domingo, 29 de março de 2020

ESTADO MÁXIMO.

CRÔNICA AGUDA.
Dinhêro! Mais uma crônica da crise aguda na miséria crônica. Economia é coisa séria. É preciso ter dinheiro bom pra mercadoria boa. Um dinheiro bem pesado. Difícil é ver a festa cotidiana do dinheiro desigual cozinhando a maioria na miséria mansa. Arroz e feijão e óleo e sal. Cebolinha é luxo. Dinheiro para o essencial. Dinheiro bem distribuído, de acordo com a mercadoria bem distribuída. É mentira que o véio da havan tá tranquilo. Quem tem capital tem medo. Fulgêncio Batista está arrumando as malas. O diabo é que Miami também caiu. Finalmente, o dinheiro descasou do mundo. O véio da havan tem dinheiro e avião, mas não sabe pilotar. E a alfândega está conflagrada. O estoque do véio da havan está no fim. O estoque da loja dele é irrelevante, agora. Com a desestruturação da economia, o véio da havan vai virar uma varig. Os véios marajás aposentados recebem 30 mil por mês do estado, mas não têm quem lhes lave a louça. Falta água e rodovia em suas casas na praia, as cidadezinhas onde têm casa de campo não deixam ninguém entrar. Dinheiro descasado. Porque dinheiro só é dinheiro quando casa com comida. Entrou areia na máquina da Economia, não tem dinheiro que limpe, somente mãos. Dinheiro é graxa: não adianta nada poucos parafusos lambuzados. Os carrões na garagem não sustentam ninguém. Economia é coisa séria, a República é coisa séria. A Casa Grande tá sem faxineira. O lixeiro da prefeitura é essencial. O valor do dinheiro está diante do paredão: o vírus viu a vulva. Não tem como escapar do estado máximo.


quarta-feira, 25 de março de 2020

PRONUNCIAMENTO DO PRESIDENTE.

POR QUÊ?

Qual a explicação para o pronunciamento de ontem, 24/03/2020, do presidente da República?

Vale lembrar a fábula do sapo e do escorpião:
Era uma vez um sapo e um escorpião que estavam parados à margem de um rio.
— Você me carrega nas costas para eu poder atravessar o rio? — perguntou o escorpião ao sapo.
— De jeito nenhum. Você é a mais traiçoeira das criaturas. Se eu te ajudar, você me mata em vez de me agradecer.
— Mas, se eu te picar com meu veneno — respondeu o escorpião com uma voz terna e doce —, morro também. Me dê uma carona. Prometo ser bom, meu amigo sapo.
O sapo concordou.
Durante a travessia do rio, porém, o sapo sentiu a picada mortal do escorpião.
— Por que você fez isso, escorpião? Agora nós dois morreremos afogados! — disse o sapo.
E o escorpião simplesmente respondeu:
— Porque esta é a minha natureza, meu amigo sapo. E eu não posso mudá-la.”
[Heloisa Prieto. (O livro dos medos), in Recantodasletras.com.br].

Qual a lógica, cálculo ou propósito daquele pronunciamento? Porque todo político precisa pensar e falar e agir com lógica, cálculo, propósito.
(acho que é por isso que o povão tanto odeia os políticos).

Porque todo político que se preza, desde o mais simples vereador, pensa duas vezes antes de falar. No caso de um cargo político da importância do presidente da república, ele nem pode se dar ao luxo de falar por si. Precisa ouvir sua assessoria, seu partido, os técnicos.

Tudo indicava que nosso atual presidente da república ia, finalmente, se irmanar ao conjunto do país nas medidas de combate ao vírus. Mas era apenas a promessa do escorpião ao sapo. No meio do rio, lá pelas 8 e meia da noite, em rede nacional, o presidente picou o povo.

Deu um tiro no pé? Por que ele deu um tiro no próprio pé?

Ainda que estivesse sinceramente convencido de que devia mudar drasticamente o rumo que o país vinha tomando no combate ao vírus, não poderia fazê-lo daquela forma brusca e inesperada, como se fora uma canoinha batendo de frente contra o transatlântico de toda a mídia e governadores e prefeitos e parlamentares e população.

