quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

NUM FICO NEM VÓRTU

 A PROPÓSITO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL E DE UM CERTO ESTADO DE ALMA

Numa caminhonete, dois empregados da firma foram entregar uma carga de bombons na cidade vizinha, 12 km distante por estradinha de terra. Era na boca da noite, quando passaram em frente ao cemitério, uns 2 Km longe da cidade, já tava escuro.

Três minutos depois, canavial de ambos os lados e o cemitério na retaguarda, o carro parou, não havia meio de fazê-lo funcionar.

Então o motorista falou pro ajudante: “você fica aqui vigiando a carga enquanto eu vou na cidade buscar o mecânico”. O ajudante, muito medroso, respondeu: “num fico”. O motorista então inverteu a proposta: “você vai, eu fico”. Aí o ajudante: “num fico nem vô”.

Saudade do tempo em que eu era assinante de jornal. Todo dia, fresquinho em minha porta, o calhamaço de notícias bem comportadas. Pra variar e não ser enganado, via também o Jornal Nacional, à noite. E durante o dia, ouvia uma rádio que pegava no país inteiro. Eu era feliz até o dia em que descobri que o jornal, a TV e a rádio eram do mesmo dono.

Um belo dia, me descobri me informando por uma parafernália de blogs, sites, canais, páginas, tudo virtual e instantâneo, na rua, na chuva ou na fazenda, numa telinha deveras portátil. Jornais do mundo inteiro na palma da mão.

Não demorou para eu descobrir a tristeza que é se informar com notícias ditadas pelo senso comum. Descobri o paradoxo da desinformação.

Agora tô assim: num quero vortá nem ficá.

SENSO COMUM

Todos dizemos que o Sol nasce, o Sol se põe. Apreciamos o pôr do Sol. Então é o Sol que se movimenta em torno do nosso planeta? Pelo que nossos olhos veem, sim. E não é que até esse ultrapassado senso comum tentaram restaurar, usando a ideia de Terra plana? É manipulação pura e deliberada da reconhecida inocência popular.

MONETIZAÇÃO

Antes eram 7 famílias que nos informavam. Aí chegaram Internet smartphone rede virtual aplicativos Netflix Youtube Toc Toc... Tava indo bem até quase perder a graça, então inventaram um negócio chamado monetização. Aí fudeu.  

Eu e você podemos ganhar dinheiro, tanto mais quanto mais populares formos. A coisa é movida a visualizações, likes, curtidas, comentários, compartilhamentos, etc. O sucesso nunca foi tão mensurável e tão diretamente ligado à grana. O sucesso nunca foi tão instrumentável...

Quer fazer sucesso na rede? Use o senso comum com ousadia e agressividade e, se possível, uma pitada de originalidade.

Mas então não está bom assim, com oportunidades para todos? Não! Está horrível. Dar a palavra ao senso comum é jogar merda no ventilador. Vá você lá no Youtube dar uma de ponderado, equilibrado, informado, cuidadoso, cheio de senso crítico, para ver o que acontece. Nem te ligam!

O pobre começa a ganhar uns trocados com seu canal pessoal, atuando nas horas vagas, brincando, como amador. “Sem querer” vira Youtuber. Aí o infeliz começa a correr atrás do próprio rabo, escravo do conta-gotas da monetização. E descobre, na prática, que quanto mais informal, mais sucesso. Então se profissionaliza, como amador esculachado.  

Fala sozinho o dia inteiro, fica famoso sem sair de casa, perde a noção do ridículo e finalmente descobre que berimbau não é gaita. Não tem escapatória, quando alguns ganham muito, muitos ganham pouco. É a lei da física, se 1 tira demais, 900 tiram de menos, não será o mágico mundo virtual que vai mudar isso.  

Dizem que a chegada de um furacão é precedida por uma calmaria absoluta. De minha parte, ante o presente inaceitável, tampouco o passado, apenas oscilo entre perplexo e atônito. Diante do cemitério, nem fico, nem vou.  Mas uma coisa é certa, parodiando Belchior: em 18 eu morri, mas este ano eu não morro.

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