quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Ainda bem que sou meio surdo

 

AINDA BEM QUE SOU MEIO SURDO, senão vocês teriam de me aturar muito mais. É que não entendo o que ouço de orelhada, no espaço público. Ouço, mas não entendo. Sabe quando o cidadão fala ao celular dentro do vagão? Aquela conversa bem particular, quase íntima?

Se eu entendesse o que estão falando... tenho certeza de que aquelas conversas são um manancial inspirador para um cronista como eu.

Mas não entendo nada, ou quase nada. O que se salva deve-se ao meu poder de dedução e à minha razoável capacidade de ler entrelinhas, subtextos e contextos.

Também faço muito extrapolações e interpolações entre duas ou três palavras que entendo. Algumas palavras são mais fáceis de entender, como pateta, bicicleta, caneta e capeta, palavras com som aberto, sem anasalações, hiatos ou ditongos.

Mas o diabo é que as pessoas que lavam roupa suja em público e por celular nunca falam pateta nem bicicleta, que agora é bike; capeta também não falam, porque dá azar e caneta não falam porque não usam.

Quem não tem cão caça com gato. Fico examinando o indivíduo, seus trejeitos, seu modo de vestir, seu sotaque, sua idade, a altura da voz.

A mulher entrou no vagão já falando. É sempre assim, sabe essas pessoas que entram e saem do elevador falando ao celular e nem notam sua existência? Ela tinha um visual meio desleixado e andrógino, cabelo bem curtinho, uns 40 anos de idade. Ah, e tinha fones de ouvido.

E não é que ela tenha recebido a ligação, fortuita e inesperada, e estava falando por obrigação, contra a vontade, no local impróprio não. Durante a viagem, ela fez várias ligações, consegui contar três, num intervalo de 15 minutos.

Tenho certeza de que, da mesma forma que entrou, ela saiu falando, suponho, porque desci antes dela.

Creio que parte dessas pessoas — são poucas, a maioria é discreta — não têm capacidade de refletir em silêncio, pensar consigo mesmas, ruminar pensamentos, meditar. Outra parte é fuxiqueira pura e simples. São poucas, mas bem distribuídas na população. Sempre me deparo com essas conversas em ônibus, metrô, consultórios médicos e filas em geral.

E o detalhe do fone de ouvido não é coincidência. Além de facilitar a audição do celular, evitam de ouvirem a conversa alheia. Sim, deduzo que essas pessoas detestam ouvir a conversa alheia.

Lamento duplamente. Pelo evento constrangedor que é ver todo mundo ouvindo a fofoca alheia e por não entender a dita cuja.

Não que eu seja bisbilhoteiro, longe de mim, é que tenho interesse literário. Por exemplo, tenho certeza de que ouvi um palavrão, quando a moça abaixou a voz. Era uma palavra daquelas fáceis de entender.

Não, não tenho certeza, apenas deduzo, a julgar pela ruborização que vi em seu rosto, quando ela o levantou e me viu atento (rubor? E essas pessoas lá ficam constrangidas por causa das próprias palavras?).

Sim, a personagem, o entorno, a palavra subentendida, só faltou eu ouvir inteiro.  Ah, seu eu ouvisse inteiro, tenho certeza de que sairia dali com material para uma crônica.  

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