Deveria agir com cálculo, lógica, estratégia. Como, aliás — penso — fora aconselhado ainda de manhã pelos militares. Mas não aguentou esperar até chegar à outra margem do rio. É da natureza dele.






terça-feira, 24 de março de 2020

MEMÓRIAS DO CÁRCERE.

  Em 1936 e anos posteriores, a ditadura Vargas caçava comunistas como mulher caçando sujeira em panela lavada pelo marido. Então o Graciliano Ramos, coitado, foi preso, só porque era comunista de fato — o que não tem nada de mais e toda pessoa sensata deveria ser.
Por exemplo, pega uma daquelas senhoras católicas de santana pra ver. Ela lhe dirá que todos somos filhos de Deus… Por exemplo, pega o padre Ticão, que vive acolhendo e alimentando o povo que mora na rua… não esse exemplo do Pe.Ticão não é bom, ele é comunista demais no sentido ortodoxo do termo. Por exemplo, pega o nosso governador, nadando de braçada sobre o nosso bronco presidente nas entrevistas coletivas da pandemia: é um perfeito comunista, com sua fala compungida, preocupado com a saúde de todos — TODOS! Por exemplo, pega o bispo Edir Macedo, com seus templos e sessões especializados em gente rica, remediada e pobre: ele cuida de TODOS!, é um comunista.
Aí o Vargas prendeu o Graciliano, o Vargas, aquele caudilho gaúcho da fronteira que também prendeu o Prestes — mas o Prestes era um comunista safado senvergonha de verdade, que nunca fez uma caridade, nunca manteve um orfanato com recursos próprios… —, o Vargas, que outorgou a CLT, que revogou a lei da Coroa de que não poderíamos transformar ferro em aço (a maior bobêra da República Velha foi não revogar essa lei…), que entregou Olga a Hitler…
Prendeu o Graciliano na Ilha Grande, litoral do Rio de Janeiro. Esse artifício de fazer prisão em ilha não tão distante da praia ainda funcionava naquele tempo de raros atletas. Se fosse hoje, com tanta gente disputando o Iroman, gente que nada adoidado… E o Graciliano era um exímio nadador, ops, escritor.
Dizem que o diretor da prisão ficou puto quando soube que lhe mandaram, como prisioneiro, alguém que sabia escrever. Parece que começaram a pipocar no continente textos descritivos das condições materiais da cadeia lá dele, textos que realmente faziam a diferença, o diretor da cadeia saiu caçando o autor entre seus presos.
Mas recordo tudo isso só para lhes dizer que meu atual cárcere vai bem, a diretora é rígida, mas sou exímio piloto de pia.


quinta-feira, 19 de março de 2020

LIVROS DE PESTE

EL AMOR EN LOS TIEMPOS DEL CÓLERA.
(LIVROS DE PESTE)
Tava pensando que essa coisa de ficar em casa é boa pra ler adoidado. Vou indicar três livros cabradapeste para ler, livros supimpas e apropriados. Não, El amor em los tiempos del cólera, do colombiano Gabriel García Márquez, não é um deles não, mas também pode ser lido, sem contraindicação. Sugiro ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, DECAMERÃO e OS NOIVOS:

