terça-feira, 27 de agosto de 2019

UM OFFICE MAN NO WEEKEND PAULISTANO


UM OFFICE MAN NO WEEKEND PAULISTANO.
Sextou! Dia de happy hour com my friends. Não vejo a hora de encerrar meu job. Oh my god, esse relógio que não anda! Finalmente estou eu, cá, free, em plena Paulista avenue. O snack fica lá no end da avenida, não sei se tomo o busão, se vou de subway ou se pego uma bike da yellow. Go! Uma girl e seu pet me atrapalham o trânsito. Oh my god, é o the end dos tempos! Onde já se viu ciceronear cachorro numa hora e numa calçada dessa? Shit! Na verdade, a girl e o dog estão parados. Ela espera a defecate do bug. Isso é o terminator do futuro. World world wide world... Vou de bus. É uma driver. Cadê os men desta terra? E não é que a girl understand do business! O busão tá full, só tem banco yellow vazio. Sento. Ufa! Não ando meia quadra, quando um old man segurando um walking stick entra e para bem ao meu lado e fica me dando um look. O jeito é dar um up. Shit! Acho que vou comer alguma coisa antes no McDonald’s do Shopping. Ou não seria melhor um cheese egg no Burger King? Os my friends só querem drinkar, não tem estômago que aguenta. A night é uma criança. Numa nice… Não vou fazer como outro dia, quando uma friend cinquentou e bankou seu birthday. Só beer importada, tirei o atraso. Não comi nada, só tinha umas food sem graça, so, só drinkei. Tinha também uns whiskies, fiz um mix, me dei mal. Tive de passar a week inteira drinkando coconut water. Foi bad… Ainda é cedo, acho que vou passar ali na Americanas Express pra dar uma charge no meu iPhone da Samsung. Quem sabe não encontro um gadget in offer? Chego. Entro. Tá tudo 50% off. Beautiful, saio com dois packis. Dont money now, but pago com meu card. Quando chegar a dolorosa, dou um jeito. Agora esses packis vão atrapalhar minha life. Decido, vou comer um big no Mc. De repente, um food truck estacionado. Que tal? Enquanto penso, um john me pede um help. Dou uma moeda de 1 real, ele fica decepcionado, pensando que era dollar. Vendo um boy passar com uma big box red nas costas, tenho a melhor ideia de pedir um delivery. Fast, fast, o biker da uber eats chega com meu pedido: pastel de chicken e um juice de sugar cane. Mais nutritivo, mais saudável e mais barato, além de delicious. Sento no muro do canteiro pra comer. Zerou! Uma tripper com uma backpackona vem passando, para, quer saber onde fica a Brigadeiro. De tudo que ela fala, só entendo New York, ela é de lá, fala outra língua. Oh my god! Mas que food mais good!


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

INTOLERÂNCIA

DA INTOLERÂNCIA
Um belo dia você diz “não gosto de gato”. Assim, sem motivo forte, talvez porque a gata da filha desfiou a cortina lá dela, a filha. Ou porque você encontrou um gato pulguento e mal-encarado na rua.
Claro que você não tem, nunca teve, nem cogita ter gato, é um sentimento bobo de não gostar de gato. Você interage com gatos raramente, e só se lembra de que não gosta deles nessas raras ocasiões. Talvez você fique assim, inofensivamente não gostando de gatos, por toda a vida.
Entretanto, em um outro dia não tão belo, você vai à casa daquela filha e a tal gata, a da cortina, pula em seu colo com as patas besuntadas de uma meleca de cheiro e cor suspeitos e origem incerta e não sabida. Então você exclama “odeio gatos!”.
Pronto, você odeia. Mas o ódio só é grave e irremediável quando dito e sentido por no mínimo meia hora seguida. Se você, ao se despedir da filha, já não se lembra mais da gata, então aquele “odeio” era apenas retórico; hoje em dia usa-se muito “ódio” e “amor” em vão, é um tal de eu odeio e eu amo que já se desconfia da natureza grave dos tais verbos.
Mas se você, na soleira da porta, ainda destila um olhar de rancor para a gata lá no fundo, que te observa de soslaio (porque é da natureza dos gatos olhar de soslaio…), então é provável que você esteja no limiar do ódio.
Aí nessa região limítrofe, você tem dois caminhos: seguir em frente ou parar pra pensar. Quem ultrapassa esse limiar não volta mais. Integra, definitivamente, a legião dos que odeiam. Em geral, esse limite é ultrapassado apenas por pessoas desavisadas. Quem para pra pensar, em regra, reavalia e recua. E se salva.
Você volta para sua casa, onde não há gatos nem de pelúcia. No caminho, nenhuma reflexão sobre aquele “ódio” de há pouco. Então, o veneno fica latente, lá no fundo do seu ser. Dias depois, diante de novo convite da filha da gata, você explode: “só irei se você se livrar da gata; detesto gatos!”.
“Mas, pai…” tenta contornar a filha. “Não adianta, filha, não suporto gatos; não tolero gatos”, interrompe o pai.
Pronto, o homem ultrapassou a linha fatal. Ele detesta, não suporta e não tolera. É um intolerante. Nada há que fazer. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A ADVERSATIVA


