terça-feira, 14 de julho de 2020

PROUST e a BÍBLIA.

Após 3 meses, cheguei ao final do calhamaço do Proust. E, quer saber? Não acho que foi tempo perdido, apesar de não ter recuperado tempo algum, embora estivesse Em busca do tempo perdido. Durante esses 90 dias, li o romance em 68 deles, 50 páginas por dia em média. Ao final, 3500 páginas. Muitas vezes injuriado com o martelete do narrador, que bombardeia detalhes e descobre facetas dos mínimos fatos, confesso que, nos dois primeiros volumes, quase desisti. A partir do terceiro, o estilo minucioso e insistente, mas elegante e coerente, da narrativa, me pegou e a leitura tornou-se prazerosa, o que não impedia de, às vezes, fazer uma leitura mais dinâmica sobre alguns trechos. Terminei a empreitada diferente, um pouco menos pobre. Sim, é como abrir uma picada, a leitura do romance Em busca do tempo perdido, do Proust. Vamos derrubando os troncos e roçando os arbustos. É cansativo, mas quando saímos do outro lado, somos um pouco menos ignorantes sobre a mata.
Terminei a leitura, fiz o textão, que divulguei e, de repente, senti algo me cutucando: quantas vezes a Bíblia é maior que o Em busca do tempo perdido? “Deve ser bem maior, pensei”. Ora, mas é fácil ver. Peguei o exemplar que tenho aqui e vi que, em média, cada página dela tem 40 linhas de 60 caracteres cada. Ela tem 2167 páginas. Isso dá 5.200.000 caracteres. O Em busca do tempo perdido tem 7.400.000 caracteres. Isso significa que o catatau do Proust é 40% maior do que a Bíblia! E que, se gastei 68 dias de 3 meses para lê-lo, gastaria 50 dias de 2 meses e uma semana para a Bíblia (eis um dos meus métodos de automotivação para leituras…).
Diabos! Por que essa comparação entre o EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO e a BÍBLIA? Se são como o dia e a noite, a água e o óleo. Aquele é laico, esta é religiosa. Aquele tem apenas um narrador e seu mundinho, ruminado em finíssimas partículas, durante uma curta vida humana, no país da Revolução burguesa; esta tem pai, filho e espírito e uma centena de assessores e pretende narrar uma vida inteira da… Humanidade, no Planeta e Além. O primeiro tem um estilo único e elegante, a segunda é uma miscelânea de personagens e narrativas diversas. Aquele é inspirado pelo subconsciente de um homem, esta é inspirada por um extra-humano, dizem os adeptos. Esta e aquele são famosos, muita gente já ouviu falar deles, mas poucos os leram. Ambos têm mais comentaristas do que leitores. Porém, a Bíblia tem muito mais história, literal e literária.
Mas, acontece que já li a Bíblia. Sim, de cabo a rabo, do Gênese ao Apocalipse. Faz muito tempo. Querendo me catequizar, minha mulher deixou uma Bíblia na cabeceira da nossa cama. Eu fazia de conta que não via. Quando ia fazer limpeza, tinha aqueles 2 Kg de papel cheio de quinas atrapalhando o trânsito do pano. Assim como o rato cheirando o queijo da ratoeira, peguei certo dia o volume, pesei, cheirei, folheei. Li a capa, a contracapa, os dados da editora, a apresentação. Edição impecável. Quem gosta de ler, às vezes lê um livro só por causa da sua edição impecável. Da mesma forma, deixa de ler, quando a edição é mal feita.
Pensei: quer saber? Vou ler essa bagaça. E li, inteirinha. Faz tempo, não me recordo quanto tempo gastei. Mas li como um leitor desinteressado, só por causa do desaforo. Não tomei nota alguma, exceto uns 4 ou 5 trechinhos convenientes, que tive o capricho de deixar anotados num papelzinho, à guisa de marcador de página. Em poucos dias, a Bíblia desapareceu da cabeceira da nossa cama. Minha mulher queria me converter mas acho que o tiro saiu pela culatra. Desconfio que eu que converti ela.
Quer dizer, depois de adulto, ninguém admite uma mudança desse quilate. O sujeito desacredita, perde a ilusão, muda de seita, mas fica na moita, sendo que essa moita, em geral, é seu subconsciente. Não estou falando daqueles velhos sacanas, que, às portas da morte, se danam a rezar feito o capeta…, nem dos hipócritas. O fato é que minha mulher descartou aquele exemplar profanado e arranjou outro. Este, é uma obra-prima literária, um verdadeiro monumento editorial, com notas de rodapé ocupando cerca de 20% de todas as páginas, notas introdutórias a todos os capítulos, subtítulos, tabelas, mapas . Tô falando da Bíblia de Jerusalém, edição de 2002 da Paulus, editora da Igreja Católica.
É uma edição crítica. A primeira edição crítica que vi na vida foi a de Macunaíma, da Telê Porto Ancona Lopes. Fiquei maravilhado. A função dos textos de ficção é engabelar o leitor. E a das edições críticas é desengabelá-lo. Confesso que me deu vontade de ler novamente a Bíblia, nessa nova edição. Claro que, agora, como leitor rigoroso e chato. Mais chato que rigoroso. E, depois, produzir um textão provocador. Até porque, fiquei pensando, editar a Bíblia com esse rigor literário e editorial é coisa de gente não religiosa. Ou de gente religiosa, mas de absoluta honestidade intelectual, coisa rara que precisa ser valorizada.
[Mas, com uma Bíblia dessa, com tanta explicação, qual fiel que aguenta? Não tem fé que suporta tanto esclarecimento. Eu acho que isso explica a fuga de fiéis do catolicismo para o neopentecostalismo e o crescimento de seitas conservadoras dentro da igreja católica. Porque o populacho não quer esclarecimento; o populacho quer milagre. Quanto mais obscuro e misterioso, melhor. O populacho quer, literalmente, que as coisas caiam do céu. E, se não caírem, não tem importância: Cristo vem aí (conforme avisa e ameaça a penúltima linha do tijolão - Ap 22,20).].