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, romance do português José Saramago, lançado em 1995. A edição da Companhia das Letras, de 2007, tem 310 páginas. Uma peste se abate sobre os habitantes de uma grande cidade e todo mundo fica cego. Saramago narra a vida, o cotidiano, como dormem, comem, brigam, morrem… Fernando Meirelles transformou o romance em filme. Depois desse livro, ficou difícil ao Nobel ignorar a Língua Portuguesa e, em 1998, acabou se rendendo a ela, concedendo o prêmio ao escritor português.
DECAMERÃO (Il Decameron): livro do italiano (toscano) Giovanni Boccaccio, escrito entre 1348 e 1353. A peste atacava a Europa e em 1348 chegou a Florença. Dez jovens (7 moças e 3 rapazes) se refugiam numa chácara longe da cidade para evitar o contágio. Para passar o tempo, contam estórias: curtas novelas, à moda dos nossos causos caipiras, sempre no modo direto e realista. São cem novelas, narradas no dialeto florentino (na época, os livros eram normalmente escritos em Latim, que só os cultos dominavam — pouquíssimos —; o povão falava línguas regionais — dialetos. Dante Alighieri, cerca de 50 anos antes, começara esse mau costume de falar a língua do povo, em A DIVINA COMÉDIA; pouco depois, um tal Petrarca reincidiu, com IL CANZONIERE, poemas em língua vulgar (também florentino); em seguida, esse Boccaccio, com o Decamerão. Por causa desses três foi que, meio milênio depois — séc XIX —, surgiu a Língua Italiana, baseada no dialeto deles, em boa parte graças à contribuição do Alessandro Manzoni, autor do terceiro livro abaixo indicado). Pier Paolo Pasolini aproveitou algumas dessas 100 novelas e filmou seu famoso Decamerão.
OS NOIVOS (I Promessi Sposi), do italiano Alessandro Manzoni, veio à luz entre 1840 e 1842, em Milão, em sua versão definitiva (versão anterior, com o título Fermo e Lucia, havia sido publicada em 1827). Trata-se de um romance que mistura história e ficção e narra as peripécias de um casal (os noivos) que vive perto do Lago de Como, norte da Lombardia, entre 1628 e 1630, quando uma peste se abate sobre Milão. Nesse romance aparece a personagem L'innominato (o sem nome), muito interessante e adequado a alguns poderosos atuais. Já foi transformado em ópera, filme, série televisiva e é, dizem, o livro mais lido em língua italiana.


terça-feira, 10 de março de 2020

Aposentadoria.

Aposentadoria é um conceito tão sério, tão complexo, que não me sinto capacitado a escrever sobre. No entanto, temerário, escrevo. Eu era caixa de banco, os velhinhos vinham ver se o “aposento” já tinha chegado. A partir de agosto, vinham ver se o “décimo” já estava disponível. “Décimo” era o décimo-terceiro. Se calhava de ser outubro, eu dizia-lhes que o décimo era aquele que estavam recebendo, eles não precisavam de mais meia palavra para entender, sinal de que, de broncos, não tinham nada. Eram pobres, sim, muito pobres; iletrados; desleiturados; mas, de bobos, não tinham nada. Conheci e conheço médico bobo, dentista bobo, psicólogo bobo, engenheiro bobo. E, claro, tem muita cozinheira boba, jardineiro bobo, caminhoneiro bobo, pedreiro bobo. Nos últimos tempos, a bobice aflora. Nestes tempos terraplânicos, perdeu-se a vergonha de ser idiota. Por favor, o meu idiota é do bem. É aquele que não foi agraciado por Deus com mais de dois neurônios ou que não foi tangido pela vida ao curral adequado. Por exemplo, o pobre de direita. Conheço vários, são boas pessoas…
Por exemplo, um descendente de portugueses, dono de padaria em certa periferia. Não paga, nunca pagou um centavo ao INSS. Imposto, só paga quando não tem jeito (não vai dar dinheiro a vagabundo…). Sequer fez ou faz poupança programada no Bradesco ou outra arapuca qualquer, que toda organização privada que se põe a guardar dinheiro para ser usado daqui a 50 anos, quando o poupador for velhinho, é uma arapuca… Esse português guarda tudo “debaixo do colchão”, investe em imóveis, casinhas para alugar. É o modo ignorante dele de cuidar da aposentadoria, porque ele é ignorante, mas não burro. O problema é que quando a pessoa é muito ignorante, sua inteligência se sente sufocada: no caso desse português, ele cuida desse sufoco com muita reza. Religiosamente vai à missa todo domingo — sempre na mesma igreja e no mesmo horário — mas não quer amizade com padre: eles pedem muito. Deixa lá, no saco do sacristão, dez reais todo domingo e volta para casa com a consciência tranquila. Inclusive, se sente autorizado a contar ao “pé-de-pato” que toma café de graça em sua padaria o nome e o endereço do garoto novo no pedaço que anda aprontando por aí…
Quando eu tinha 30 anos de idade, abominava quem falasse em aposentadoria. Havia colegas jovens que me contavam seu projetos futuros. Começavam com “quando eu me aposentar...”. Esse é o mal de um emprego estável e relativamente bem remunerado. É um encosto de broncos. Um remanso, aquele lugar em que param, à sombra, e esquecem do mundo. Poxa, um sujeito tão novo e já suspendendo a vida assim, só pensando no futuro, no tempo em que não terá saúde nem tempo…
O fato é que o tempo passa e, de repente, o cara se vê incapacitado para o trabalho; ninguém gosta de trabalhar com velho, de dar trabalho a velho, ainda mais se esse velho for bronco. Porque além dos pelos pelo corpo e das orelhas, a burrice, a grosseria, a venalidade crescem com a idade. O velho ainda é capaz mas não arranja emprego. Então, se não tiver com que se sustentar, tá lascado. Antigamente, quando havia muita terra inexplorada, as pessoas faziam filhos, muitos filhos, e a ignorância geral da inexistência de escolas fazia com que a sabedoria da experiência dos velhos fosse útil aos novos, aos filhos… Atualmente, no olho do furacão da maior revolução experimentada pelo homem — desconfio —, os velhos, cada vez mais, dependem da assistência e da previdência social. É isso ou a barbárie.
Entretanto, o sistema do português da padaria está voltando, governando... Os bobos babam.


