não encontro nele nenhum motivo de condenação” (João, 18, 38). Já Lucas conta que Pilatos, não vendo crime na conduta de Jesus, enviou-o a Herodes, o rei local, só pra fazer média com os vassalos.

Mas Herodes, ele mesmo beneficiário do dízimo do Templo, e sabedor do desejo dos sacerdotes, devolveu o preso a Pilatos, acho que com um bilhetinho dizendo assim: cara, brigadu pela deferência, mas não tem jeito não, esse sujeito só matano (Lc 23, 8-12).

Foi então que Pilatos lavou as mãos. A multidão, insuflada pelos sacerdotes, queria ver a caveira de Jesus, ainda que, para isso, livrassem o safado do Barrabás. “Crucifica-o! Crucifica-o!!” (naquele tempo, os judeus executavam o condenado a pedradas, enquanto os romanos o penduravam pregado na cruz. Vale dizer que o poder de polícia e execução das penas cabia legalmente aos imperialistas). A tramoia é narrada por Mateus no capítulo 27, versículos 11 a 26.

Mateus diz que Jesus morreu ali pelas 3 horas da tarde da sexta feira (Mt 27, 45-50). Prenderam, condenaram e executaram o acusado em menos de 24 horas! Isso é o que chamo de burocracia escorreita! E interessada!!

Baixado o cadáver da cruz, apareceu um tal José, homem rico da cidade de Arimateia, e pediu o corpo de Jesus. Pilatos concedeu; Arimateia levou o corpo e o deixou num túmulo que havia acabado de construir. O corpo ficou lá sozinho a noite inteira e vai saber o que aconteceu nesse período... (Mt 27, 59-62).

Só no outro dia foi que os sacanas do Templo se lembraram de botar um guarda lá na frente para impedir qualquer tramoia ou fake News e poderem exibir o cadáver já fedendo após o terceiro dia, prazo em que o próprio Jesus havia dito que ressuscitaria; a exibição do cadáver pobre desmoralizaria os proféticos.

Acontece que, no terceiro dia, quando abriram o túmulo, encontraram-no vazio! Foi um quiproquó. Uns diziam que haviam roubado o corpo durante a primeira noite; outros diziam que ele havia subido aos céus.

A ferrenha guerra de narrativas durou uns 300 anos, até que o imperador Constantino falô chega. “Chega: o hómi subiu aos céus e ponto final!”.

E acaba império, começa império, estamos nessa até hoje.  

Frei Beto, em recente entrevista, disse que a forma eficaz de combater a pandemia de carolice que assola o país é usar a própria Bíblia para contra-argumentar. Cá entre nós, não tenho nenhuma pretensão de ser eficaz.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

BATE E AGUARDE!?

 Norma Culta. Um saco! Mas...

Numa rua aqui perto de casa, da calçada, pela porta de vidro fechada, vi um aviso assim: BATE E AGUARDE. Onde está o erro? Erro!? Bem, se eu entendi, o cartaz se fez entender. Então não tem erro. Tá certo, não tem erro, mas tem arranhão.

Podemos comparar a língua à música. Por exemplo, um grande pianista deve sentir calafrios quando ouve a execução de conhecida música por um pianista iniciante. Quem decorou a partitura sabe identificar de ouvido a nota atravessada.

É o caso desse Bate e Aguarde. Vejamos: Trata-se de um pedido ou uma ordem. Caso tu queiras entrar, deves bater e aguardar. Logo, o certo é BATE E AGUARDA. Porém, caso você queira entrar, deve escrever assim no cartaz: BATA E AGUARDE.

É que quando você quer pedir ou mandar, deve usar o Imperativo. Sim, mas então por que pode ser Bate e Aguarda ou Bata e Aguarde?

Ora, porque sendo vós uma pessoa muito formal e cuidadosa, gostais certamente da respeitosa e formal segunda pessoa. Bate e Aguarda, segunda pessoa do imperativo.

Ou, sendo você uma pessoa mais informal e menos fresca, gosta das coisas e das palavras mais “na lata”: Bata e Aguarde, terceira pessoa do imperativo.

Mas se alguém manda, pede ou avisa, no mesmo cartaz, que eu Bata e Aguarda, (ou bate e aguarde) aí sofro uma pontada no ouvido. Porque um está na terceira e outro está na segunda pessoa.

(sim, se quiserdes serdes excessivamente fresco, podeis usardes a segunda pessoa do plural para vos dirigir a apenas uma singular pessoa).

