De
Albertina a Ouro Fino, a pé, passa-se por São Sebastião dos
Roberto e por São José do Mato Dentro. Sendo que Jacutinga é outra
cidade que faz parte desse universo. É uma região montanhosa
mineira muito próxima da divisa com o Estado de São Paulo, a
chamada Mogiana. Ali perto, na Serra dos Lima, se produz o melhor
café do Brasil. As noites são frias, os dias são quentes, os
morros estão a 1300 metros de altitude, os vales a 900. O café é
plantado nas encostas, a meio caminho entre cumes e vales. É uma
região de muitos vilarejos porque, em geral, as pessoas não
constroem suas casas em seus próprios sítios de produção, mas em
povoados, nos vales mais protegidos da ventania. Nessas vilas tem uma
igreja, uma escola, um posto de saúde, um mercadinho, uma rede
elétrica, e o ônibus do município mais próximo passa todo dia
para buscar e trazer os estudantes em estágios superiores aos
oferecidos na escolinha primária do local. Cada sitiante constrói
sua casa em chácaras em torno de 1000 metros quadrados.
Jacutinga
é uma cidade até grande, onde se fabrica muitas malhas. Esse nome
vem de uma ave comum na região. Jacutinga é uma espécie de anu
gigante, escura, de rabo longo, mas creio que, diferente dos anus,
não seja feiticeira (porque anu joga feitiço na gente e arrebenta
com qualquer estilingue de moleque besta). Jacutinga não deve ser de
mau agouro, porque ninguém que tem um nome tão bonito pode ser de
mau agouro.
São
Sebastião dos Roberto é um despropósito de nome. O fato é que lá
eu já ia me sentindo dono do pedaço ou, no mínimo, sócio,
quotista, parceiro, quando fui informado de que o Roberto, ali, é
sobrenome. Nome de família. Da família dona do pedaço. Sobrenome
mais besta.
Em
seguida, para quem vem de Albertina, está São José do Mato Dentro.
Estava na hora do café da tarde, fui entrando no vilarejo. Na
madrugada próxima, assim como na anterior, faria e fez 5º C de
temperatura, mas, àquela hora da tarde, com o sol estridente do lado
esquerdo, fazia um mormaço de 30º C. A minerada toda estava
entocada em suas casas, apenas 3 homens descarregavam uma caminhonete
lá longe, após a praça da igreja. Em minha cabeça tocava o tema
de Per un pugno di dollari, do Ennio Morricone, talvez por causa das
dezenas de olhos que me espreitavam sob as cortinas de renda típicas
das janelas das casas da região. Eu estava a pé, com uma mochila
pesada nas costas, e o estômago fundo do almoço inexistente, mas na
ponta dos cascos da minha poderosa bota impermeável e transpirável,
sobre o cavalo imaginário que toda leveza suscita. Porque eu estava
pesado por fora, mas leve por dentro.
Os
habitantes desses vilarejos, diante de um forasteiro que se aproxima,
nunca dão bandeira. Quero dizer, não levantam a vista, como quem
aguarda com ansiedade. Me aproximei, disse boa tarde, os 3 homens
ergueram os olhos como se eu fosse um deles e estivesse sempre por
ali e responderam boa tarde e aí sim, de igual para iguais,
iniciamos as apresentações e explicações.
Quis
saber porque aquele São José era do Mato Dentro, porque tem uns
nomes que me deixam encafifado. E, pela rápida história que um dos
homens me contou de pronto, estavam acostumados com aquela indagação.
É que, muito antigamente, aqui havia apenas uma venda na beira da
estrada. Naquele tempo, os homens andavam armados e, talvez por isso,
não conversavam muito. Havia muitas inimizades, muitas delas de
morte. Inimizade de morte é quando, num encontro dos dois inimigos,
ainda que fortuito, um dos dois tem de sair carregado pro cemitério,
que naquele tempo nem havia por aqui… Pois bem, certa feita um
homem entrou na venda e encontrou, lá dentro, seu inimigo mortal.
Sem titubeios ou preâmbulos, foi logo dizendo: vamo lá pra fora,
senão eu te mato dentro. Matar dentro era desonroso para ambas as
partes e trabalhoso para o dono da venda. Matar dentro não ficava
bem na fita, as vendas eram escuras, não havia luz elétrica, as
janelas eram poucas, pequenas e de madeira, a cena de matar dentro
não era nada cinematográfica. Por isso, todo mundo ali preferia
matar ou morrer fora. Mas naqueles tempos idos, na beira daquela
estrada no meio do sertão, dentro daquela venda escura, um matou e
outro morreu. Dentro. Para nunca esquecer aquele despropósito, o
povo eternizou o fato no nome do lugar.
Diante
da história do homem, tenho um arrepio. O MATO não vinha da
floresta em volta, mas do verbo matar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário