Ele,
O Coiso.
Quem
cultiva a memória faz menos besteira. Quem puxa pela memória,
aprende com a História. Vivi intensamente a eleição presidencial
de 1989. Já tinha mais de trinta anos e não sabia o que era aquilo.
Minha geração cresceu durante a ditadura. Só conhecia o toma lá-dá
cá da política menor feita por vereadores e deputados, e prefeitos
do interior. Durante a ditadura, só restava aos parlamentares trocar
os valores das emendas por votos, prática que ainda predomina. Os
grandes temas eram decididos na caserna, com assessoria de FIESP,
FEBRABAN e congêneres e certa Embaixada...
Em
1989 havia, no campo democrático e popular, duas candidaturas
fortes: Brizola e Lula. No campo democrático e elitista, havia
também dois candidatos representativos: Mário Covas e Ulysses
Guimarães. E no campo oligarca, havia Paulo Maluf, representando a
oligarquia urbana e Ronaldo Caiado, representando a oligarquia rural.
Por fora, e sem razão, motoristas de táxi e alguns negociantes
autônomos insistiam em votar no Maluf… Guilherme Afif Domingos e o
seu partido liberal era o João Amoêdo da época.
Mas,
em 1989, correndo por fora, como azarões, havia Enéas Carneiro,
Fernando Gabeira, Roberto Freire e um tal Fernando Collor. Gabeira e
Freire queriam só aparecer, alavancar suas carreiras futuras no
parlamento e na Globo; Enéas e Collor eram franco-atiradores, tudo
que viesse era lucro.
A
inflação comia o dinheiro dos pobres. A correção monetária e o
over night protegiam o dinheiro de quem tinha conta em banco.
Baixo-assalariado recebia em cash; somente empresas maiores pagavam
salário através de crédito em conta.
Um
certo candidato Collor danou-se a dizer que ia acabar com os marajás.
O povão logo entendeu, com a ajuda de certos jornalistas, que
marajás eram todos que tinham conta em banco, desde assalariados
médios até os políticos em geral. Grosso modo, quem tinha carteira
assinada já era privilegiado, porque recebia férias, 13º e já era
objeto da inveja daqueles que nem isso tinham. Um campo onde viceja a
baixa escolaridade e a desigualdade (de renda e de oportunidades) é
fértil à inveja.
Havia
desemprego e o salário era baixo; o salário-mínimo menor que 100
dólares. Os benefícios da constituição de 1988, como
aposentadoria rural, seguro-desemprego e farmácia popular, ainda não
faziam efeito. A situação econômica estava insuportável. O
pedreiro ou o marceneiro faziam o serviço e, na hora de receber, o
que haviam cobrado valia a metade. O povão detestava os políticos
tradicionais, que via como carreiristas, no mal sentido do termo. Por
isso, não votava nem a pau em Maluf, Covas, Ulysses, Afif. Votava em
Lula, o metalúrgico, e em Brizola, o perseguido e exilado. Nossas
oligarquias urbana e rural, viúvas recentes do regime que se
encerrava, estavam desesperadas. O povão rejeitava todos seus
candidatos clássicos. Os democratas elitistas (isso é possível?)
não aceitavam alguém sem diploma universitário no cargo de
presidente.
De
repente, algum publicitário notou aquele alagoano jovem, homão da
porra, quase imberbe, que tinha um bordão pesado: caçador de
marajás! E, de quebra, tinha “aquilo” roxo. Ele. O Coiso!
Enfim,
a oligarquia desceu em peso n’o Coiso. E os desavisados foram atrás
ou ficaram em casa. E um “petista” sequestrou o Abílio Diniz…
E o Coiso foi eleito e atrasou nossa vida por mais de dez anos. Eu
não votei n’Ele. N’#EleNão.