Ôtra coisa que dói no ouvido é o desnecessário ou o redundante ou o excessivo: o pleonasmo. Por exemplo: NESTE MOMENTO ATUAL. No momento atual, digo-lhes que esse NESTE está sobrando. Ou digo “neste momento” ou digo “no momento atual”.

Na mesma ladainha, vai o NEM TAMPOUCO. Ora, se “nem” é sinônimo de “tampouco”, por que diabos devo dizer Nem tampouco? Ou um ou outro!

Ôtra coisa que arranha é a vírgula separando o sujeito do verbo: Por exemplo: Jorge, pensou um pouco, e falou. Oxente! Não é porque Jorge estava pensativo, parado, que devo tascar uma vírgula antes do “pensou”.

Meus deus que estais no céu, quanta falta do quê fazerdes!

sexta-feira, 8 de abril de 2022

A CONQUISTA DE JERICÓ

DEUS TAMBÉM FAZ GUERRA

“Ora, Jericó estava fechada e trancada com ferrolhos (contra os israelitas): ninguém podia sair nem entrar. Iahweh disse então a Josué: ‘Vê! Entrego nas tuas mãos Jericó, o seu rei e os seus homens de guerra. Vós, todos os combatentes, dai volta ao redor da cidade (cercando-a uma vez; e assim fareis durante seis dias. Sete sacerdotes levarão diante da Arca sete trombetas de chifre de carneiro. No sétimo dia rodeareis a cidade sete vezes, e os sacerdotes tocarão as trombetas). E quando tocares com fragor o chifre de carneiro (assim que ouvirdes o som da trombeta), todo o povo lançará um grande grito de guerra, e as muralhas da cidade cairão e o povo subirá, cada um no lugar à sua frente’.

....... os guerreiros iam na frente dos sacerdotes que tocavam as trombetas, e a retaguarda seguia atrás da Arca; e, marchando, tocavam as trombetas.

Josué, porém, havia dado ao povo a seguinte ordem: ‘Não griteis, nem façais ouvir a vossa voz (e não saia da vossa boca palavra alguma), até o dia em que eu vos disser: ‘Lançai o grito de guerra!’. Então lançareis o grito de guerra’

......

No sétimo dia (do cerco)....... rodearam a cidade sete vezes. Na sétima vez, os sacerdotes soaram as trombetas e Josué disse ao povo: ‘Lançai o grito de guerra, pois Iahweh vos entregou a cidade!’.

...........

O povo lançou o grito de guerra e tocaram as trombetas. Quando o povo ouviu o som da trombeta, lançou um grande grito de guerra e a muralha ruiu por terra, e o povo subiu à cidade, cada qual no lugar à sua frente, e se apossaram da cidade. Então consagraram como anátema tudo que havia na cidade: homens e mulheres, crianças e velhos, assim como os bois, ovelhas e jumentos, passando-os ao fio da espada.”

(trecho quase integral dos versículos 1 a 21 do capítulo 6 do Livro de Josué, do Antigo Testamento, no episódio conhecido como A Conquista de Jericó).

quinta-feira, 31 de março de 2022

COMO FAZER SUCESSO NAS REDES SOCIAIS

 

COMO CONSEGUIR LIKES E CLICKS E CURTIDAS E INSCRITOS E COMENTÁRIOS E COMPARTILHAMENTOS.

Começo com o exemplo da notícia falsa de que misturar manga com ovo faz mal.  

Essa notícia alarmista e falsa bombou lá na minha terra, quando eu era criança. É compartilhada até hoje!  

Não só manga com ovo, mas manga com leite, manga com pinga, coitada da manga. Só manga com pinga não “pegou”, acho que porque quem comia manga não tomava pinga e vice-versa.

Ou porque quem toma pinga é mais cético, menos susceptível a safadezas dessa natureza. Já manga, toda criança chupava adoidado, era uma boa maneira de pais sacanas contornarem a falta de ovo ou de leite...  

Então, imagino, algum benzedor (a quem todo mundo recorria, não havia médicos), querendo fazer sucesso, publicou em suas redes sociais que misturar manga com ovo era morte certa. Foi o que bastou para a fake news viralizar.

Porque não se tratava de simples indigestão estomacal; não, era comer e morrer! Na dúvida, melhor não arriscar. E alertar filhos, sobrinhos, amigos, inocentes em geral, alertar todo mundo (cuidar da saúde de todos), arrepiar a pasmaceira coletiva.

Ah, sim, tomar banho após as refeições também era morte certa.