sexta-feira, 6 de março de 2020

DA FORÇA DA LUA.

A minha lua, o nosso satélite, claro que não vou cantar a lua como se fora um poeta, porque está fora de moda e porque dentro do meu peito bate um Kompressor importado das Venetas Lombardias…; nos anos cinquenta a ferramentaria brasileira era lamentável, qualquer construtor de boas máquinas importava seus componentes da Europa, e alguns importavam da Norteamérica.

Uma curiosidade me acomete: em que fase da lua fui feito? Porque, apesar de máquina, fui concebido... e, digamos, de modo convencional, não resta dúvida. Numa noite escura ou numa noite clara? Sim, foi durante a noite sim senhora, não há possibilidade de ter sido durante o dia. Isso por motivos econômicos, culturais, morais, religiosos e ... habitacionais – um conjunto intransponível de indução e controle.

E isso é importante? É! Não é gratuita a presença das fases da lua em todos os bons calendários. Interessa a quem planta e a quem colhe, aos ladrões, aos andarilhos, aos cabeleireiros, aos navegantes, a quem pesca e a quem faz canoas... Sim, os caiçaras do nosso litoral paulista só cortavam a árvore, em cujo tronco esculpiriam a canoa, na força da lua. Do contrário, a madeira rachava, era corroída pelos bichos, furava.

Lua fraca, lua forte, eis o ciclo lunar que dura quase 1 mês. Noites escuras, noites claras. A mim parece evidente que um sujeito feito no escuro tem a personalidade diferente de outro feito no claro. Sem contar as diferenças puramente estéticas entre um homem da fase crescente e outro da minguante. Este é regido pela letra D de decrescente, estampada no céu, enquanto aquele é regido pela letra C de crescente.

Já fui chamado de grande e de pequeno, de duro e de mole, de gentil e de grosso, de bom e de mau, bonito e feio, porco e pássaro. Se eu soubesse em que lua fui feito, usaria isso em meu favor. Não basta, porém, retroceder nove meses ao dia do meu nascimento, sabemos que esses 9 meses é apenas uma média. Descartado está perguntar aos fabricantes, porque uma das partes já se foi e a outra ainda tem língua para me mandar plantar batatas.

Mas, tudo indica que fui feito na força da lua. Ora, meu pai não dava um passo sem consultar a lua (não por misticismo ou religiosidade ou astrologia, mas por valorizar a natureza e o método empírico). Evidente que ele não faria um filho numa lua desfavorável. A parte da minha mãe deve ser desconsiderada porque ela não tem esse tipo de frescura e, diante das ponderações do meu pai, deve ter anuído com indiferença, desde que não sofresse prolongadas privações.