sexta-feira, 10 de julho de 2020

FILHO DA PUTA!

FIADAPUTA.

Minha amiga mineira Maria das Graças, puta da vida com nosso puto-mór, teceu comentários, recentemente, sobre algumas espécies de filhadaputas encontrados em sua terra. Isso lembrou a minha, pertim do Triângulo Mineiro.

Lá, a gente falava fiadaputa. Ainda que fosse homem, fiadaputa. Aliás, fiadaputa não tinha nada a ver com a mãe do fiadaputa. Fiadaputa era uma palavra só, específica, com significado próprio, sem nada a ver com fia/fio/filha/filho ou da ou puta. Inclusive, era muito comum qualificar o próprio irmão de fiadaputa. E não raro, o que torna irrefutável essa minha informação histórica e geográfica e etimológica, a própria mãe qualificava seu filho de fiadaputa. Em suma: fiadaputa era um xingo leve, nada a ver com a filhadaputice desse filho da puta.

Minha amiga diz que, em sua terra, os mais pudorados falam feadasunha. Então, lá na minha terra, só tem gente despudorada, porque todos, até as mais católicas, falam fiadaputa, sendo puta mesmo, sem qualquer jogo consonantal. Agora, quando se trata dum fiadaputa bem fiadaputa, então se gasta o latim e falamos filhadaputa. Quando o puto ou a puta ouve esse fiadaputa especial, aí ele treme nas bases. Porque, além da exatidão escorreita do mais elevado vernáculo, esse fiadaputa é pronunciado devagar, com as sílabas bem divididas, todas acentuadas: fí lhá dá pú ta! Como o fiadaputa não tem nada a ver com a mãe do cujo, então temos aqui, acho que único no mundo linguístico, um eufemismo de xingo, ou um xingo hermafrodita, de filho e mãe contidos no mesmo indivíduo. Trata-se, portanto, de um simples puto (ou puta) que dizemos fiadaputa. Você, então, poderia pensar que a língua lá da minha terra está em processo de evolução e logo, logo, di-lo-emos apenas Puta! (ou Puto!). Mas não. Esse nosso fiadaputa nunca esteve tão arraigado, tão irremovível. É um grande filho de uma puta convicto.

Então, todo fiadaputa não era levado a sério. Até o fí lhá dá pú ta! bem escanhoado, solfejado no capricho, não gerava maiores desentendimentos, além de uma pequena mágoa no puto-destinatário, nada que abalasse a amizade. Mas a coisa complicava quando o xingador inovava, através de qualquer mudança no gênero ou na forma do xingo ou introdução de qualquer artigo ou preposição ou qualificativo nele. Por exemplo, sendo o puto-destinatário do sexo masculino e o xingador concordasse o xingo com seu gênero e dissesse fiodaputa. O puto logo sentia aquele fio masculino e ficava puto de verdade. Se o xingador transformasse a palavra simples fiadaputa em palavra composta fia-da-puta, isso também se poderia resultar em alguns sopapos. Claro que havia os desavisados, os ingênuos, os desacreditados e os gagos(aprendi esses encadeamentos com o Proust), que sofriam os devidos descontos ao se utilizarem de uma dessas variantes mais graves. Em se tratando do nosso fiadaputa, não havia ninguém inocente, desinformado quanto ao decoro de se usar esta ou aquela forma. Por isso, quando o usuário transformava a inocente palavra simples num verdadeiro enunciado, introduzindo o artigo indefinido uma antes da puta, e afastando um pouco mais umas das outras as componentes da composição: filho - de - uma - puta !, era morte na certa. Da mesma forma, se matava e se morria, quando o simples fiadaputa era qualificado: grande fiadaputa; o maió fiadaputa; fiadaputa de merda; fiadaputa do cacete.
Inovações do tipo filho duma putana, filho de uma rapariga, filho de uma chocadeira, filho duma égua, filho da muléstia, não eram levadas em conta ou a sério, eram desconsideradas, coisa de literatos ou de gente de fora. Da mesma forma, quando um desconhecido nos desqualificava com qualquer modalidade do fiadaputa, não era levado a sério. Primeiro, porque desconhecia nosso protocolo e, se restava qualquer dúvida, ele, por ser desconhecido, não estava devidamente informado sobre nós ou nossa mãe(porque a desqualificação só dói quando quem nos desqualifica nos conhece bem). E o fidumaputa ou féladaputa eram variantes sem maiores consequências no corriqueiro fiadaputa, usado apenas por pessoas muito isoladas, que treinavam pouco a fala e, quando falavam, ou comiam letras ou sílabas ou babavam besteira boca-a-boca, acriticamente.
Quando eu vivia na minha terra, criança ou adolescente, imaginava e sonhava — quanto mais limitado e desinformado é o mundo, mais se imagina e se sonha. Comparava a marca de cigarros mistura fina ao xingo filhadaputa. Quando ia viajar (de ônibus ou de trem), meu pai comprava um masso(era assim que se chamava o que depois se chamou carteira) de mistura fina, porque nos ônibus e nos trens, era proibido fumar cachimbo, charuto ou cigarro de palha. Cigarro de papel podia, e quando isso também foi proibido (e acrescentaram à plaquinha da proibição antiga o “e de papel”, normalmente sem guardar conformidade ao padrão gráfico fixado), eu percebi, em minha vida, a primeira grande filhadaputice pública em que estivera viajando durante o tempo precedente todo.
Fora de casa, havia grandes fiadaputas: os homens públicos e as mulheres públicas; estas eram as artistas e as putas de verdade; aqueles, eram os políticos, os padres e alguns professores-cientistas que se punham a vociferar pretensas novas verdades no espaço público, a desencaminhar as crianças (os poucos pastores que havia, além de cobrarem pouco, eram discretos). Isso explica porque o populacho, ainda hoje, associa política com putaria, arte com vagabundagem, educação com subversão, a coisa pública com a casa da mãe joana. Isso explica o sucesso do obscurantismo nas campanhas eleitorais, essa coisa de fazer dos incentivos fiscais para a cultura mote de campanha, essa coisa de desqualificar a ciência e os padres, substituindo-os por grandes-filhos-de-uma-puta-de-marca-maior.

