FIADAPUTA.
Minha
amiga mineira Maria das Graças, puta da vida com nosso puto-mór,
teceu comentários, recentemente, sobre algumas espécies de
filhadaputas encontrados em sua terra. Isso lembrou a minha, pertim
do Triângulo Mineiro.
Lá,
a gente falava fiadaputa. Ainda que fosse homem, fiadaputa. Aliás,
fiadaputa não tinha nada a ver com a mãe do fiadaputa. Fiadaputa
era uma palavra só, específica, com significado próprio, sem nada
a ver com fia/fio/filha/filho ou da ou puta. Inclusive, era muito
comum qualificar o próprio irmão de fiadaputa. E não raro, o que
torna irrefutável essa minha informação histórica e geográfica e
etimológica, a própria mãe qualificava seu filho de fiadaputa. Em
suma: fiadaputa era um xingo leve, nada a ver com a filhadaputice
desse filho da puta.
Minha
amiga diz que, em sua terra, os mais pudorados falam feadasunha.
Então, lá na minha terra, só tem gente despudorada, porque todos,
até as mais católicas, falam fiadaputa, sendo puta mesmo, sem
qualquer jogo consonantal. Agora, quando se trata dum fiadaputa bem
fiadaputa, então se gasta o latim e falamos filhadaputa. Quando o
puto ou a puta ouve esse fiadaputa especial, aí ele treme nas bases.
Porque, além da exatidão escorreita do mais elevado vernáculo,
esse fiadaputa é pronunciado devagar, com as sílabas bem divididas,
todas acentuadas: fí lhá dá pú ta! Como o fiadaputa não tem nada
a ver com a mãe do cujo, então temos aqui, acho que único no mundo
linguístico, um eufemismo de xingo, ou um xingo hermafrodita, de
filho e mãe contidos no mesmo indivíduo. Trata-se, portanto, de um
simples puto (ou puta) que dizemos fiadaputa. Você, então, poderia
pensar que a língua lá da minha terra está em processo de evolução
e logo, logo, di-lo-emos apenas Puta! (ou Puto!). Mas não. Esse
nosso fiadaputa nunca esteve tão arraigado, tão irremovível. É um
grande filho de uma puta convicto.
Então,
todo fiadaputa não era levado a sério. Até o fí lhá dá pú ta!
bem escanhoado, solfejado no capricho, não gerava maiores
desentendimentos, além de uma pequena mágoa no puto-destinatário,
nada que abalasse a amizade. Mas a coisa complicava quando o xingador
inovava, através de qualquer mudança no gênero ou na forma do
xingo ou introdução de qualquer artigo ou preposição ou
qualificativo nele. Por exemplo, sendo o puto-destinatário do sexo
masculino e o xingador concordasse o xingo com seu gênero e dissesse
fiodaputa. O puto logo sentia aquele fio masculino e ficava puto de
verdade. Se o xingador transformasse a palavra simples fiadaputa em
palavra composta fia-da-puta, isso também se poderia resultar em
alguns sopapos. Claro que havia os desavisados, os ingênuos, os
desacreditados e os gagos(aprendi esses encadeamentos com o Proust),
que sofriam os devidos descontos ao se utilizarem de uma dessas
variantes mais graves. Em se tratando do nosso fiadaputa, não havia
ninguém inocente, desinformado quanto ao decoro de se usar esta ou
aquela forma. Por isso, quando o usuário transformava a inocente
palavra simples num verdadeiro enunciado, introduzindo o artigo
indefinido uma antes da puta, e afastando um pouco mais umas das
outras as componentes da composição: filho - de - uma - puta !, era
morte na certa. Da mesma forma, se matava e se morria, quando o
simples fiadaputa era qualificado: grande fiadaputa; o maió
fiadaputa; fiadaputa de merda; fiadaputa do cacete.
Inovações
do tipo filho duma putana, filho de uma rapariga, filho de uma
chocadeira, filho duma égua, filho da muléstia, não eram levadas
em conta ou a sério, eram desconsideradas, coisa de literatos ou de
gente de fora. Da mesma forma, quando um desconhecido nos
desqualificava com qualquer modalidade do fiadaputa, não era levado
a sério. Primeiro, porque desconhecia nosso protocolo e, se restava
qualquer dúvida, ele, por ser desconhecido, não estava devidamente
informado sobre nós ou nossa mãe(porque a desqualificação só dói
quando quem nos desqualifica nos conhece bem). E o fidumaputa ou
féladaputa eram variantes sem maiores consequências no corriqueiro
fiadaputa, usado apenas por pessoas muito isoladas, que treinavam
pouco a fala e, quando falavam, ou comiam letras ou sílabas ou
babavam besteira boca-a-boca, acriticamente.
Quando
eu vivia na minha terra, criança ou adolescente, imaginava e sonhava
— quanto mais limitado e desinformado é o mundo, mais se imagina e
se sonha. Comparava a marca de cigarros mistura fina ao xingo
filhadaputa. Quando ia viajar (de ônibus ou de trem), meu pai
comprava um masso(era assim que se chamava o que depois se chamou
carteira) de mistura fina, porque nos ônibus e nos trens, era
proibido fumar cachimbo, charuto ou cigarro de palha. Cigarro de
papel podia, e quando isso também foi proibido (e acrescentaram à
plaquinha da proibição antiga o “e de papel”, normalmente sem
guardar conformidade ao padrão gráfico fixado), eu percebi, em
minha vida, a primeira grande filhadaputice pública em que estivera
viajando durante o tempo precedente todo.
Fora
de casa, havia grandes fiadaputas: os homens públicos e as mulheres
públicas; estas eram as artistas e as putas de verdade; aqueles,
eram os políticos, os padres e alguns professores-cientistas que se
punham a vociferar pretensas novas verdades no espaço público, a
desencaminhar as crianças (os poucos pastores que havia, além de
cobrarem pouco, eram discretos). Isso explica porque o populacho,
ainda hoje, associa política com putaria, arte com vagabundagem,
educação com subversão, a coisa pública com a casa da mãe joana.
Isso explica o sucesso do obscurantismo nas campanhas eleitorais,
essa coisa de fazer dos incentivos fiscais para a cultura mote de
campanha, essa coisa de desqualificar a ciência e os padres,
substituindo-os por grandes-filhos-de-uma-puta-de-marca-maior.
Mas,
durante a vida toda, e até outro dia, nunca, nem em meus piores
pesadelos, eu poderia supor que houvesse, entre nossos simpáticos
fiadaputas, tantos inocentes e tantos
grandessíssimos-filhos-e-filhas-de-uma-puta. Nunca poderia imaginar
que um dia tivéssemos um filho da puta desse quilate.
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