MAGIA BRANCA E PRETA.
Antes de falar
dessa tal magia, é preciso falar do mágico, quer dizer, do fotógrafo
lambe-lambe, pois muita gente não faz ideia do que estou propondo. O
lambe-lambe é um fotógrafo profissional que estaciona sua câmera-laboratório
numa praça e oferece seus serviços aos passantes. Quem quer tirar um retrato,
posa na frente da tal câmera-laboratório e daí a alguns minutos tem sua
fotografia em branco e preto sobre papel em mãos. Sim, tem sua imagem
materializada, impressa num papel, palpável, que nunca se deleta (ora, é
necessário escrever assim, neste mundo entupido de imagens virtuais guardadas
num arquivo digital).
E o que é essa
câmera-laboratório? É uma polaroid de fundo de quintal, fabricada
artesanalmente em geral pelo próprio fotógrafo. Com uma diferença fundamental:
é operada por um mágico. Enquanto a câmera polaroid era fabricada em série e
operada por cidadãos comuns, vomitando fotos instantâneas, a caixa do
lambe-lambe pari muito lentamente uma foto, mediante misteriosa manipulação do
mágico-fotógrafo.
A coisa é
realmente misteriosa. Uma caixa de madeira, quadrada, de cerca de 50cm de lado,
fixada sobre um tripé, igualmente de madeira e feito pelo mesmo artesão. Uma das
faces é fixada com dobradiças e funciona como tampa. Numa face é fixada uma
lente, normalmente arrancada de uma câmera antiga imprestável; na face oposta à
da lente e numa das faces laterais são feitos orifícios que caibam a mão do
fotógrafo. Longos capuzes vazados de tecido preto são acoplados nesses grandes
orifícios, de tal maneira que eles “vestem” parte do braço do operador, para
que não entre luz no interior da caixa quando o fotógrafo estiver manipulando
os materiais lá dentro. O fotógrafo pode também enfiar a cabeça dentro do capuz
oposto à lente, para visar o modelo através da lente e posicioná-lo
corretamente, construindo a pose.
Papel fotográfico
posicionado em frente ao orifício interno da lente, pose do modelo construída,
o fotógrafo levanta a tramela de arame que tampa e destampa a lente, expondo o
filme por 1, 2, 3 segundos – conforme a luminosidade-ambiente e a sua
experiência -, para que o negativo não fique branco demais ou escuro demais...
Pronto, foi batida a “chapa”.
Aí começa o
mistério. O mágico introduz as duas mãos através dos dois orifícios e, após
cerca de 2 minutos, retira-as, abre a tampa da caixa e retira de lá de dentro o
negativo da foto impregnado no papel, como se fora um coelho da cartola. Em
seguida, mergulha esse coelho, ops, esse papel num balde com água por alguns minutos. É
negativo porque o que é branco sai preto e o que é preto sai branco. Se o
freguês desejar uma fotografia perfeita (o positivo), o mágico nada mais faz
que fotografar esse negativo e revelá-lo normalmente, como no processo mágico
anterior. É que, negativo sobre negativo dá positivo.
E o que é que
acontece dentro daquela caixa? Ora, lá dentro há um pequeno escaninho,
indevassável à luz, para armazenar o papel fotográfico(o filme) já cortado no
tamanho da foto desejada. Inicialmente, o fotógrafo introduz as mãos com a
caixa fechada para tirar o filme desse escaninho e posicioná-lo na retaguarda
da lente. Após batida a chapa, o fotógrafo introduz novamente as mãos pelos
orifícios, retira o filme batido e mergulha-o numa pequena bandeja com líquido
revelador e, em seguida, em outra bandeja com líquido fixador. Está pronto o
negativo, que precisa apenas ser lavado no balde com água sobre a calçada.
Porém,
manipulações às cegas e caixas vedadas à parte, somente as crianças e os
alienados acreditam no mágico. Nosotros que paramos para tirar um retrato cheio
de pose e observar um pouco, logo notamos que a misteriosa caixa não passa de
uma minicâmara escura para manipular papel sensível à luz, e o homem-da-caixa
não é mais que um artesão da fotografia, da marcenaria e de outras alquimias.
Mágica de verdade o lambe-lambe faz é pra viver.
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