Mas, durante a vida toda, e até outro dia, nunca, nem em meus piores pesadelos, eu poderia supor que houvesse, entre nossos simpáticos fiadaputas, tantos inocentes e tantos grandessíssimos-filhos-e-filhas-de-uma-puta. Nunca poderia imaginar que um dia tivéssemos um filho da puta desse quilate.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Proust.

Papo de gente grande.
 
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, 
Marcel Proust, 1871-1922, francês.
Tenho uma amiga que, de Proust, só leu Sodoma e gomorra. O Em busca do tempo perdido, ela já ouviu falar, mas nunca nem viu, nem pegou na mão. Já um amigo começou a ler, do Proust, À sombra das raparigas em flor; começou mas não terminou, não estava entendendo nada…

Uma outra amiga, meio riquinha e meio bibliófila, ouvindo muita gente falar do Proust e seu Em busca do tempo perdido, resolveu ir fundo na coisa. Entrou na maior e mais completa livraria de SP, aquela ali do conjunto nacional, na Paulista, e tascou ao vendedor: “Eu quero a coleção completa do Proust”. Aí o vendedor consultou o catálogo, pegou os livros disponíveis e os colocou sobre o balcão, empilhados num único monte, ao alcance das mãos dessa minha amiga, dizendo que, do Proust, a livraria tinha aqueles. Minha amiga, como boa livreira amadora e consumidora profissional, já foi logo metendo a mão, espalhando tudo, folheando, vendo as capas, eram 7 romances, tudo do Proust, Marcel Proust, francês, tudo traduzido para o brasileiro. Após consultar pela segunda vez as 7 capas, a amiga exclamou: “Poxa, não tem exatamente o que eu mais queria, o Em busca do tempo perdido!”. Aí o vendedor foi ver, conferiu também um por um, tinha o No caminho de Swann, tinha o À sombra das raparigas em flor, tinha O caminho de guermantes, tinha Sodoma e gomorra, tinha A prisioneira, tinha A fugitiva, tinha O tempo redescoberto, mas não tinha Em busca do tempo perdido. E a prova de que o Em busca do tempo perdido era o romance mais famoso do autor era que, em todos os volumes dos outros romances, a editora fizera questão de colocar na capa essa informação, um truque muito usado pelas editoras… A minha amiga já ia indo embora, o vendedor atônito, péra aí, deixa consultar melhor, foi lá novamente no terminal, quem sabe não tinha consultado direito, num era possível, viu, conferiu, era aquilo mesmo, não teve como segurar a cliente.

Eu tinha um colega de turma que se gabava de nunca ter lido um livro inteiro (era uma turma no curso de Letras…). O cara só lia os resumos e, pior, só tirava nota boa. Muito inculto e esperto e, ouvindo aquele buxixo ensurdecedor sobre Proust, pensou que poderia fazer sucesso lendo algo dele. Na moita, entrou na Florestan Fernandes, aquela bibliotecazinha anexa ao prédio da Letras da FFLCH, e pegou o volume mais fininho do Proust, era o romance chamado A fugitiva. Não leu, mas foi na internet e encontrou vários resumos lá. Diabos, só não encontrou o resumo do Em busca do tempo perdido, que tanto ouvia falar; quer dizer, até encontrou, mas não isolado, bem definido, simplificado, curto, até o resumo era longo...

