domingo, 22 de abril de 2018

O DIPLOMA.


Passei agora na Feira do Rolo, aqui perto, na Praça Dom Orione, no Bixiga. Bugigangas antigas. Funciona aos domingos. Digo “feira do rolo” porque ouvi alguém falando ao celular, dizendo que estava na feira do rolo, que ia chegar pro almoço… Toca-discos, faqueiros, relógios, martelos, lâmpadas, moedas, carteiras, pequenos móveis, espelhos, quadros, castiçais, e tudo mais que usamos há 30 anos e além, e que hoje ninguém mais usa impunemente.
De repente, duas máquinas de escrever, portáteis, uma Remington e outra Olivetti, lado a lado, ambas modelo último tipo. Parei e fiquei olhando, meio de longe, um olhar morteiro de boi sonso, um olhar mais demorado que o normal, um olhar de… desejo? Não. Nenhum desejo. Se a moça da banca me desse de graça, eu recusaria.
Mas a moça me perguntou, apenas, se eu estava lembrando o passado. Como se vê, não se trata de uma vendedora novata. Em resposta, eu apenas informei a ela que eu tinha diploma de datilografia. Ela disse “eu também”. Então eu exigi que ela confirmasse: “Você também tem diploma?” e fiz um gesto imitando um papel tamanho A4 com os dois dedos indicadores, ao que ela, então, me esclareceu que, na verdade, não chegou a tirar o diploma, saiu da escola antes. Então eu reafirmei que, não somente tinha diploma, como ele fora colocado num quadro, por minha mãe.
Porque a vida é dividida entre aqueles que tiram diploma e aqueles que não tiram. Entre aqueles que leem o livro até o fim e aqueles que desistem antes, tão logo descobrem a charada do autor. Entre aqueles que vão até o fim e aqueles que desistem, assim que a coisa perde o sentido. Tenho certeza que aquela moça foi muito melhor datilógrafa do que eu. Eu nunca fui bom datilógrafo. Os caracteres da última fileira, a de cima, eu nunca consegui datilografar sem olhar e endereçar o dedo. Assim como nunca consegui usar aquelas somadoras — que eu tanto usei —, sem olhar o teclado numérico.
Entretanto, sou um datilógrafo formado, e ela não. Ela pode ter sido tão burocrata quanto eu, mas eu devo ter levado alguma vantagem sobre ela, porque sou um burocrata-datilógrafo-com-diploma-e-tudo. Devo ser mais persistente, um cadinho a mais de obtusidade...
Aliás, tenho diploma do 4º ano primário. Da conclusão do catecismo. Do colégio. Da faculdade. Da outra faculdade. Eu entrava no curso feito uma vaca braba e ninguém me segurava enquanto eu não pusesse as mãos no respectivo diploma. Na faculdade de tecnologia de são paulo, havia um professor de cálculo que se gabava de que, em sua matéria, ninguém passava sem ao menos uma reprovação. Cálculo de Derivadas e Integrais… Pois eu dei um jeito de passar direto, sem me dar tempo de aprender. Não aprendi absolutamente nada de Derivadas e Integrais, mas o diploma está no meu armário. Meu subconsciente nunca esqueceu de tal trapaça e sempre me manteve longe de qualquer tarefa que carecesse de tais conhecimentos…
Me despedi da moça, ela já desinteressada de mim, percebeu que eu era duro de roer. Difícil saber, entre nós dois, qual o mais compenetrado, eu com meus diplomas e ela, com suas antiguidades. Mas, continuei pensando nas máquinas. Aquelas maquininhas portáteis conferiam um status ao portador muito além do que confere atualmente o último modelo do mais caro laptop. Em realidade, só jornalista usava, tempo em que jornalista competia com médico em status (bagre gosta dessa palavra...). Então pensei que as tais perderam completamente o valor. As máquinas e as pessoas, elas passam… E eis que lembrei de mais um diploma que tirei. O de aposentado. Tudo a ver.




quinta-feira, 12 de abril de 2018

OLHAI POR NÓIS.