(o Diabo na rua, no meio do redemunho)
É uma boa pessoa, mas egoísta”. É possível? Dá pra ser bom e egoísta ao mesmo tempo? Eu acho que dá. Não se trata de uma pessoa santa. Ela é apenas boa, humana, erra, é normal. Ser bom é humano, ser santo não. Impossível seria dizer: é uma pessoa santa, mas egoísta. A santidade não é humana; ser santo não é viável.
Eu sempre desconfio desse negócio de dizer que fulano é um santo, sicrano foi santo. Porque a santidade implica em perfeição e a gente sabe que nenhum humano é ou foi perfeito. Exceto o João Paulo II e mais uns 500 outros humanos, que foram perfeitos, segundo a Igreja.
Aliás, o santo mais rápido da história, de que tenho notícias, é o João Paulo II. Não sabiam que ele virou santo? Pois prestem atenção ao passar de carro no túnel do Anhangabaú: trata-se do Túnel Santo João Paulo II. É gozado, se não fosse trágico, chamar de santo — devidamente chancelado pelos cânones vaticanos — um cara que cansamos de ver e suportar em carne e osso, fazendo média com gente rica e acabando com as teologias populares que eram então praticadas na sua Igreja.
(todavia — dentre as adversativas, considero esta a mais melíflua —, todavia, o vereador-autor da homenagem ao J.P.II foi sacana, desconfio: Anhangabaú, para os nativos, era o local onde passavam as águas do capeta…).
É um cara bom, mas meio preguiçoso. Foi uma pessoa boa, embora muito gulosa. É bom, mas um pouco parcial. É um sujeito bem-intencionado, mas bem autoritário. É do bem, mas cheira e fuma às vezes. É uma pessoa boa, mas violenta de vez em quando.
Perceberam que o adjetivo de valor negativo vem quase sempre acompanhado de advérbio, enquanto o adjetivo de valor positivo é sempre absoluto? “É bom, mas meio egoísta”. Porque é mais difícil um egoísta inteiro ser bom, convenhamos. Já “bom” e “parvo” acho que podem comparecer absolutos na mesma frase de ambos os lados do capeta “mas”. Talvez valha também para Bom e Ignorante, Bom e Desinformado, Bom e Equivocado, Bom e Simplório.
E o caso especial, mas abundante, da legião de gente boa e boba? Tão idiotas (no bom sentido), tão inocentes que não precisam nem da adversativa. Bons e bobos. Bobos da corte. Bons, mas fazem um mal danado à república.
E Diabólico? Maquiavélico? Dá pra se dizer, sem prejuízo, que fulano é bom, mas maquiavélico? Não, se ele for totalmente maquiavélico, quero dizer, absolutamente maquiavélico, ou seja, apenas maquiavélico; nesse caso, o tipo não poderia ser considerado nem meio bom. Mas se ele for apenas um pouco maquiavélico, aí sim, pode ser que seja bom. (todavia, se o cara leu e estudou Maquiavel, melhor nem cogitar a gradação da sua bondade…)
Com o Diabólico não precisamos pensar muito. Porque é inaceitável dizer que o cidadão é bom, mas adepto do Coiso.
Foi com esses pensamentos que acabei chegando numa frase de natureza semelhante: “É rico, mas faz caridade”. Que um adjetivo é do bem e outro é do mal, o “mas” está aí para comprovar. A dúvida é saber qual é o quê. Da mesma forma, fico embananado diante de “É pobre, mas trabalhador”; é pobre, mas honesto; é pobre, mas limpinho.
Contudo, não tenho dúvida nenhuma sobre um cara que é pobre, mas de direita. Tampouco, sobre alguém que é burro, mas esforçado.



domingo, 11 de agosto de 2019

AGRICULTURA TRISTE.