Muita gente já ouviu falar no famoso escritor francês, todo mundo já ouviu sobre a falada madeleine com chá do seu famoso romance Em busca do tempo perdido, mas ninguém nunca pegou o volume nas mãos e pouca gente o leu.
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Vamos começar de forma longa, grossa e pesada. O livro pesa 4 kg e 300 gramas. E tem 3500 páginas. Treis mil e quinhentas. Me parece que, em brasileiro, nunca foi editado em um único volume. Teria que ser em papel de bíblia, em letra de bíblia. Isso só seria possível, talvez um dia seja possível, mas antes teríamos de fundar uma igreja, formar fiéis, depois lançar a “bíblia” do Proust e espalhar que, quem não lesse, iria para o Inferno. Creio que na França já existe essa igreja e esse volume único, não sei. Em brasileiro, há os volumes da Editora Globo e os da Ediouro, que agora viraram da Nova Fronteira.

A Editora Globo, originalmente de Porto Alegre, agora em S.Paulo, publicou Em busca do tempo perdido em 7 volumes; a Ediouro publicou em 3 volumes. Esses mesmos 3 volumes, do mesmo tradutor, o poeta Fernando Py (morreu agora em maio/2020), foram lançados em 2017, pela Editora Nova Fronteira.

Dos 7 volumes da Globo, os primeiros quatro foram traduzidos pelo poeta Mario Quintana, o quinto, pelo poeta Manuel Bandeira em conjunto com Lourdes Sousa de Alencar, o sexto, pelo poeta Carlos Drummond de Andrade e o sétimo e último, por Lúcia Miguel Pereira, que não é poeta, mas é tia de poeta.

Que diabos que só poetas traduzem Proust? Só poetas traduzem o mais caudaloso romance de que tenho notícias, o mais verborrágico, 3500 páginas, 4 kg e trezentos, o mais desresumido, o mais antipoético, se considerarmos que poesia é síntese. O que explica isso? E não qualquer poeta, é Quintana, é Drummond, é Bandeira.

Enfim, o Em busca do tempo perdido é composto de 7 volumes, que o próprio autor foi publicando isoladamente, os primeiros 4 em vida e os 3 últimos após sua morte. Na tradução da Globo, os títulos desses volumes, pela ordem: No caminho de Swann, À sombra das raparigas em flor, O caminho de guermantes, Sodoma e Gomorra, A prisioneira, A fugitiva, O tempo redescoberto. Mas, não se engane. É uma divisão arbitrária, como se dividíssemos um navio graneleiro carregado de soja em 7 containers gigantes. É tudo uma coisa só, do primeiro ao sétimo volume, um continuação do outro, sem qualquer preâmbulo. Daí porque é tudo ou nada, ou se lê tudo ou é melhor nem começar.
O Fernando Py, coitado, trocou Raparigas por Moças, no título do segundo volume. Eu tava no ginásio, comecei a comentar sobre uma poesia com meus tios, enquanto descansávamos da labuta, havia a palavra rapariga — o feminino de rapaz— pensava eu, ingenuamente. Tio Rubens me falou sério (eu tinha 14 anos), “não fala essa palavra não”. E só explicou que era besteira, o resto deixou por minha conta. Bem feito, me lançou no mau caminho, estou até hoje tentando entender.
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Trata-se de uma autoficção, em que o narrador se confunde com o autor — inclusive se chama Marcel, como o autor —, e narra sua vida, desde a infância, em finais do século XIX (Proust nasceu em 1871) até sua morte, em 1922. Seria uma espécie de livro de memórias. Mas não é. Ou é? O narrador (e não o autor) garante: “Neste livro, onde não há um fato que não seja fictício, nem uma só personagem real, onde tudo foi inventado por mim segundo as necessidades do que pretendia demonstrar, ...” (p. 128 de O Tempo Redescoberto, Globo, 15ª ed.).

