sexta-feira, 10 de julho de 2020

FILHO DA PUTA!

FIADAPUTA.

Minha amiga mineira Maria das Graças, puta da vida com nosso puto-mór, teceu comentários, recentemente, sobre algumas espécies de filhadaputas encontrados em sua terra. Isso lembrou a minha, pertim do Triângulo Mineiro.

Lá, a gente falava fiadaputa. Ainda que fosse homem, fiadaputa. Aliás, fiadaputa não tinha nada a ver com a mãe do fiadaputa. Fiadaputa era uma palavra só, específica, com significado próprio, sem nada a ver com fia/fio/filha/filho ou da ou puta. Inclusive, era muito comum qualificar o próprio irmão de fiadaputa. E não raro, o que torna irrefutável essa minha informação histórica e geográfica e etimológica, a própria mãe qualificava seu filho de fiadaputa. Em suma: fiadaputa era um xingo leve, nada a ver com a filhadaputice desse filho da puta.

Minha amiga diz que, em sua terra, os mais pudorados falam feadasunha. Então, lá na minha terra, só tem gente despudorada, porque todos, até as mais católicas, falam fiadaputa, sendo puta mesmo, sem qualquer jogo consonantal. Agora, quando se trata dum fiadaputa bem fiadaputa, então se gasta o latim e falamos filhadaputa. Quando o puto ou a puta ouve esse fiadaputa especial, aí ele treme nas bases. Porque, além da exatidão escorreita do mais elevado vernáculo, esse fiadaputa é pronunciado devagar, com as sílabas bem divididas, todas acentuadas: fí lhá dá pú ta! Como o fiadaputa não tem nada a ver com a mãe do cujo, então temos aqui, acho que único no mundo linguístico, um eufemismo de xingo, ou um xingo hermafrodita, de filho e mãe contidos no mesmo indivíduo. Trata-se, portanto, de um simples puto (ou puta) que dizemos fiadaputa. Você, então, poderia pensar que a língua lá da minha terra está em processo de evolução e logo, logo, di-lo-emos apenas Puta! (ou Puto!). Mas não. Esse nosso fiadaputa nunca esteve tão arraigado, tão irremovível. É um grande filho de uma puta convicto.

Então, todo fiadaputa não era levado a sério. Até o fí lhá dá pú ta! bem escanhoado, solfejado no capricho, não gerava maiores desentendimentos, além de uma pequena mágoa no puto-destinatário, nada que abalasse a amizade. Mas a coisa complicava quando o xingador inovava, através de qualquer mudança no gênero ou na forma do xingo ou introdução de qualquer artigo ou preposição ou qualificativo nele. Por exemplo, sendo o puto-destinatário do sexo masculino e o xingador concordasse o xingo com seu gênero e dissesse fiodaputa. O puto logo sentia aquele fio masculino e ficava puto de verdade. Se o xingador transformasse a palavra simples fiadaputa em palavra composta fia-da-puta, isso também se poderia resultar em alguns sopapos. Claro que havia os desavisados, os ingênuos, os desacreditados e os gagos(aprendi esses encadeamentos com o Proust), que sofriam os devidos descontos ao se utilizarem de uma dessas variantes mais graves. Em se tratando do nosso fiadaputa, não havia ninguém inocente, desinformado quanto ao decoro de se usar esta ou aquela forma. Por isso, quando o usuário transformava a inocente palavra simples num verdadeiro enunciado, introduzindo o artigo indefinido uma antes da puta, e afastando um pouco mais umas das outras as componentes da composição: filho - de - uma - puta !, era morte na certa. Da mesma forma, se matava e se morria, quando o simples fiadaputa era qualificado: grande fiadaputa; o maió fiadaputa; fiadaputa de merda; fiadaputa do cacete.
Inovações do tipo filho duma putana, filho de uma rapariga, filho de uma chocadeira, filho duma égua, filho da muléstia, não eram levadas em conta ou a sério, eram desconsideradas, coisa de literatos ou de gente de fora. Da mesma forma, quando um desconhecido nos desqualificava com qualquer modalidade do fiadaputa, não era levado a sério. Primeiro, porque desconhecia nosso protocolo e, se restava qualquer dúvida, ele, por ser desconhecido, não estava devidamente informado sobre nós ou nossa mãe(porque a desqualificação só dói quando quem nos desqualifica nos conhece bem). E o fidumaputa ou féladaputa eram variantes sem maiores consequências no corriqueiro fiadaputa, usado apenas por pessoas muito isoladas, que treinavam pouco a fala e, quando falavam, ou comiam letras ou sílabas ou babavam besteira boca-a-boca, acriticamente.
Quando eu vivia na minha terra, criança ou adolescente, imaginava e sonhava — quanto mais limitado e desinformado é o mundo, mais se imagina e se sonha. Comparava a marca de cigarros mistura fina ao xingo filhadaputa. Quando ia viajar (de ônibus ou de trem), meu pai comprava um masso(era assim que se chamava o que depois se chamou carteira) de mistura fina, porque nos ônibus e nos trens, era proibido fumar cachimbo, charuto ou cigarro de palha. Cigarro de papel podia, e quando isso também foi proibido (e acrescentaram à plaquinha da proibição antiga o “e de papel”, normalmente sem guardar conformidade ao padrão gráfico fixado), eu percebi, em minha vida, a primeira grande filhadaputice pública em que estivera viajando durante o tempo precedente todo.
Fora de casa, havia grandes fiadaputas: os homens públicos e as mulheres públicas; estas eram as artistas e as putas de verdade; aqueles, eram os políticos, os padres e alguns professores-cientistas que se punham a vociferar pretensas novas verdades no espaço público, a desencaminhar as crianças (os poucos pastores que havia, além de cobrarem pouco, eram discretos). Isso explica porque o populacho, ainda hoje, associa política com putaria, arte com vagabundagem, educação com subversão, a coisa pública com a casa da mãe joana. Isso explica o sucesso do obscurantismo nas campanhas eleitorais, essa coisa de fazer dos incentivos fiscais para a cultura mote de campanha, essa coisa de desqualificar a ciência e os padres, substituindo-os por grandes-filhos-de-uma-puta-de-marca-maior.

Mas, durante a vida toda, e até outro dia, nunca, nem em meus piores pesadelos, eu poderia supor que houvesse, entre nossos simpáticos fiadaputas, tantos inocentes e tantos grandessíssimos-filhos-e-filhas-de-uma-puta. Nunca poderia imaginar que um dia tivéssemos um filho da puta desse quilate.

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