quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A ADVERSATIVA


(o Diabo na rua, no meio do redemunho)
É uma boa pessoa, mas egoísta”. É possível? Dá pra ser bom e egoísta ao mesmo tempo? Eu acho que dá. Não se trata de uma pessoa santa. Ela é apenas boa, humana, erra, é normal. Ser bom é humano, ser santo não. Impossível seria dizer: é uma pessoa santa, mas egoísta. A santidade não é humana; ser santo não é viável.
Eu sempre desconfio desse negócio de dizer que fulano é um santo, sicrano foi santo. Porque a santidade implica em perfeição e a gente sabe que nenhum humano é ou foi perfeito. Exceto o João Paulo II e mais uns 500 outros humanos, que foram perfeitos, segundo a Igreja.
Aliás, o santo mais rápido da história, de que tenho notícias, é o João Paulo II. Não sabiam que ele virou santo? Pois prestem atenção ao passar de carro no túnel do Anhangabaú: trata-se do Túnel Santo João Paulo II. É gozado, se não fosse trágico, chamar de santo — devidamente chancelado pelos cânones vaticanos — um cara que cansamos de ver e suportar em carne e osso, fazendo média com gente rica e acabando com as teologias populares que eram então praticadas na sua Igreja.
(todavia — dentre as adversativas, considero esta a mais melíflua —, todavia, o vereador-autor da homenagem ao J.P.II foi sacana, desconfio: Anhangabaú, para os nativos, era o local onde passavam as águas do capeta…).
É um cara bom, mas meio preguiçoso. Foi uma pessoa boa, embora muito gulosa. É bom, mas um pouco parcial. É um sujeito bem-intencionado, mas bem autoritário. É do bem, mas cheira e fuma às vezes. É uma pessoa boa, mas violenta de vez em quando.
Perceberam que o adjetivo de valor negativo vem quase sempre acompanhado de advérbio, enquanto o adjetivo de valor positivo é sempre absoluto? “É bom, mas meio egoísta”. Porque é mais difícil um egoísta inteiro ser bom, convenhamos. Já “bom” e “parvo” acho que podem comparecer absolutos na mesma frase de ambos os lados do capeta “mas”. Talvez valha também para Bom e Ignorante, Bom e Desinformado, Bom e Equivocado, Bom e Simplório.
E o caso especial, mas abundante, da legião de gente boa e boba? Tão idiotas (no bom sentido), tão inocentes que não precisam nem da adversativa. Bons e bobos. Bobos da corte. Bons, mas fazem um mal danado à república.
E Diabólico? Maquiavélico? Dá pra se dizer, sem prejuízo, que fulano é bom, mas maquiavélico? Não, se ele for totalmente maquiavélico, quero dizer, absolutamente maquiavélico, ou seja, apenas maquiavélico; nesse caso, o tipo não poderia ser considerado nem meio bom. Mas se ele for apenas um pouco maquiavélico, aí sim, pode ser que seja bom. (todavia, se o cara leu e estudou Maquiavel, melhor nem cogitar a gradação da sua bondade…)
Com o Diabólico não precisamos pensar muito. Porque é inaceitável dizer que o cidadão é bom, mas adepto do Coiso.
Foi com esses pensamentos que acabei chegando numa frase de natureza semelhante: “É rico, mas faz caridade”. Que um adjetivo é do bem e outro é do mal, o “mas” está aí para comprovar. A dúvida é saber qual é o quê. Da mesma forma, fico embananado diante de “É pobre, mas trabalhador”; é pobre, mas honesto; é pobre, mas limpinho.
Contudo, não tenho dúvida nenhuma sobre um cara que é pobre, mas de direita. Tampouco, sobre alguém que é burro, mas esforçado.



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