Inventado ou não, o leitor conhece, através da leitura do romance/memória, as conversas, os pensamentos, o “clima” reinante na Paris naquele período, desde a derrota de 1870, na guerra com a Prússia (depois Alemanha) até a vitória de 1918, na guerra com a mesma Alemanha, passando pelo caso Dreyfus (1894, deixando claro que o antissemitismo já existia antes dos nazistas e não era coisa só de alemão).

No período, os lampiões são substituídos pelas lâmpadas elétricas, os fiacres pelos automóveis, o 2º Império pela 3ª República, os nobres pelos burgueses. Surge o avião, a metralhadora, o tanque de guerra e as armas químicas. E o telefone. Mas continua-se a escrever cartas. Mas, continua-se morrendo de pneumonia. Da mesma forma, continua-se a sofrer de duques, príncipes e marqueses e outros esnobismos; ainda há ecos de feudalismo, no centro da revolução burguesa ocorrida já há um século; continuam, mais do que nunca, os habitantes de Paris e do resto do mundo, divididos em classes sociais muito bem definidas no espaço e nos salões e nas mentes e nas práticas de todos.

Em busca do tempo perdido faz comparações nas artes mais diversas e mais altas (são personagens: Berma: Teatro; Bergotte: Literatura; Elstir: Pintura; Vinteuil: Música). Cada caráter (personagens, fatos, situações, ideias, etc.) apresenta as faces opostas(múltiplas); para conferir peso e solidez ao livro, ele é preparado minuciosamente, com constantes reagrupamentos de forças, como em vista de uma ofensiva, suportado como uma fadiga, aceito como uma norma, construído como uma igreja, seguido como um regime, vencido como um obstáculo, conquistado como uma amizade, superalimentado como uma criança, criado como um mundo, sem desprezar os mistérios que provavelmente só se explicam em outros mundos, e cujo pressentimento é o que mais nos comove na vida e na arte. Este parágrafo inteiro é quase a transcrição do escrito pelo narrador, à página 279 do último volume.

Sim, é a história de um garoto que pretende ser escritor, que pretende escrever um livro. É uma estória com começo, meio e fim; há personagens bem definidos, que se envolvem em paixões, desenlaces, mortes; o espaço e o tempo estão presentes, ajudando a narrativa. Tudo isso seria muito bem narrado numas 120 páginas. As 3400 páginas restantes? Bem, as 3400 páginas restantes trouxeram o livro até aqui, até 2020.
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São 3500 páginas, 4,3 quilogramas, não é brincadeira não. A mancha da página não dá moleza, são 42 linhas de 60 espaços. Nenhuma ilustração, 2 ou 3 subtítulos por volume, pau reto. Nos 4 primeiros volumes, nova edição, acrescida de notas, que ajudam a encher mais o saco do calhamaço.

Bem, se você julga as leituras fúteis tão prejudiciais quanto os bombons e os bolos, você pode ler Proust. Quer dizer, tenho dúvidas, sei que o Marcel narrador foi quem disse isso, que as leituras fúteis são tão prejudiciais quanto os bombons e os bolos, lá na página 65 de No caminho de Swann, na edição de 2011, da Globo.

E se você gosta de coisa sucinta, leve, rápida, simples, melhor amarrar seu burro em outra freguesia. Sobre qualquer e todo aspecto ou fato ou situação ou personagem, o narrador passa e repassa e trespassa e martela por cima e aplica várias demãos e lixa e pole e limpa e lava e mal embala. E garante que “há menos força numa inovação artificial que numa repetição destinada a sugerir uma verdade nova” (p.552 da nova edição de 2009 do À sombra das raparigas em flor, da Globo). O jantar na casa dos Guermantes dura 140 páginas, da 451 à 590, da nova edição de 2007, da Globo, em O caminho de Guermantes. Um cisco, um susto, um pum, e lá se vão 15, 20 páginas…

