sexta-feira, 17 de junho de 2016

O FOTÓGRAFO LAMBE-LAMBE

MAGIA BRANCA E PRETA.

     Antes de falar dessa tal magia, é preciso falar do mágico, quer dizer, do fotógrafo lambe-lambe, pois muita gente não faz ideia do que estou propondo. O lambe-lambe é um fotógrafo profissional que estaciona sua câmera-laboratório numa praça e oferece seus serviços aos passantes. Quem quer tirar um retrato, posa na frente da tal câmera-laboratório e daí a alguns minutos tem sua fotografia em branco e preto sobre papel em mãos. Sim, tem sua imagem materializada, impressa num papel, palpável, que nunca se deleta (ora, é necessário escrever assim, neste mundo entupido de imagens virtuais guardadas num arquivo digital).

     E o que é essa câmera-laboratório? É uma polaroid de fundo de quintal, fabricada artesanalmente em geral pelo próprio fotógrafo. Com uma diferença fundamental: é operada por um mágico. Enquanto a câmera polaroid era fabricada em série e operada por cidadãos comuns, vomitando fotos instantâneas, a caixa do lambe-lambe pari muito lentamente uma foto, mediante misteriosa manipulação do mágico-fotógrafo.

     A coisa é realmente misteriosa. Uma caixa de madeira, quadrada, de cerca de 50cm de lado, fixada sobre um tripé, igualmente de madeira e feito pelo mesmo artesão. Uma das faces é fixada com dobradiças e funciona como tampa. Numa face é fixada uma lente, normalmente arrancada de uma câmera antiga imprestável; na face oposta à da lente e numa das faces laterais são feitos orifícios que caibam a mão do fotógrafo. Longos capuzes vazados de tecido preto são acoplados nesses grandes orifícios, de tal maneira que eles “vestem” parte do braço do operador, para que não entre luz no interior da caixa quando o fotógrafo estiver manipulando os materiais lá dentro. O fotógrafo pode também enfiar a cabeça dentro do capuz oposto à lente, para visar o modelo através da lente e posicioná-lo corretamente, construindo a pose.

     Papel fotográfico posicionado em frente ao orifício interno da lente, pose do modelo construída, o fotógrafo levanta a tramela de arame que tampa e destampa a lente, expondo o filme por 1, 2, 3 segundos – conforme a luminosidade-ambiente e a sua experiência -, para que o negativo não fique branco demais ou escuro demais... Pronto, foi batida a “chapa”.

     Aí começa o mistério. O mágico introduz as duas mãos através dos dois orifícios e, após cerca de 2 minutos, retira-as, abre a tampa da caixa e retira de lá de dentro o negativo da foto impregnado no papel, como se fora um coelho da cartola. Em seguida, mergulha esse coelho, ops, esse  papel num balde com água por alguns minutos. É negativo porque o que é branco sai preto e o que é preto sai branco. Se o freguês desejar uma fotografia perfeita (o positivo), o mágico nada mais faz que fotografar esse negativo e revelá-lo normalmente, como no processo mágico anterior. É que, negativo sobre negativo dá positivo.

     E o que é que acontece dentro daquela caixa? Ora, lá dentro há um pequeno escaninho, indevassável à luz, para armazenar o papel fotográfico(o filme) já cortado no tamanho da foto desejada. Inicialmente, o fotógrafo introduz as mãos com a caixa fechada para tirar o filme desse escaninho e posicioná-lo na retaguarda da lente. Após batida a chapa, o fotógrafo introduz novamente as mãos pelos orifícios, retira o filme batido e mergulha-o numa pequena bandeja com líquido revelador e, em seguida, em outra bandeja com líquido fixador. Está pronto o negativo, que precisa apenas ser lavado no balde com água sobre a calçada.


     Porém, manipulações às cegas e caixas vedadas à parte, somente as crianças e os alienados acreditam no mágico. Nosotros que paramos para tirar um retrato cheio de pose e observar um pouco, logo notamos que a misteriosa caixa não passa de uma minicâmara escura para manipular papel sensível à luz, e o homem-da-caixa não é mais que um artesão da fotografia, da marcenaria e de outras alquimias. Mágica de verdade o lambe-lambe faz é pra viver.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O TORCEDOR SÉRIO

O TORCEDOR SÉRIO. Sabe aquele sujeito difícil, que fala baixo e pausado, de modo seguro e ponderado, a explicar postulados futebolísticos? Que, de maneira contida, sem emoção, discorre sobre o craque ou o time, como se ditasse uma sentença, alienado das exigências estilísticas de combinação entre forma e conteúdo? Eis o torcedor sério. Ele é puro, fanático, parcial, mas disfarça, tentando enganar a si próprio. É que, sendo torcedor, é passional. Mas esse torcedor sério admira a carrancuda forma racional de ser e imita-a, apesar de usar somente o coração. Sem malícia, confunde fé com razão. E dana-se a pontificar academicamente sobre aspectos banais do seu time, seu ídolo. Fala de táticas e esquemas de jogo com a clareza de um matemático e a sisudez de um filósofo. Descompreende a torcida alheia como se fosse um rabino. Ele está sempre pleno de certezas. Embasadas numa história própria, cheia de saudades. Em que o craque do passado é que era bom. Esse torcedor é bairrista, nacionalista, chauvinista. É um ser bem definido no tempo e no espaço. Mundo em que não há lugar para dúvida, nuance, aspecto, faceta ou pormenor. É fácil tornar-se amigo ou inimigo desse torcedor. Ele vira teu chapa ou teu desafeto com a espontaneidade de uma criança. Basta concordar ou discordar dele. Tal torcedor divide o mundo em dois: o da sua torcida e o da torcida adversária. E apenas intui que existe um terceiro mundo lá fora, que se esforça para ignorar. E crê ou descrê com a mesma fidelidade canina. A convivência com esse torcedor é fácil, porque ele é previsível. Mas chata, porque ele não entende a piada. A piada de verdade, sempre iconoclasta. Porque, para ele, iconoclasta carece de dicionário. Pois esse indivíduo gosta das coisas fáceis. Pois esse torcedor gosta do preto no branco, em que o bem e o mal estão muito bem definidos. Ele é capaz de identificar claramente o gênio — o craque —, e transformá-lo em ídolo, desde que devidamente alertado pelos comentaristas profissionais. Sendo que, de 4 em 4 anos, nas copas, os demais viventes todos se transformam em torcedores, muitos dos quais adotando o estilo sério. Enfim, tem gente mais chata do que um torcedor sério? E quê dizer de quem se põe a fazer análise psicológica de torcedor de futebol em plena copa do mundo?

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A TORCIDA BRANCA

A TORCIDA BRANCA só vai ao estádio de 4 em 4 anos. Aqui, na África do Sul, na Alemanha ou na Coreia. Onde tiver copa. A copa é um ícone de consumo. Amiúde, a torcida branca vai a Miami. A torcida branca vai aonde o vizinho for. Que, por sua vez, vai aonde a publicidade mandar. A torcida branca não tem vontade própria. A torcida branca é preguiçosa. Mas levanta cedo. Porque o pastor manda. Porque o padre manda. Pra ganhar mais dinheiro. A torcida branca sem dinheiro está no mato sem cachorro. A torcida branca só anda de metrô de 4 em 4 anos. Desde que seja a melhor maneira de ir a um jogo de futebol de copa do mundo. A torcida branca tem as mãos limpas. Ela paga pra fazer seu trabalho sujo. A torcida branca ignora as regras do jogo. Porque só vai ao campo de 4 em 4 anos. A torcida branca é ignorante. A torcida branca é sócia majoritária do estado. Mas ataca-o, para chantageá-lo. É que a torcida branca é sócia rentista, não põe a mão na massa. Por isso, ao menor boato, a torcida branca fica estridente contra o sócio administrador. Enquanto exerce seu ócio permanente. Daí que a torcida branca não gosta de feriado. Porque a bolsa fecha, seu dinheiro não rende naquela noite. A torcida branca é burguesa. Bronca. Mas tem séquito. Sequazes assalariados. Estridentes. Sendo que burguesa bronca é pleonasmo. A torcida branca é bronca. E invejosa. A torcida branca é movida pela inveja. A torcida branca só compra o que o vizinho comprar. O vizinho branco da torcida branca só conjuga o verbo comprar. Comprar e babar. O marketeiro é o pastor da torcida branca. O palestrante remunerado, seu missionário. Para a torcida branca, craque é quem subjuga o adversário. Mesmo que à custa de simulação e cotoveladas. Mas a torcida branca só reconhece o craque quando ele monta na grana. A torcida branca tem colocado seus filhos em escolinhas de futebol. Isso não é bom. A torcida branca é irresponsável. Ela compra lugar na fila, alimenta o cambista, engraxa o moço da catraca. A torcida branca só quer se dar bem. Custe o que custar. Sendo que custo não é problema para a torcida branca. A torcida branca não vaia o FHC. A torcida preta, se ganhar na loteria, fica rica. E branca.