Além dos dez mandamentos bíblicos, eu tinha mais uns 3 ou 4 que não desrespeitava nunca.

Mas a coisa pode não ter sido tão simples assim. O processo inicial da fake news pode ter ficado hibernando. Algum tempo depois, morre uma criança por motivo obscuro. Foram investigar e descobriram que, de manhã, a criança havia comido manga com ovo. Pronto, a fake deslanchou.

Notem que, muitas vezes, para fazer sucesso não basta aplicar a receita, é preciso perseverar.

Usar dicas de alimentação e saúde é compartilhamento certo, mas tem de envolver riscos e proibições. Dicas sobre hábitos comuns, como maneira correta de escovar os dentes, sob óticas inusitadas e aparentemente geniais. Alertas preventivos sobre perigos difusos sempre dão bom retorno.

E melhor se a sugestão divulgada resultar em algum efeito prático real, como aquele de justificar a falta de ovo ou leite ou a promoção/demolição de algum produto ou ideia.  

Essas receitas são boas, porque furam a bolha, interessam a gregos e turcos. Mas, às vezes, nossa bolha é tão grande que fazer sucesso dentro dela já é suficiente. Nesse caso, faça críticas contundentes ao povo da bolha contrária.

Agora, pelamordedeus, não critique a própria bolha junto com a antagônica, ainda que de forma ponderada. Você estará incorrendo no pecado da isenção ou imparcialidade, que te levará direto para o Limbo, o pior lugar dos quintos dos infernos.

Outra forma de ir para o Limbo é dar uma de limpinho e cheiroso e bem-comportado. Ou então, abordar um assunto sob ótica original, mas sutil.

Há também aqueles que fazem sucesso divulgando receitas de como fazer sucesso rs rs rs.

(Na pré-história, anos 1990, havia consultores e coaches que ganhavam dinheiro nos ensinando a ganhar dinheiro...).

Porém, pior do que fake news, só clickbait! (um dia ainda substituo a bicicleta pela bike).  

  

terça-feira, 29 de março de 2022

A REVOLUÇÃO DOS SIGNOS

 

Num ponto de táxi aqui perto de casa há um carro com um adesivo no centro da parte superior do para-brisa em que está escrito “Fora Dória” e “Globolixo”.

Perfeito!, não gosto do Dória nem da Globo.

Na antena de teto do mesmo carro está hasteada uma bandeira verde-amarela do Brasil. Perfeito!, sou brasileiro e estou quase satisfeito.

(Pensando bem e analisando as alternativas, até que é razoável ser brasileiro. É possível que eu mereça a qualificação de patriota.).

Continuemos com os signos estampados no táxi. O taxista. É um rapaz de informal estampa, tênis, calça jeans, camiseta, barba de 15 dias e farta cabeleira presa por um rabo de cavalo.

Perfeito!, segundo minha rebelde estética anos 1970.  

Entretanto...

Contudo..., trata-se de um bolsonarista militante, o tal taxista.

Como eu sei? Sim, sei e ninguém me contou. O ponto fica perto de casa, mas na contra-mão. Nunca peguei táxi ali não, até porque pego um táxi na vida, outro na morte.

Sei porque li os signos. O conjunto dos signos, sem esquecer a época e o local em que são exibidos. Em SP, atualmente, ser militantemente contra Dória e Globo ao mesmo tempo é bolsonarismo na certa. Se adicionar a bandeira, é certeza.

Nos anos 1980, esse conjunto de signos denunciaria um petista. Mas os petistas, depois de vencerem quatro eleições seguidas, deixaram de ser antissistema e passaram a defender o Supremo. Os petistas, agora, fazem passeatas uniformizados com coletes de identificação... 

Em 1980, esse jovem taxista, nascido numa família patriarcal de moral cristã, classe e escolaridade média baixa, seria automaticamente anticomunista, meritocrata, racista, machista e defensor da Rota na Rua.

Esse jovem nasceu naquela década, diga-se. Seu equivalente de então votava em vereador que prometia asfaltar a rua e no prefeito que prometia acabar com os bikinis. Mas, principalmente, usava barba escanhoada, sapato preto engraxado e terno e gravata para dirigir seu táxi.

Quarenta anos depois, no centenário da Revolução Soviética, a Direita se apropriou dos ícones da Esquerda. O youtuber ultra liberal que defende a legalização do partido nazista fuma maconha on line. Inconformados e ignorantes herdeiros de fortunas fumam paiêros e usam barbas e cabelos ao vento a la Fidel e Chê.