Mas, se não é a preguiça nem a falta de tempo ou dinheiro que impedem o surgimento de leitores, mas a indigência cultural, a censura, o obscurantismo, o messianismo, o escapismo, o narrador Marcel diz que, do outro lado, o da produção cultural, “na sociedade polida quase não se encontram romancistas, poetas, todas essas criaturas sublimes que falam justamente o que não se deve dizer” (p.270, da nova edição de 2008, de Sodoma e gomorra, da Globo). Sociedade polida, sociedade contida. Em Sodoma e gomorra, Proust fixa e arrebita, depois arranca e torna a fixar e bate e rebate o tema da homossexualidade, impensável aqui, e improvável lá; não apenas nesse volume, mas em todos os demais, a partir desse. E não somente a homossexualidade masculina, mas, principalmente a feminina, através da sua personagem Albertine. Para Proust, todos, homens e mulheres, são, no mínimo, bissexuais. São ou poderiam ser, uns praticam, outros não. Porém, não há o mínimo erotismo literário nos 4,3 Kg da papelama.

Ler Em busca do tempo perdido equivale à prática da mineração, aquela artesanal, descalço dentro do barro, segurando a bateia. Suor, cansaço, desânimo e, de vez em quando, uma pepita. Por exemplo, em A fugitiva (11ª ed., da Globo), veja o que garimpei: “o hábito de pensar nos impede, não raro, de sentir o real, imuniza-nos contra ele, torna-o, também ele, pensamento”(p.172) ou “o hábito embrutecedor, que durante todo o curso da vida nos oculta mais ou menos todo o universo e, em uma noite profunda, sob sua etiqueta imutável, substitui os mais perigosos ou mais embriagadores venenos da vida por algo de anódino, que não proporciona delícias”(117) ou “deixemos as mulheres bonitas aos homens sem imaginação” (27) ou “ninguém acredita em vida após a morte” (p.184, se acreditassem, ninguém falaria mal de quem morreu, não se teria tanto medo da morte, não se choraria tanto nos funerais). Mas, olha essa pepita: “como mandar ferver a água em tempo de epidemia” (p.14, sim, era tempo da gripe espanhola e respectiva paranoia).

Essa pepita de ferver a água por causa da epidemia me lembrou que a vida dos franceses, 100 anos atrás, esmiuçada no romance, estava à frente da dos brasileiros de hoje, enquanto povo, ser coletivo, na cultura, na prática, na visão de mundo, é o que me sugeriu a leitura. Realmente, a sensação é a de que nós, brasileiros, ainda não chegamos ao séc.XX. Não é novidade nem motivo de espanto, há muita gente boa aqui e alhures que garante que ainda não passamos por 1789. Se Marcel dizia, em 1920, que “não se tem impunemente mil anos de feudalismo no sangue” (p.633, de O caminho de guermantes), nós, mais ainda, e mais desgraçados, dizemos que não se tem impunemente 300 anos de escravidão no sangue, que não se tem impunemente 50 anos de analfabetismo funcional no sangue.
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Se Proust, elegantemente, abre um leque de adjetivos/substantivos, todos pertinentes, cada um com sua cor e significado próprios, para qualificar determinadas situações, o jogo dos contrários ou o encadeamento de negativas deixa o leitor maluco, para não dizer perdido. E a frase longa desanima o mais pernóstico fiel.

Por exemplo, em A prisioneira, às páginas 285, 292, 297, 359, respectivamente: “...renunciar ao espanto, ao desassossego, à aflição ou à alegria”, quatro substantivos na mesma cena; “...pois, sensitivo, nervoso, histérico, era um verdadeiro impulsivo,...”, quatro adjetivos; “...sob as feições de parasitas, bajuladores, ladrões, bêbados, ora humildes e ora insolentes, devassos e até assassinos.”, oito adjetivos; “Agora o conhecimento que eu tinha deles era interno, imediato, espasmódico, doloroso.”, 4 adjetivos. Se o tamanho do volume fosse por causa disso, tava bom…

