MULHERES,
HOMENS, ARBUSTOS & CIPÓS.
Sigo pelo viaduto da São Carlos do
Pinhal. Ele passa sobre a 9 de julho. Devo dizer que passa também,
antes — no sentido vertical — , pelo Mirante Suplicy. Deve ser
caso único no mundo em que um mirante fica debaixo de um viaduto.
Cai um chuvisco de julho e o friozinho é digno do mês e da estação.
E, sob essa fria e grossa neblina, um paulistano passeia com seus 4
filhos, quero dizer, cães. Eu não teria nada com aquele passeio,
não fora a calçada tão estreita e cerceada, à direita, por um
murinho de concreto e, à esquerda, pelo abismo que a grade muito
baixa não atenua. Os 4 cães, ligados ao homem por cordas —
esvoaçantes no passeio público como uma menina no parque com seus
balões de gás —, não conseguem barrar minha passagem apressada,
mateiro hábil que sou nesse cipoal urbano da megalópole.
Na
esquina próxima, em que antes funcionava a matriz do Banco Real —
banco que já não mais existe e nem teve a ver com o nome da nossa
novel moeda —, os carros em movimento não me deixam atravessar.
Aguardo mais de 1 minuto plantado na calçada. Quando me rebelo e
avanço, dou um primeiro e temerário passo e, em seguida, um
espetacular salto à esquerda, para me livrar de um ciclista da
Rappi. Enfim, progrido uns 400 metros entre arbustos, cipós,
degraus, buracos e travessias. Pouco depois do Maksoud, uma mulher,
um homem e uma criança ocupam meia calçada, sentados
transversalmente com as pernas estendidas, como quem faz alongamento
na academia. Ergo os olhos mareados e dou com uma placa onde leio um
FH bem grande e, no rodapé, bem pequeno, “funeralhome”. Estão
em frente a um casarão onde, há meio século, viveu uma próspera
família burguesa e hoje hospeda cadáveres.
Um
citadino conseguiria, talvez, atravessar uma floresta, mas saindo do
outro lado todo arranhado, certamente.
Um
matuto conseguiria, talvez, atravessar a cidade, embora saísse do
outro lado todo esfolado, com certeza.
Este
e aquele com o corpo e a alma em pedaços.
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