Vou subindo para a Paulista, quando me deparo com uma tramoia simples. Pulo por cima, como se fora uma mistura grossa. Olho de lado, para não passar vergonha alheia. E saio de fino, para não fazer o que me der na telha.
Um pedestre contrário, de topete, engrossa o caldo. Um cachorro manso mia como doido. Uma bandeira branca esgoela na janela.
Vou comprar peixe na quinta feira. Uma barraca armada me estrangula o cérebro. Um teto baixo me destampa e me tira do sério.
Um homem grita, sorrindo e histérico. Duas moedas saltitam no asfalto. A dona das bananas se gasta num barraco. Panelas tontas tinem nas varandas.
É de manhã, gatos cagam nas calçadas. Cães com cordas me atrapalham a fé. Pilotando um carrinho de mão, ora estacionado à sombra de uma timbaúba, três mulheres mansas vendem um Cristo editado.
Enfim, chego na mais familiar das avenidas. Bandeiras tensas transam ao ar, livres. Dois milhões de paulistas tropeçam nas titicas. As bancas de jornais, outrora tão servis, agonizam nas manhãs. Na Oswaldo Cruz, caixas pilotam ciclistas sonsos. Dezoito bolivianos se esgueiram sob o sol.
No cruzamento da Brigadeiro, um traseiro cínico dá um pinote. Uma bandeira ingênua esverdeia na janela da quitinete. Um assobio rombudo adormece o guarda. Um ônibus lépido venta nas guampas. Um grito surdo limpa o asfalto.
É hora do almoço. Um pequeno-burguês tilinta uma cadeia. Uma bicicleta branca morre no canteiro. Uma luminária tosca se mantém acesa. Um farol embandeirado tempera o dia. Um vendedor de cana corre do guarda. Um guarda-roupa mora na Filosofia. Na mesma quadra, da mesma calçada, jovens antenados passam ligados no piloto automático.
Caminho com força e fome. Em frente à Fiesp, um busto arfa, condecorado. Latões de plástico cantam o hino nacional. Uma guitarra gorda desmaia sobre o palco. Uma viola caipira destila rock. Um cavaco sutil emperra nas toupeiras. Uma antena ousada perece sob o céu. Um porte pago entrega a camarilha.
Não tem jeito. Mesinhas desesperadas se oferecem aos detritos. Artistas brutos se acantonam nos escaninhos. Turistas ávidos se agarram aos últimos nacos. Hotéis de luxo se enchem de mosquitos. Debaixo do Masp, uma canela dúbia tromba num trejeito.
É domingo. Um renato russo de graxa labora no dia do senhor. Um velho dança. Um palhaço sério não se dá conta do ridículo. Crianças trabalham bolhas. Tapetes congestionam o espaço etéreo. Teresas lisas pendem pensas, rasgadas no Trianon.
Um bando de brancos prega uma cultura racional. Uma seita sequestra a Razão, enquanto o policial se distrai. Uma caixa de polícia corre atrás de um crime de patinete. O mormaço-mantiqueira trepida na artéria. Um estrangulamento pipoca o turno. Um simplório alegre ultrapassa a veia. Um avanço de vida aguarda no semáforo.
Trabalhos estacionam em frente ao Safra. Do outro lado, sob a marquise do Conjunto Nacional, um traste tropical torneia a tosse. O chão treme. O vento brota. Um homem odeia.
Enfim, atravesso a tarde. Em casa, destilo o carma. Uma absurda normalidade se atravanca nas travessas. Lá fora, um grito berra, um pivete cresce. Um mal banal me escuta no quintal.