Em 2022, o jovem taxista continua prisioneiro da sua ignorância sistêmica e, enquanto esperneia, leva água para o moinho da contra-mudança. Ninguém escapa da vertiginosa e confusa escalada dos signos, enquanto não se descobre que peido de pato não é incenso.

Daqui a pouco, até os crentes vão abandonar as boas maneiras para eleger trogloditas.

Mas eu só vou sossegar diante dessa reviravolta semiótica quando esses tais incorporarem mais algumas atitudes esquerdistas, como, por exemplo, serem contra a instituição do rico.

Sim, do rico, aquele que para existir precisa, necessariamente, gerar 900 pobres.

Aliás, cá pra nós, por que nenhum desses informais de vitrine é contra a propriedade privada dos pesados meios de produção?

  

quinta-feira, 3 de março de 2022

ORWELL, PERIFERIAS E IMPERIALISMOS

 CÊ É PERIFÉRICO, MANÉ! O mundo está dividido em três grandes países: Oceania, o maior, composto pelo que antes eram EUA, Reino Unido e seus satélites; Eurásia, composto pelas antigas Rússia e Europa continental, e Lestásia, composto pelas ex-China, Japão, Coreia e Índia.

Isso era o escritor inglês George Orwell, em seu romance “1984”, publicado em 1948, início da guerra fria.

Acho que meu professor de Física no colégio, um dentista obtuso no interior, se inspirou no romance para nos dizer em 1973, auge da ditadura militar brasileira, com ares de premonitória sabedoria e teórica conspiração, que Mao Tsé-Tung e Leonid Brejnev não morreriam nunca, porque o Partido manteria o povo iludido de que continuavam vivos, eram imortais.

Como se sabe, Mao morreu em 1976 e Brejnev em 1982, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se desintegrou em 1991 e a República Popular da China já é a primeira potência econômica mundial em poder de compra, capitaneando uma mistura de socialismo com consumismo.

E para os novatos vai a dica de que Brejnev foi o secretário geral do Partido Comunista da URSS entre 1964 e 1982 e Mao comandou a China entre 1949 e 1976. Não era permitido falar Brejnev ou Mao em voz alta na via pública no Brasil em 1973, exceto para desacreditá-los, como fazia meu professor.

Talvez Orwell tenha se inspirado nas tretas entre Stalin e Trotsky, mas a distopia se passa na Oceania, sucessor dos EUA, onde havia uma língua em construção, criada pelo Ministério da Verdade, que quando estivesse finalmente completa impediria a expressão de qualquer opinião contrária ao regime.

Meu obtuso professor não poderia imaginar que o Ministério da Desburocratização criado pelos militares brasileiros já era a Novilíngua Orwelliana aplicada em seu duplipensar: um ministério da desburocratização para burocratizar!

Aquele desinformado teórico da conspiração em 1973 não poderia imaginar que justamente os plurais e democratas do bem EUA criariam as paraestatais Google, Facebook, Twitter, Amazon, após IBM, Apple e Microsoft, que se desdobrariam em Youtube, Instagran, Whatsapp e adjacências, como máquinas de vigilância e guerra.

Que justamente os paladinos do individualismo e da privacidade, os EUA, criariam e instalariam em todas as residências a Teletela!

Que os abertos e transparentes EUA combinariam algoritmo com sistemas massivos de notícias, para viabilizar o duplipensar “informação é ignorância”.

E para completar, como os EUA nunca tiveram um Big Brother, porque são e sempre foram humanistas-falíveis-mortais, inventaram um Big Brother de mentira que, mesmo assim, inunda as teletelas e hipnotiza a maioria dos cidadãos e cidadãs do país.

O engraçado é que a Lestásia, composta pela China, Japão e Índia, era o menor dos três impérios. Não sei se Orwell estava sendo irônico ou se errou feio. Mas a possibilidade da Rússia integrar toda a Europa e formar a Eurásia parece real demais, não acham?

Sei não, mas desconfio que os filhos de meus netos assistirão a filmes de uma Hollywood chinesa, tomarão uma Coca-cola coreana, enviarão seus filhos a uma Disneylândia tailandesa, farão compras anuais numa Miami vietnamita e colocarão seus filhos na escolinha de russo.

E farão turismo de inverno em Xangai ou Tianjin ou Moscou, de onde enviarão vídeos com batalhas de neve sob agasalhos alugados num Walmart mongol. Ah, e enviarão seus filhos mais espertos para estudarem em suas universidades.  

