Aposentadoria
é um conceito tão sério, tão complexo, que não me sinto
capacitado a escrever sobre. No entanto, temerário, escrevo. Eu era
caixa de banco, os velhinhos vinham ver se o “aposento” já tinha
chegado. A partir de agosto, vinham ver se o “décimo” já estava
disponível. “Décimo” era o décimo-terceiro. Se calhava de ser
outubro, eu dizia-lhes que o décimo era aquele que estavam
recebendo, eles não precisavam de mais meia palavra para entender,
sinal de que, de broncos, não tinham nada. Eram pobres, sim, muito
pobres; iletrados; desleiturados; mas, de bobos, não tinham nada.
Conheci e conheço médico bobo, dentista bobo, psicólogo bobo,
engenheiro bobo. E, claro, tem muita cozinheira boba, jardineiro
bobo, caminhoneiro bobo, pedreiro bobo. Nos últimos tempos, a bobice
aflora. Nestes tempos terraplânicos, perdeu-se a vergonha de ser
idiota. Por favor, o meu idiota é do bem. É aquele que não foi
agraciado por Deus com mais de dois neurônios ou que não foi
tangido pela vida ao curral adequado. Por exemplo, o pobre de
direita. Conheço vários, são boas pessoas…
Por
exemplo, um descendente de portugueses, dono de padaria em certa
periferia. Não paga, nunca pagou um centavo ao INSS. Imposto, só
paga quando não tem jeito (não vai dar dinheiro a vagabundo…).
Sequer fez ou faz poupança programada no Bradesco ou outra arapuca
qualquer, que toda organização privada que se põe a guardar
dinheiro para ser usado daqui a 50 anos, quando o poupador for
velhinho, é uma arapuca… Esse português guarda tudo “debaixo do
colchão”, investe em imóveis, casinhas para alugar. É o modo
ignorante dele de cuidar da aposentadoria, porque ele é ignorante,
mas não burro. O problema é que quando a pessoa é muito ignorante,
sua inteligência se sente sufocada: no caso desse português, ele
cuida desse sufoco com muita reza. Religiosamente vai à missa todo
domingo — sempre na mesma igreja e no mesmo horário — mas não
quer amizade com padre: eles pedem muito. Deixa lá, no saco do
sacristão, dez reais todo domingo e volta para casa com a
consciência tranquila. Inclusive, se sente autorizado a contar ao
“pé-de-pato” que toma café de graça em sua padaria o nome e o
endereço do garoto novo no pedaço que anda aprontando por aí…
Quando
eu tinha 30 anos de idade, abominava quem falasse em aposentadoria.
Havia colegas jovens que me contavam seu projetos futuros. Começavam
com “quando eu me aposentar...”. Esse é o mal de um emprego
estável e relativamente bem remunerado. É um encosto de broncos. Um
remanso, aquele lugar em que param, à sombra, e esquecem do mundo.
Poxa, um sujeito tão novo e já suspendendo a vida assim, só
pensando no futuro, no tempo em que não terá saúde nem tempo…
O
fato é que o tempo passa e, de repente, o cara se vê incapacitado
para o trabalho; ninguém gosta de trabalhar com velho, de dar
trabalho a velho, ainda mais se esse velho for bronco. Porque além
dos pelos pelo corpo e das orelhas, a burrice, a grosseria, a
venalidade crescem com a idade. O velho ainda é capaz mas não
arranja emprego. Então, se não tiver com que se sustentar, tá
lascado. Antigamente, quando havia muita terra inexplorada, as
pessoas faziam filhos, muitos filhos, e a ignorância geral da
inexistência de escolas fazia com que a sabedoria da experiência
dos velhos fosse útil aos novos, aos filhos… Atualmente, no olho
do furacão da maior revolução experimentada pelo homem —
desconfio —, os velhos, cada vez mais, dependem da assistência e
da previdência social. É isso ou a barbárie.
Entretanto,
o sistema do português da padaria está voltando, governando... Os
bobos babam.