DA INTOLERÂNCIA
Um belo dia você diz “não gosto de gato”. Assim, sem motivo forte, talvez porque a gata da filha desfiou a cortina lá dela, a filha. Ou porque você encontrou um gato pulguento e mal-encarado na rua.
Claro que você não tem, nunca teve, nem cogita ter gato, é um sentimento bobo de não gostar de gato. Você interage com gatos raramente, e só se lembra de que não gosta deles nessas raras ocasiões. Talvez você fique assim, inofensivamente não gostando de gatos, por toda a vida.
Entretanto, em um outro dia não tão belo, você vai à casa daquela filha e a tal gata, a da cortina, pula em seu colo com as patas besuntadas de uma meleca de cheiro e cor suspeitos e origem incerta e não sabida. Então você exclama “odeio gatos!”.
Pronto, você odeia. Mas o ódio só é grave e irremediável quando dito e sentido por no mínimo meia hora seguida. Se você, ao se despedir da filha, já não se lembra mais da gata, então aquele “odeio” era apenas retórico; hoje em dia usa-se muito “ódio” e “amor” em vão, é um tal de eu odeio e eu amo que já se desconfia da natureza grave dos tais verbos.
Mas se você, na soleira da porta, ainda destila um olhar de rancor para a gata lá no fundo, que te observa de soslaio (porque é da natureza dos gatos olhar de soslaio…), então é provável que você esteja no limiar do ódio.
Aí nessa região limítrofe, você tem dois caminhos: seguir em frente ou parar pra pensar. Quem ultrapassa esse limiar não volta mais. Integra, definitivamente, a legião dos que odeiam. Em geral, esse limite é ultrapassado apenas por pessoas desavisadas. Quem para pra pensar, em regra, reavalia e recua. E se salva.
Você volta para sua casa, onde não há gatos nem de pelúcia. No caminho, nenhuma reflexão sobre aquele “ódio” de há pouco. Então, o veneno fica latente, lá no fundo do seu ser. Dias depois, diante de novo convite da filha da gata, você explode: “só irei se você se livrar da gata; detesto gatos!”.
“Mas, pai…” tenta contornar a filha. “Não adianta, filha, não suporto gatos; não tolero gatos”, interrompe o pai.
Pronto, o homem ultrapassou a linha fatal. Ele detesta, não suporta e não tolera. É um intolerante. Nada há que fazer.
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