Ah, e somente os profissionais do ramo saberão se é a Lestásia a inimiga da vez e a Eurásia a aliada ou vice-versa. Até porque a guerra é apenas um instrumento econômico para manter privilégios e desigualdades (no pesadelo distópico orwelliano, o país era dividido em classe alta (2%), classe média (13%) e classe baixa (85%). Essa ficção te lembra algum país real?).  

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

FUMAÇA NA PAULISTA E EM KIEV

 JOGATINA E FUMAÇA NO BRASIL E EM KIEV. Hoje nós aqui das imediações da Avenida Paulista também tivemos grossa coluna de fumaça saindo do topo de prédio.

 Aqui também teve fogo. Na guerra, a primeira vítima é a ... Humanidade.

 Mas num tô inventando não, um dos prédios mais altos da Paulista, aquela torre delgada de vidro escuro, ao lado da FIESP, começou a queimar na hora mais quente do dia.

 O incêndio irrompeu na cobertura, na casa de ar condicionado, isso ajudou a evacuação do prédio. O fogo foi controlado rapidamente.

 Quer saber o que tá acontecendo na Ucrânia? Esquece. Na guerra, a primeira vítima é a ... Humanidade.

 Mas, sinceramente, acho menos pior sermos dominados por três impérios do que só por um.

 E a indústria bélica dá empregos... dos mais bem remunerados!

 Cumé qui pode os caras quebrarem a cabeça, gastar um escarcéu de dinheiro, fabricar uma arma monumental e deixá-la enferrujando na garagem?

 Imagina deixar aqueles aviões no chão, carregados de mísseis, sem explodir nenhum? Ora, o homem compra ou cria seus brinquedos para usá-los. Deve ser um tormento para os engenheiros e projetistas bélicos verem suas crias reluzentes e quietas no estacionamento.

 E os testes em alvos fictícios são absolutamente insuficientes. Falo com conhecimento de causa, como projetista e fabricante de estilingue. Era muito mais emocionante jogar pedra nos fugidios passarinhos do que num alvo artificial e inanimado qualquer. E que emoção, quando a avezinha era atingida...

 HOJE TAMBÉM A CÂMARA DOS DEPUTADOS VOTOU A LIBERAÇÃO DA JOGATINA.

 Junto com a bancada evangélica, os deputados do PT votaram contra. A bancada evangélica tudo bem, é moralista, a gente conhece as peças, mas e a bancada do PT? Ora, a bancada do PT também é, grosso modo, moralista.

 De um lado, um moralismo hipócrita: são contra a jogatina aqui, mas vão gastar o dízimo em Las Vegas. Do outro, um moralismo ingênuo ou desinformado ou oportunista.

 Para ser coerente, quem é favorável à liberação da jogatina também deve ser favorável à liberação das drogas. Uma e outra promovem o crime organizado e a lavagem de dinheiro quando ilegais, além de não permitir qualquer controle ou arrecadação da parte do poder público.

 Então, temos dois paradoxos:

 Os deputados do centrão, que votam SIM à liberação da jogatina, votam NÃO à liberação das drogas: incoerência à direita.

 Os deputados do PT, que votam NÃO à jogatina, votam SIM às drogas.

 Já sei! É que Fumar é de esquerda e Jogar é de Direita.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Quando foi que percebemos?

 Quando foi que a gente percebeu que o quê os bandeirantes fizeram não foi nada edificante?

Passei lá na estátua do Borba Gato. A prefeitura, sabiamente, instalou uma placa informativa, em que consta que muitas pessoas não aceitam aquela homenagem, porque se consideram violentadas pelo que ela representa. Isto foi depois que tentaram destruir a estátua, há alguns meses.

A massa vai fermentando, de repente a gente percebe. Quando foi que percebemos que os bandeirantes não eram heróis, mas vilões?

Quando foi que a gente percebeu que a expressão “preto de alma branca” é infame?

Em finais do século XIX, com o surgimento de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, nos demos conta do ridículo que era a conversa de Adão e Eva.

(se bem que a conversa de Céu, Inferno e Purgatório já vinha sendo manjada desde Dante Alighieri).

Tava pensando: Ladrão e Proprietário pertencem ao mesmo campo semântico. Só tem sentido a existência do Ladrão se houver Proprietário. Em sendo tudo comunitário, não haveria ladrão.

Claro que Escravidão e Racismo têm tudo a ver.

Claro que Escravidão e Pobreza têm tudo a ver.

Claro que Patriarcalismo e Machismo têm tudo a ver.