Todo mundo já sabe que um sujeito indeterminado usou a fachada do Colégio como suporte de uma mensagem que expressa um pedido desesperado: “Olhai por nóis”. Não é notícia falsa não, passei lá hoje, vi, toquei, nem suja o dedo, é tinta boa.
Vermelha!
Pronto! Foram esses comunistas!!
Então fiquei pensando no vocativo da oração. “Deus, olhai por nóis”. O vocativo oculto da oração só pode ser Deus. E comunista nem acredita em Deus, que dirá pedir alguma coisa a Ele.
Mas algum delegado mais afoito, desses que passaram no concurso recentemente – é um pessoal bom, que sabe a norma culta direitinho —, pode alegar que o sujeito indeterminado está se dirigindo ao Secretário da Justiça. É! O desesperado pedido é visível de todas as janelas da Secretaria da Justiça. E, sabe como é, se comunista não gosta de Deus, ele é chegado num burocrata. Taí! é um comunista desesperado se dirigindo ao secretário que, certamente, é um sujeito entendido em leis. Lei dos homens, que comunista só acredita na Lei dos Homens.
Faz sentido, essa suspeita do delegado. Porque, nesse negócio de leis, nóis tamu lascadu. Sei lá, o delegado tem elementos para formar convicção… ó o perigo!
Continuei pensando. Pode ter sido, sim, os comunistas. Comunista nunca anda sozinho. E tá na cara e na frase que foi coisa de mais de um. Se fosse um só ele pediria “olhai por mim”. Fascista também costuma andar em bando, aliás, fascista só é fascista quando em bando, mas a tinta seria verdeamarela. E fascista frequenta a igreja por dentro, jamais deixaria de fazer ou escrever seu pedido no conforto do reservado. Não, fascista não foi. Se fascista, ainda que em bando, ele escreveria “olhai por mim”, coerente com a máxima meritocrata de cada um por si e Deus pra todos.
Porém, e se o sujeito indeterminado de caráter coletivo que obrou a frase, altas horas da madrugada, queria se dirigir ao bispo? Sim: “Bispo, olhai por nóis”. Não, não pode ser. Primeiro, porque a jurisdição do bispo fica alhures; segundo porque, nesse caso, o pedido seria feito diretamente ao bispo, eis que o bispo é gente boa, encontrável em carne e osso, junto e misturado no meio de nóis.
Agora uma terrível suspeita me assola. E se eles estavam querendo se dirigir ao arcebispo? Aí estaríamos no mato sem cachorro. Mas faz sentido, porque é o território do arcebispo. E a gente já sabe que o arcebispo não olha nem ora por nóis. Aliás, o arcebispo impreca por nóis. Na outra ditadura, o arcebispo era por nóis. Nesta, até o arcebispo é contra nóis.
Ó o perigo! No parágrafo anterior, me incluí no objeto da frase. Me intrometi no meio do “nóis”. Mas é seguro que não tem nada a ver. Isto porque os escrevinhadores de fachada estavam se dirigindo a Deus mesmo. E eu ainda não estou tão desesperado assim… Porque os caras que escreveram na fachada da Igreja-colégio estavam desesperados. À vista do intermediário-arcebispo hostil, resolveram se dirigir diretamente a Deus e, para isso, nada melhor que a fachada de uma igreja. Quanto à tinta vermelha, nada a ver com comunista. Tem a mesma motivação do vermelho das ciclovias do Haddad: visibilidade.

Não, não foram os comunistas. Esse “olhai” na segunda pessoa do plural do imperativo é inconfundível: é uma súplica direta ao Todo-Poderoso. É coisa de crente (assim, também livro minha barra). Além do mais, não cometeria eu a heresia junto a Ele de escandir esse “nóis” tão rasteiro, que reservo à Literatura. Numa situação nada oblíqua, tampouco átona, enquanto tão formal e tão urgente e tão fora de hora, não deixaria por menos que a escorreita norma culta. Ainda mais numa forma tão monumental. E em letras de fôrma.





terça-feira, 3 de abril de 2018

A REVOLTA DOS BAGRES.

Bagre tem a cabeça grande, mas oca. Vive misturado ao lodo do fundo do poço. Gosta de águas turvas, barrentas. Engole a isca e não carece de nenhuma habilidade para ser fisgado. Mas ferroa o pescador que o agarra desprevenido. E não tem escamas, é liso feito um… bagre ensaboado.
Bagre é vacilão. E tem complexo de inferioridade em relação ao tubarão e à sardinha.
Linguagem figurada, a humanidade é composta de poucos tubarões, muitas sardinhas e muito, muito bagre. 
Os bagres têm pouco ou nenhum verniz cultural. Carregam apenas aquela cultura básica, herdada da família e do meio. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, há muitos médicos, engenheiros, advogados, professores bagres. Sabe aqueles caras que vão à faculdade só pensando no diploma? Ou só pensando na profissão?
Em geral, os bagres são pessoas fracassadas na vida. Não que não haja muitos bagres bem-sucedidos sob os pontos de vista material e afetivo, mas é que, em sua visão pequena, curta e egoísta, se deixam dominar pela inveja e pela realidade imediata ou alheia, escolhendo sempre os parâmetros que lhes são desfavoráveis.

