(o
Diabo na rua, no meio do redemunho)
“É
uma boa pessoa, mas egoísta”. É possível? Dá pra ser bom e
egoísta ao mesmo tempo? Eu acho que dá. Não se trata de uma pessoa
santa. Ela é apenas boa, humana, erra, é normal. Ser bom é
humano, ser santo não. Impossível seria dizer: é uma pessoa santa,
mas egoísta. A santidade não é humana; ser santo não é viável.
Eu
sempre desconfio desse negócio de dizer que fulano é um santo,
sicrano foi santo. Porque a santidade implica em perfeição e a
gente sabe que nenhum humano é ou foi perfeito. Exceto o João Paulo
II e mais uns 500 outros humanos, que foram perfeitos, segundo a
Igreja.
Aliás,
o santo mais rápido da história, de que tenho notícias, é o João
Paulo II. Não sabiam que ele virou santo? Pois prestem atenção ao
passar de carro no túnel do Anhangabaú: trata-se do Túnel Santo
João Paulo II. É gozado, se não fosse trágico, chamar de santo —
devidamente chancelado pelos cânones vaticanos — um cara que
cansamos de ver e suportar em carne e osso, fazendo média com gente
rica e acabando com as teologias populares que eram então praticadas
na sua Igreja.
(todavia
— dentre as adversativas, considero esta a mais melíflua —,
todavia, o vereador-autor da homenagem ao J.P.II foi sacana,
desconfio: Anhangabaú, para os nativos, era o local onde passavam as
águas do capeta…).
É
um cara bom, mas meio preguiçoso. Foi uma pessoa boa, embora muito
gulosa. É bom, mas um pouco parcial. É um sujeito bem-intencionado,
mas bem autoritário. É do bem, mas cheira e fuma às vezes. É uma
pessoa boa, mas violenta de vez em quando.
Perceberam
que o adjetivo de valor negativo vem quase sempre acompanhado de
advérbio, enquanto o adjetivo de valor positivo é sempre absoluto?
“É bom, mas meio egoísta”. Porque é mais difícil um egoísta
inteiro ser bom, convenhamos. Já “bom” e “parvo” acho que
podem comparecer absolutos na mesma frase de ambos os lados do capeta
“mas”. Talvez valha também para Bom e Ignorante, Bom e
Desinformado, Bom e Equivocado, Bom e Simplório.
E
o caso especial, mas abundante, da legião de gente boa e boba? Tão
idiotas (no bom sentido), tão inocentes que não precisam nem da
adversativa. Bons e bobos. Bobos da corte. Bons, mas fazem um mal
danado à república.
E
Diabólico? Maquiavélico? Dá pra se dizer, sem prejuízo, que
fulano é bom, mas maquiavélico? Não, se ele for totalmente
maquiavélico, quero dizer, absolutamente maquiavélico, ou seja,
apenas maquiavélico; nesse caso, o tipo não poderia ser considerado
nem meio bom. Mas se ele for apenas um pouco maquiavélico, aí sim,
pode ser que seja bom. (todavia, se o cara leu e estudou Maquiavel,
melhor nem cogitar a gradação da sua bondade…)
Com
o Diabólico não precisamos pensar muito. Porque é inaceitável
dizer que o cidadão é bom, mas adepto do Coiso.
Foi
com esses pensamentos que acabei chegando numa frase de natureza
semelhante: “É rico, mas faz caridade”. Que um adjetivo é do
bem e outro é do mal, o “mas” está aí para comprovar. A dúvida
é saber qual é o quê. Da mesma forma, fico embananado diante de “É
pobre, mas trabalhador”; é pobre, mas honesto; é pobre, mas
limpinho.
Contudo,
não tenho dúvida nenhuma sobre um cara que é pobre, mas de
direita. Tampouco, sobre alguém que é burro, mas esforçado.
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