Se não houvesse a chancela social de que o homem é o bam bam bam, os homens que não são bans bans bans não precisariam ser violentos para afirmar o inexistente. 

Quando foi que a gente se deu conta de que o homem não é o bam bam bam?

Que existe feminicídio?

Quando foi que o caldo engrossou, o copo transbordou e a gente acordou?

Aliás, acho que a ridicularização do machismo coincide com a liberação dos viados. É! Os e as homossexuais não podiam sair do armário há apenas 10 anos!

Faz pouco tempo que nos demos conta do ridículo que era a redução sexual ao papai-mamãe.

Mas numa coisa ainda estamos dormindo: a questão da pobreza, da desigualdade.

Quando vamos associar a violência social à equação: 1 tem muito, alguns tem o suficiente e a maioria não tem nada?

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Triste, Louca ou Má

 “UM HOMEM NÃO TE DEFINE/    SUA CASA NÃO TE DEFINE/   SUA CARNE NÃO TE DEFINE/  (VOCÊ É SEU PRÓPRIO LAR)”

 Triste, Louca ou Má. Juliana Strassacapa, do Francisco, el Hombre, é branca, mas se fosse preta, teria alma branca. Patriarcalismo, racismo, o Borba Gato, e um terceiro tema ao final.

 Atualmente dá cadeia dizer que um preto bom tem alma branca. Mas claro! Onde já se viu!? Todo mundo vê e sente a violência da expressão, só mesmo um sem-noção e racista pra pensar um absurdo desse.

 Ora, gente, até outro dia todo mundo usava essa expressão, inclusive os pretos. Era considerada uma maneira criativa e inocente de dizer que um preto era muito bom, só isso!

 Mas quando isso mudou? Como? Por quê?

 Acho que foi um processo parecido com aquele do rei nu. O rei desfilava nu, todo mundo via, mas não acreditava. Até que alguém descontaminado afirmou (olha aí a força da palavra!): “o rei está pelado!” Pronto! Todo mundo entendeu que a expressão queria dizer que os pretos são inferiores aos brancos por natureza e essa afirmação é inaceitável.  

 No tempo da minha avó uma mulher que dissesse “Um homem não me define, Minha casa não me define”, era internada. No hospício ou no convento. Pelo pai E pela mãe! Agora a Juliana canta isso e muito mais aos quatro ventos e todo mundo concorda, além de achar bonito.

 (quer dizer, tem uns 25% que não concorda não, a julgar pelos resultados das pesquisas eleitorais).

 Quando, como, por que mudou? se ontem mesmo a mulher era inferior ao homem, todo mundo concordava, até minha avó, mais ainda do que meu avô.

 Mais uma vez, acho que alguém gritou no meio da multidão que o rei estava nu e todo mundo viu. É realmente uma idiotice descomunal achar que o gênero feminino é inferior ao masculino.

 Tudo é uma questão de abrir o olho coletivo.   

 Hoje visitei a estátua do Borba Gato, na Av. Sto.Amaro, aquela que tentaram destruir há alguns meses. A prefeitura, sabiamente, colocou uma placa lá, explicando tudo, informando ao turista que há pessoas que não aceitam aquela estátua, porque se consideram oprimidas pelo que ela representa.

 Enfim, vai ficando cada vez mais claro que os bandeirantes não merecem homenagem alguma e o que eles faziam não deve orgulhar ninguém.

 De repente, um estalo que acorda, uma gota que transborda...

 Os pobres. Os miseráveis de hoje veem sua condição como os pretos e as mulheres viam as suas no tempo da minha avó.

 Quando e como se dará o estalo para essa desigualdade ser considerada criminosa?  

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Bolsonaristas se retiram

 

NOTÍCIA BOA! Os disciplinados e persistentes 3ozo4aris1as acampados no Ibirapuera bateram em retirada. Sim, levantaram acampamento. Estavam há mais de 3 anos com suas barracas e faixas lá no bosque de eucaliptos que fica atrás da Assembleia Legislativa. Acho que cansaram.

É incrível a capacidade que o poder tem de motivar as pessoas. Mais ainda, a perspectiva de poder. Acho que tomaram conta do pedaço assim que o 3ozo foi eleito. E já foram logo querendo tirar o Dória do poder. Queriam o impeachment do Dória.

Sim, a bronca deles não era com o PT ou o Lula, era com o Dória. Por isso, acho que eram teleguiados da polícia militar. É que os policiais militares têm uma questão sindical com o governador. É com o governador que eles negociam questões internas, incluída uma discreta pauta sindical.