Sendo que o bagre legítimo só conhece dois tipos de gente: os perdedores e os vencedores.
O ódio aos políticos de carreira e a inveja ao vizinho consumista ou supostamente bem de vida se multiplicam em épocas de recessão braba e desmoralização política. É natural que se revoltem, quando essas duas condições se concatenam, na conjuntura.
Os bagres gostam muito das expressões “bem de vida”, “bem-sucedido”, “deu certo na vida”, “pessoa realizada”, “conquistar a independência financeira”.
A real religião do bagre é a meritocracia. Que muitos confundem com regime político.
Há bagres desde as mansões do Morumbi até os barracos de Guaianazes. Há bagres em todo o espectro social. Mas, diria que há uma proporção maior de bagres na Senzala, em comparação com a Casa Grande. Creio que o fator determinante de tal diferença é o verniz cultural. Como se sabe, o verniz cultural é aquela cultura adquirida, que se sobrepõe e se imiscui àquela herdada ou assimilada naturalmente.
O sistema educacional formal — a escola — faz a diferença na maior ou menor produção de bagres cidadãos.
E a escola destinada aos integrantes da Senzala é deliberadamente pobre e esquecida.
Pensando bem, talvez seja preconceito meu achar que há essa distribuição desigual de bagres entre os diversos segmentos da população. No fundo, no fundo, esses vacilões distribuem-se igualmente, assim como a inteligência ou a idiotice.
Há tantos estúpidos entre os funcionários do Banco do Brasil ou da Receita Federal quanto entre os subcontratados aqui da obra em frente.
Assim como deve haver tolos na mesma proporção entre as sacoleiras do Brás, os marceneiros ou os diretores do Itaú ou do Grupo Votorantim. Ou entre os donos de padarias e os acionistas das Casas Bahia.
Adicionalmente, o consumo exacerbado (consumismo) forma um caldo de  boa cultura à proliferação de bagres.
Entretanto, em épocas como a que estamos vivendo, de pequenos negócios quebrando, gente perdendo o emprego a rodo, a insegurança atinge mais os pequenos, os mais fracos. A baixa classe média e os participantes da economia informal ficam mais alvoroçados, porque mais preocupados. A bagraiada miúda pula miúdo. 
Acho que é por isso que temos a impressão de que há uma proporção maior de bagres entre os trabalhadores informais, em comparação com os com carteira assinada. Ou entre os micro e pequenos empresários, em comparação com os grandes empresários.

O bagre é simplório, subalterno e subserviente. Tem baixa autoestima.  Gosta de tudo que reduz e mistifica, como os hinos, os uniformes, as regras e os rituais.

O bagre é curto, grosso e maniqueísta. E quando se junta em bando, é fascista.





segunda-feira, 2 de abril de 2018

TRAGÉDIA NO METRÔ.


É um homem grandalhão, vi depois que ele se levantou feito doido, gritando disparado rumo à porta. Está sentado num banco do vagão do metrô, parado para embarque e desembarque na Estação São Bento. Absorto em seu celular. Há uns 50 celulares ligados neste momento, dentro do vagão, calculo. Feriadão, o trem está vazio, quer dizer, todos os bancos estão ocupados e ainda sobram umas dez pessoas em pé. Vazio diante da superlotação normal do dia a dia.
Um outro homem de pé, está parado. Parado é pouco, está imóvel. Daqui de onde estou sentado, parece uma estátua, tamanha a imobilidade do sujeito. Ao contrário do que se possa imaginar, não está nada absorto. Daqui a pouco, veremos que ele estava mais ativo do que qualquer outro, concentrado no momento que precede o bote.
A arte de dar o bote. É preciso uma compleição física e emocional adequada — natural, diria —, para aventurar-se na arte de dar o bote. O gato, por exemplo, a cascavel. Mas o homem não nasceu pra isso. Então, diferente do bote de um gato, o bote de um homem é fruto de seu inteiro querer, sem nenhuma ajuda da natureza.
O fato é que ninguém mais desembarcava nem embarcava, o condutor acionou a campainha para avisar que ia fechar as portas.
Três segundos. Menos, talvez.
De repente, aquele homem de pé parado em frente a porta meneou o corpo pra direita, avançou o polegar e o indicador em direção ao tijolinho eletrônico do absorto mais próximo e, como se impulsionado por uma mola, voltou à posição normal e deu o pinote — uma espécie de bote em zigue-zague —, no exato momento em que a porta se fechava na cara de outro homem que vinha em seu rastro.
O lesado deu com a cara na porta, impotente — absolutamente impotente —, a ver seu celular desaparecer nos meandros da estação, nas mãos o outro, a caminhar e sorrir tranquilamente.
Um artista! A precisão da complexa manobra, em absoluto acordo com a porta do trem e a inércia da vítima, a dança perfeita conforme a música alheia. Mais que um ladrão, um artista.
Dentro do trem, o homem grande e jovem, porte atlético, gritava e esmurrava a porta, furioso e impotente, e mais furioso ficava, à medida que seu bem azulava no mundo e o trem partia.
Gente, isso é um perigo! Não tem aneurisma que aguente. O corpo humano e suas veias e artérias e meandros e todo um sistema hidráulico de bombeamento e pressão… mas não é água cristalina que circula em nosso corpo, é sangue, temperado com uma carrada de hormônios pra controlar todas as vicissitudes da vida, todas as idas e vindas do amor e do ódio…
O fato é que um homem relaxado não está preparado para passar da felicidade à fúria em três segundos...