sexta-feira, 2 de agosto de 2019

MATO DENTRO


De Albertina a Ouro Fino, a pé, passa-se por São Sebastião dos Roberto e por São José do Mato Dentro. Sendo que Jacutinga é outra cidade que faz parte desse universo. É uma região montanhosa mineira muito próxima da divisa com o Estado de São Paulo, a chamada Mogiana. Ali perto, na Serra dos Lima, se produz o melhor café do Brasil. As noites são frias, os dias são quentes, os morros estão a 1300 metros de altitude, os vales a 900. O café é plantado nas encostas, a meio caminho entre cumes e vales. É uma região de muitos vilarejos porque, em geral, as pessoas não constroem suas casas em seus próprios sítios de produção, mas em povoados, nos vales mais protegidos da ventania. Nessas vilas tem uma igreja, uma escola, um posto de saúde, um mercadinho, uma rede elétrica, e o ônibus do município mais próximo passa todo dia para buscar e trazer os estudantes em estágios superiores aos oferecidos na escolinha primária do local. Cada sitiante constrói sua casa em chácaras em torno de 1000 metros quadrados.
Jacutinga é uma cidade até grande, onde se fabrica muitas malhas. Esse nome vem de uma ave comum na região. Jacutinga é uma espécie de anu gigante, escura, de rabo longo, mas creio que, diferente dos anus, não seja feiticeira (porque anu joga feitiço na gente e arrebenta com qualquer estilingue de moleque besta). Jacutinga não deve ser de mau agouro, porque ninguém que tem um nome tão bonito pode ser de mau agouro.
São Sebastião dos Roberto é um despropósito de nome. O fato é que lá eu já ia me sentindo dono do pedaço ou, no mínimo, sócio, quotista, parceiro, quando fui informado de que o Roberto, ali, é sobrenome. Nome de família. Da família dona do pedaço. Sobrenome mais besta.
Em seguida, para quem vem de Albertina, está São José do Mato Dentro. Estava na hora do café da tarde, fui entrando no vilarejo. Na madrugada próxima, assim como na anterior, faria e fez 5º C de temperatura, mas, àquela hora da tarde, com o sol estridente do lado esquerdo, fazia um mormaço de 30º C. A minerada toda estava entocada em suas casas, apenas 3 homens descarregavam uma caminhonete lá longe, após a praça da igreja. Em minha cabeça tocava o tema de Per un pugno di dollari, do Ennio Morricone, talvez por causa das dezenas de olhos que me espreitavam sob as cortinas de renda típicas das janelas das casas da região. Eu estava a pé, com uma mochila pesada nas costas, e o estômago fundo do almoço inexistente, mas na ponta dos cascos da minha poderosa bota impermeável e transpirável, sobre o cavalo imaginário que toda leveza suscita. Porque eu estava pesado por fora, mas leve por dentro.
Os habitantes desses vilarejos, diante de um forasteiro que se aproxima, nunca dão bandeira. Quero dizer, não levantam a vista, como quem aguarda com ansiedade. Me aproximei, disse boa tarde, os 3 homens ergueram os olhos como se eu fosse um deles e estivesse sempre por ali e responderam boa tarde e aí sim, de igual para iguais, iniciamos as apresentações e explicações.
Quis saber porque aquele São José era do Mato Dentro, porque tem uns nomes que me deixam encafifado. E, pela rápida história que um dos homens me contou de pronto, estavam acostumados com aquela indagação. É que, muito antigamente, aqui havia apenas uma venda na beira da estrada. Naquele tempo, os homens andavam armados e, talvez por isso, não conversavam muito. Havia muitas inimizades, muitas delas de morte. Inimizade de morte é quando, num encontro dos dois inimigos, ainda que fortuito, um dos dois tem de sair carregado pro cemitério, que naquele tempo nem havia por aqui… Pois bem, certa feita um homem entrou na venda e encontrou, lá dentro, seu inimigo mortal. Sem titubeios ou preâmbulos, foi logo dizendo: vamo lá pra fora, senão eu te mato dentro. Matar dentro era desonroso para ambas as partes e trabalhoso para o dono da venda. Matar dentro não ficava bem na fita, as vendas eram escuras, não havia luz elétrica, as janelas eram poucas, pequenas e de madeira, a cena de matar dentro não era nada cinematográfica. Por isso, todo mundo ali preferia matar ou morrer fora. Mas naqueles tempos idos, na beira daquela estrada no meio do sertão, dentro daquela venda escura, um matou e outro morreu. Dentro. Para nunca esquecer aquele despropósito, o povo eternizou o fato no nome do lugar.
Diante da história do homem, tenho um arrepio. O MATO não vinha da floresta em volta, mas do verbo matar.