Eu dizia que as pessoas ficam todas diligentes, cheias de iniciativas, ante a perspectiva de poder. Os cabos eleitorais, quero dizer. O poder significa bons negócios e empregos. Inversamente, ficam apáticos, quando seu candidato parece que vai perder. Antecipam a busca da sobrevivência em outra freguesia.

Ali no acampamento dos eucaliptos dos fundos da Assembleia Legislativa deve ter baixado o desânimo, diante da perspectiva de derrota de seu candidato. Isto no nível federal; no estadual, não tem mais sentido combater o Dória, quarto ou quinto lugar nas pesquisas e desmoralizado dentro de seu próprio partido.

Eles não nomeavam PT e Lula. Os 3ozo4aris1as encontraram uma fórmula mais simples e eficaz de combater esses dois: eram contra o comunismo e diziam que “nossa bandeira jamais será vermelha”. Soluções simplórias para simplórios. Claro, eram contra a “vachina” e queriam “endireitar” o país.

No começo, havia cerca de 5 barracas e muitas faixas. Quem passava de carro no trecho final da Abílio Soares, para entrar na Pedro Álvares Cabral, via, à esquerda, um escarcéu de faixas amarradas nos eucaliptos, além das vistosas barracas.

Acho que alguns tremiam de medo e outros tremiam de entusiasmo, diante daquele impressionante visual. Mas quem passava a pé ou de bicicleta, como eu, via que era tudo encenação. Tomando conta daquela parafernália, víamos um ou dois paus-mandados.

Nos últimos tempos sobrou apenas a barraca maior. Havia até um carro estacionado ao lado dela, debaixo de um toldo à guisa de garagem. Mas assim que seu ocupante resolveu seu problema de moradia, deu no pé. Sim, acho que ele juntou ali dois problemas: o seu, pessoal, de moradia e o ideológico.

Mas o povo é maldoso e não perdoa. Fui ao google maps para ver o nome das ruas adjacentes e olha o que tascaram lá: “Acampamento do gado”. Simples assim, como se fosse apenas mais uma das centenas de inocentes atrações turísticas da cidade.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Ainda bem que sou meio surdo

 

AINDA BEM QUE SOU MEIO SURDO, senão vocês teriam de me aturar muito mais. É que não entendo o que ouço de orelhada, no espaço público. Ouço, mas não entendo. Sabe quando o cidadão fala ao celular dentro do vagão? Aquela conversa bem particular, quase íntima?

Se eu entendesse o que estão falando... tenho certeza de que aquelas conversas são um manancial inspirador para um cronista como eu.

Mas não entendo nada, ou quase nada. O que se salva deve-se ao meu poder de dedução e à minha razoável capacidade de ler entrelinhas, subtextos e contextos.

Também faço muito extrapolações e interpolações entre duas ou três palavras que entendo. Algumas palavras são mais fáceis de entender, como pateta, bicicleta, caneta e capeta, palavras com som aberto, sem anasalações, hiatos ou ditongos.

Mas o diabo é que as pessoas que lavam roupa suja em público e por celular nunca falam pateta nem bicicleta, que agora é bike; capeta também não falam, porque dá azar e caneta não falam porque não usam.

Quem não tem cão caça com gato. Fico examinando o indivíduo, seus trejeitos, seu modo de vestir, seu sotaque, sua idade, a altura da voz.

A mulher entrou no vagão já falando. É sempre assim, sabe essas pessoas que entram e saem do elevador falando ao celular e nem notam sua existência? Ela tinha um visual meio desleixado e andrógino, cabelo bem curtinho, uns 40 anos de idade. Ah, e tinha fones de ouvido.

E não é que ela tenha recebido a ligação, fortuita e inesperada, e estava falando por obrigação, contra a vontade, no local impróprio não. Durante a viagem, ela fez várias ligações, consegui contar três, num intervalo de 15 minutos.

Tenho certeza de que, da mesma forma que entrou, ela saiu falando, suponho, porque desci antes dela.

Creio que parte dessas pessoas — são poucas, a maioria é discreta — não têm capacidade de refletir em silêncio, pensar consigo mesmas, ruminar pensamentos, meditar. Outra parte é fuxiqueira pura e simples. São poucas, mas bem distribuídas na população. Sempre me deparo com essas conversas em ônibus, metrô, consultórios médicos e filas em geral.

E o detalhe do fone de ouvido não é coincidência. Além de facilitar a audição do celular, evitam de ouvirem a conversa alheia. Sim, deduzo que essas pessoas detestam ouvir a conversa alheia.