Por exemplo, o puzzle, o quebra-cabeças do jogo dos contrários, uma coisa feita para prolongar a frase, para deixar a bagaça prolixa (intencionalmente, parece). Ainda n'A Prisioneira (aqui eu já tava injuriado), às páginas 279, 293 e 296, respectivamente (veja que são páginas próximas, eu estava prestando atenção, mas isso acontece ao longo de todas as 3500): “...para cada reputação imerecida há uma centena de boas que não o são menos.”; temos a negativa de imerecida, que nega o não, que nega o menos e vice-versa ou muito ao contrário. Tente entender. “ou ainda porque num meio que não era o seu, se sentia menos à vontade e menos corajoso do que o teria sido no Fauborg.”, temos o não negando o menos e o futuro do pretérito composto para complicar; e esta: “Os antigos não amavam menos intensamente o agrupamento humano a que se devotavam porque este não excedia os limites da cidade, nem os homens de hoje amam menos a sua pátria do que aqueles que amarão os Estados Unidos de toda a terra.”; é um não que nega um menos que nega outro não que contradiz um nem que ataca outro menos… haja atenção.

Por exemplo, à página 260, de O Tempo Redescoberto, tive a pachorra de contar 159 palavras numa frase. Numa única frase, separadas apenas por vírgulas e dois travessões. Parece que teve gente que andou contando no livro todo, sistematicamente, tem frases maiores, dizem. Dá pra ler uma frase desse tamanho e entender, numa única vez?

E é sempre bom lembrar que Proust é um crítico de arte. E, claro, não poderia poupar seus leitores. Bem umas 500 páginas (acho que mais) são críticas puras, a Literatura, claro, mas também a música, a pintura, a dramaturgia. Para cada área, uma personagem: Bergotte, Vinteuil, Elstir, Berma. Sem falar nos comentários ao vestuário e à decoração da curriola e respectivos salões.

Não posso deixar de informar o caráter da família do narrador, crucial para entender o livro: “Tive, bem perto de mim, o exemplo de minha mãe, que a sra. de Cambremer e a sra. de Guermantes nunca puderam convencer de tomar parte em nenhuma obra filantrópica, em nenhuma instituição patriótica de beneficência, de ser vendedora ou patrocinadora em festas de caridade...” (p.297 d'A prisioneira). O narrador quer opor a hipocrisia da nobreza e dos ricos em geral ao republicanismo de parte da burguesia, esclarecida, progressista, à qual pretende pertencer. A mãe e a avó eram muito mais benéficas para a sociedade do que aqueles ricos caridosos, embora não parecessem, para o senso comum.

Enfim, o livro consiste em opor burgueses ricos e cultos (Swann, Legrandin, Bloch, os Verdurin, o próprio narrador), aos nobres ricos e decadentes (os Guermantes, como representantes do feudalismo remanescente, de uma tribo de príncipes de araque, de duquesas, marquesas, condessas). Em busca do tempo perdido nada mais é que uma Revolução (francesa) na Literatura, a retratar a revolução na tecnologia e nos costumes, a testemunhar o advento do século XX. De fato, Hobsbawm diz que o séc.XX começou em 1914; Proust ajusta isso para 1918 ou 19 (alguém ou Lenin poderia reajustar para 1917, mas isso fica para o romance seguinte…).

Pra terminar, uma intriga que me intriga. Após passar mais de 20 anos ausente dos salões, em parte devido a internações para tratamento da saúde precária, o narrador vai a uma recepção dada pela princesa de guermantes. Lá encontra boa parte de seus amigos e nota que estão todos velhos, claro. Passa, então, as últimas 100 páginas do romance esmiuçando os sinais de velhice que via neles. E, dentre esses sinais, nenhuma referência à calvície masculina. Ou os homens não tiravam o chapéu dentro dos salões — porque os usavam, todos, ao ar livre — ou Proust ignorou o aspecto visual mais evidente na velhice do homem.