terça-feira, 10 de março de 2020

Aposentadoria.

Aposentadoria é um conceito tão sério, tão complexo, que não me sinto capacitado a escrever sobre. No entanto, temerário, escrevo. Eu era caixa de banco, os velhinhos vinham ver se o “aposento” já tinha chegado. A partir de agosto, vinham ver se o “décimo” já estava disponível. “Décimo” era o décimo-terceiro. Se calhava de ser outubro, eu dizia-lhes que o décimo era aquele que estavam recebendo, eles não precisavam de mais meia palavra para entender, sinal de que, de broncos, não tinham nada. Eram pobres, sim, muito pobres; iletrados; desleiturados; mas, de bobos, não tinham nada. Conheci e conheço médico bobo, dentista bobo, psicólogo bobo, engenheiro bobo. E, claro, tem muita cozinheira boba, jardineiro bobo, caminhoneiro bobo, pedreiro bobo. Nos últimos tempos, a bobice aflora. Nestes tempos terraplânicos, perdeu-se a vergonha de ser idiota. Por favor, o meu idiota é do bem. É aquele que não foi agraciado por Deus com mais de dois neurônios ou que não foi tangido pela vida ao curral adequado. Por exemplo, o pobre de direita. Conheço vários, são boas pessoas…
Por exemplo, um descendente de portugueses, dono de padaria em certa periferia. Não paga, nunca pagou um centavo ao INSS. Imposto, só paga quando não tem jeito (não vai dar dinheiro a vagabundo…). Sequer fez ou faz poupança programada no Bradesco ou outra arapuca qualquer, que toda organização privada que se põe a guardar dinheiro para ser usado daqui a 50 anos, quando o poupador for velhinho, é uma arapuca… Esse português guarda tudo “debaixo do colchão”, investe em imóveis, casinhas para alugar. É o modo ignorante dele de cuidar da aposentadoria, porque ele é ignorante, mas não burro. O problema é que quando a pessoa é muito ignorante, sua inteligência se sente sufocada: no caso desse português, ele cuida desse sufoco com muita reza. Religiosamente vai à missa todo domingo — sempre na mesma igreja e no mesmo horário — mas não quer amizade com padre: eles pedem muito. Deixa lá, no saco do sacristão, dez reais todo domingo e volta para casa com a consciência tranquila. Inclusive, se sente autorizado a contar ao “pé-de-pato” que toma café de graça em sua padaria o nome e o endereço do garoto novo no pedaço que anda aprontando por aí…
Quando eu tinha 30 anos de idade, abominava quem falasse em aposentadoria. Havia colegas jovens que me contavam seu projetos futuros. Começavam com “quando eu me aposentar...”. Esse é o mal de um emprego estável e relativamente bem remunerado. É um encosto de broncos. Um remanso, aquele lugar em que param, à sombra, e esquecem do mundo. Poxa, um sujeito tão novo e já suspendendo a vida assim, só pensando no futuro, no tempo em que não terá saúde nem tempo…
O fato é que o tempo passa e, de repente, o cara se vê incapacitado para o trabalho; ninguém gosta de trabalhar com velho, de dar trabalho a velho, ainda mais se esse velho for bronco. Porque além dos pelos pelo corpo e das orelhas, a burrice, a grosseria, a venalidade crescem com a idade. O velho ainda é capaz mas não arranja emprego. Então, se não tiver com que se sustentar, tá lascado. Antigamente, quando havia muita terra inexplorada, as pessoas faziam filhos, muitos filhos, e a ignorância geral da inexistência de escolas fazia com que a sabedoria da experiência dos velhos fosse útil aos novos, aos filhos… Atualmente, no olho do furacão da maior revolução experimentada pelo homem — desconfio —, os velhos, cada vez mais, dependem da assistência e da previdência social. É isso ou a barbárie.
Entretanto, o sistema do português da padaria está voltando, governando... Os bobos babam.


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