Lamento duplamente. Pelo evento constrangedor que é ver todo mundo ouvindo a fofoca alheia e por não entender a dita cuja.

Não que eu seja bisbilhoteiro, longe de mim, é que tenho interesse literário. Por exemplo, tenho certeza de que ouvi um palavrão, quando a moça abaixou a voz. Era uma palavra daquelas fáceis de entender.

Não, não tenho certeza, apenas deduzo, a julgar pela ruborização que vi em seu rosto, quando ela o levantou e me viu atento (rubor? E essas pessoas lá ficam constrangidas por causa das próprias palavras?).

Sim, a personagem, o entorno, a palavra subentendida, só faltou eu ouvir inteiro.  Ah, seu eu ouvisse inteiro, tenho certeza de que sairia dali com material para uma crônica.  

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

AS PRAGAS DOS EGITO, EUA e RÚSSIA

Quem disse que a História não se repete? Houve um tempo em que o Egito dos faraós foi a nação mais poderosa da Terra. Sendo assim, os pobres do entorno queriam a grana e o estilo de vida egípcio. A patuleia que vivia ali onde é hoje a Palestina, o Líbano, a Síria, a Turquia baixou em peso no Egito, para trabalhar e ganhar a vida. Era empregada nos trabalhos mais insalubres, pesados e degradantes, mas, ao final da semana, recebiam em dólares egípcios e esqueciam todas as dores.

Após muitas décadas de sofrimento, surgiu entre os explorados um líder poderoso chamado Moisés. Só que o Moisés não era um líder comum e carismático falador-atrevido. Aliás, o Moisés nem sabia falar em público (...“Eu não sei falar com facilidade;” – Êxodo, cap.6, versículo 30). Moisés nada mais era do que um teleguiado. Moisés era representante de uma potência estrangeira-alienígena fabricante de armas.

Esse cara estrangeiro fabricava armas muito poderosas e queria testá-las na vida real, sobre a cabeça de viventes comuns. Porque a vida é assim. Quando alguém cria ou inventa ou aperfeiçoa uma máquina qualquer, esse alguém quer ver sua máquina funcionando.

Aí esse inventor poderoso, mas solitário e misantropo, tomou coragem e apareceu para o Moisés com a seguinte conversa: vocês querem se libertar desses sacanas imperialistas, não querem? Moisés respondeu que sim. Aí o mafioso e arredio fabricante de armas continuou: então vai lá e o ameaça; qualquer coisa eu garanto.

E de fato foi isso que aconteceu, conhecido como as 7 pragas do Egito, que na verdade foram 10. O faraó não cedeu na negociação, Moisés transformou a água em sangue; o faraó continuou impassível, Moisés infestou de rãs todo o país... enfim, teve infestação de mosquitos, de moscas, de gafanhotos, teve epidemia de peste, de úlceras, o misantropo era tão criativo que inventou uma arma que fazia o dia virar noite e outra que fazia chover, mas não qualquer chuva: chuva de pedras.

Bem, essas eram as armas que se podia fazer naquele tempo, eis que ainda não haviam inventado nem o torno nem a prensa nem o alicate nem a eletrônica, se bem que esse cara já dominava a tecnologia de comunicação à distância.

E vejam como a História se repete. Alguém inventa e fabrica as armas e sai à procura de países ou povos alhures que estejam em conflito. Escolhe um dos lados e fornece o arsenal e ensina-os a usar. E pra garantir que a parte escolhida como vítima não ceda às ameaças da parte armada com as novas armas e negocie, evitando a guerra, esse inventor-fabricante endurece o coração do faraó.

O cara instruiu Moisés: vai lá e ameaça; e prepara-te para realmente usar a arma, porque ele não vai ceder; eu, com meu sistema de manipulação de narrativas e indução de opiniões, endurecerei o coração do faraó (Êxodo, cap. 7, versículo 3).

Enfim, a história de fazer guerra teleguiada.

Mas claro que quem projeta um avião de 100 milhões de dólares — imagina a perfeição que deve ser uma máquina de 100 milhões de dólares! — quer ver seu brinquedo em ação.

(esse é o preço dos nossos gripen suecos, R$24 bilhões por 36 aviões)

Imagina a merreca que são nossos gripen suecos perto lá dos caças e bombardeiros estadunidenses e russos!

Bom, agora deixo a você, leitore, com sua fértil imaginação e poder de dedução, identificar nessa querela entre Rússia e Ucrânia, quem é Deus, quem é Moisés e quem é o Faraó.