sexta-feira, 2 de agosto de 2019

MATO DENTRO


De Albertina a Ouro Fino, a pé, passa-se por São Sebastião dos Roberto e por São José do Mato Dentro. Sendo que Jacutinga é outra cidade que faz parte desse universo. É uma região montanhosa mineira muito próxima da divisa com o Estado de São Paulo, a chamada Mogiana. Ali perto, na Serra dos Lima, se produz o melhor café do Brasil. As noites são frias, os dias são quentes, os morros estão a 1300 metros de altitude, os vales a 900. O café é plantado nas encostas, a meio caminho entre cumes e vales. É uma região de muitos vilarejos porque, em geral, as pessoas não constroem suas casas em seus próprios sítios de produção, mas em povoados, nos vales mais protegidos da ventania. Nessas vilas tem uma igreja, uma escola, um posto de saúde, um mercadinho, uma rede elétrica, e o ônibus do município mais próximo passa todo dia para buscar e trazer os estudantes em estágios superiores aos oferecidos na escolinha primária do local. Cada sitiante constrói sua casa em chácaras em torno de 1000 metros quadrados.
Jacutinga é uma cidade até grande, onde se fabrica muitas malhas. Esse nome vem de uma ave comum na região. Jacutinga é uma espécie de anu gigante, escura, de rabo longo, mas creio que, diferente dos anus, não seja feiticeira (porque anu joga feitiço na gente e arrebenta com qualquer estilingue de moleque besta). Jacutinga não deve ser de mau agouro, porque ninguém que tem um nome tão bonito pode ser de mau agouro.
São Sebastião dos Roberto é um despropósito de nome. O fato é que lá eu já ia me sentindo dono do pedaço ou, no mínimo, sócio, quotista, parceiro, quando fui informado de que o Roberto, ali, é sobrenome. Nome de família. Da família dona do pedaço. Sobrenome mais besta.
Em seguida, para quem vem de Albertina, está São José do Mato Dentro. Estava na hora do café da tarde, fui entrando no vilarejo. Na madrugada próxima, assim como na anterior, faria e fez 5º C de temperatura, mas, àquela hora da tarde, com o sol estridente do lado esquerdo, fazia um mormaço de 30º C. A minerada toda estava entocada em suas casas, apenas 3 homens descarregavam uma caminhonete lá longe, após a praça da igreja. Em minha cabeça tocava o tema de Per un pugno di dollari, do Ennio Morricone, talvez por causa das dezenas de olhos que me espreitavam sob as cortinas de renda típicas das janelas das casas da região. Eu estava a pé, com uma mochila pesada nas costas, e o estômago fundo do almoço inexistente, mas na ponta dos cascos da minha poderosa bota impermeável e transpirável, sobre o cavalo imaginário que toda leveza suscita. Porque eu estava pesado por fora, mas leve por dentro.
Os habitantes desses vilarejos, diante de um forasteiro que se aproxima, nunca dão bandeira. Quero dizer, não levantam a vista, como quem aguarda com ansiedade. Me aproximei, disse boa tarde, os 3 homens ergueram os olhos como se eu fosse um deles e estivesse sempre por ali e responderam boa tarde e aí sim, de igual para iguais, iniciamos as apresentações e explicações.
Quis saber porque aquele São José era do Mato Dentro, porque tem uns nomes que me deixam encafifado. E, pela rápida história que um dos homens me contou de pronto, estavam acostumados com aquela indagação. É que, muito antigamente, aqui havia apenas uma venda na beira da estrada. Naquele tempo, os homens andavam armados e, talvez por isso, não conversavam muito. Havia muitas inimizades, muitas delas de morte. Inimizade de morte é quando, num encontro dos dois inimigos, ainda que fortuito, um dos dois tem de sair carregado pro cemitério, que naquele tempo nem havia por aqui… Pois bem, certa feita um homem entrou na venda e encontrou, lá dentro, seu inimigo mortal. Sem titubeios ou preâmbulos, foi logo dizendo: vamo lá pra fora, senão eu te mato dentro. Matar dentro era desonroso para ambas as partes e trabalhoso para o dono da venda. Matar dentro não ficava bem na fita, as vendas eram escuras, não havia luz elétrica, as janelas eram poucas, pequenas e de madeira, a cena de matar dentro não era nada cinematográfica. Por isso, todo mundo ali preferia matar ou morrer fora. Mas naqueles tempos idos, na beira daquela estrada no meio do sertão, dentro daquela venda escura, um matou e outro morreu. Dentro. Para nunca esquecer aquele despropósito, o povo eternizou o fato no nome do lugar.
Diante da história do homem, tenho um arrepio. O MATO não vinha da floresta em volta, mas do verbo matar.


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