Maria era uma linda jovem de 35 anos de idade. Independente,
culta, trabalhava numa valorizada repartição pública, onde entrou por
concurso. Só baixava a cabeça aos regulamentos e estatutos e
portarias. Tinha dificuldades com os homens e isso a deixava infeliz, pois, nela, a vida exuberante fazia cobranças...
Era uma mulher para homens muito corajosos ou ingênuos. Você, genuíno
leitor, já vê que as mulheres com esse perfil costumam ser, no mínimo,
chatas. Você sabe que gostamos das mulheres submissas e apenas
suficientemente sábias. Em tese, uma mulher independente e culta e
inteligente como a Maria poderia nos ser submissa e exercer a sua
sabedoria apenas o necessário, e daí nos ser muito agradável, e isso é
verossímil, mas essa possibilidade quase sempre não ultrapassa a mera
teoria, daí porque somente os puros nela acreditam e somente os
temerários nela embarcam. Quando acertam, tiram a sorte grande. Não se
trata de loteria, que nestas apostam os mais metódicos e crédulos.
Está claro que Maria é uma mulher moderna e também está claro que ela
arca com o fardo pesado dessa condição. Porque à mulher não moderna –
que as há em quantidade por aí, talvez em maioria – não faltam carinhos
variados de machos criativos. Enfim, Maria queria homem e queria filho.
Sim, uma parte dela queria, daí porque o conflito interno que já há
algum tempo lhe atormentava: um filho teria um pai, que quereria ser
dono. Era dose aguentar um homem, Maria não gostava do homem civil,
aquele cheio de direitos e autoridades, que traz em seus genes 4 mil anos
de cultura machista. Maria gostava de homem – e como gostava! – mas
somente em alguns dias. Nesses dias ela se tornava mansa e obediente... No dia a dia, entretanto, nem pensar!
Então
Maria engendrou um plano para ter um filho sem homem. Procurou o banco
de sêmen da Maternidade São Gabriel, e combinou uma
inseminação artificial. Contudo, havia um problema secundário que, na prática, se revelava quase grave: não queria que
seu filho tivesse como pai um asterisco. Ela, como militante burocrata,
imaginava tristes as pessoas que passavam por sua mesa e apresentavam
documentos de identidade só com o nome da mãe. Desembaraçada, convidou
um amigo para cumprir tal função:
-
José, vou ter um filho em produção independente, mas não quero que ele
saia por aí com a carteira de identidade sem nome de pai. Você não quer
emprestar seu nome?
José, equivalente à Maria em situação no mundo, não só concordou em emprestar o nome, como se dispôs a emprestar mais, muito mais... para
que ela poupasse as despesas e a burocracia e os embaraços do banco de
espermas... naturalmente, sem interesses, respeitando os estatutos da
produção independente.
Porém,
quando José ia indo, Maria já vinha voltando. Declinou da generosa
oferta e contratou os serviços da São Gabriel e foi até o final, se
submetendo à inseminação. Mas Maria era sensual, feminina, fêmea...
lembram que já deixei isso subentendido? Ela quase gozava de prazer só
em se imaginar com um homem em trabalhos de inseminação... natural. Se o
sexo civil já era bom, ela imaginava que o sexo religioso (para procriação: certas religiões só admitem o sexo para procriação, daí porque aqui ele é chamado de religioso) deveria ser muito
melhor. Sim, contraditoriamente, nada mais objetivo, animal, que aquelas
trepadas destinadas à procriação, como as dos animais.
Porque
o espírito independente da Maria, aquela autossuficiência, aquele
individualismo, era pura fachada. Quero dizer: era coisa da sua porção
racional, da sua cultura recentemente adquirida, do seu meio imediato,
do seu verniz.(o pior é que aquela soberba toda mais atraía o José). As suas entranhas milenares eram de uma mulher parideira e
anexa a um homem viril e cheio de iniciativas. E, enfim, se ela e eu e o
José não podemos fugir aos nossos condicionamentos remotos, ao menos
podemos, com a ajuda da nossa inteligência superficial, alterar alguns
eventos secundários para confortos de segunda ordem.
Está
evidente que Maria é esperta. No dia da inseminação, levou o
José junto, para dar apoio moral. O José, ali na sala de espera, queria
subir pelas paredes, ante tamanho desperdício, mas amizade é compreensão
e sofrimento. Ele se conformava, quero dizer, uma parte dele. A outra
parte aprovava, já havia aprovado há muito, aquele útero para chocar seu
futuro, e não se conformava não. E o homem moderno foi feito para
remoer as suas contradições e eu quero dizer que o homem moderno foi
feito para se controlar diante de uma mulher bonita e acessível, mas
dona de si.
Enfim,
Maria saiu da sala sorridente e maquiavélica. Alguns dias depois,
comunicou ao José a confirmação da sua gravidez. E, finalmente, após
alguns preâmbulos, foram pra casa brincar. E muito brincaram ainda,
antes que a barriga atrapalhasse. Uma brincadeira leve, sem perigo e sem
cuidado. Enfim, o bebê nasceu saudável – um feio espécime do sexo
masculino – um pouco além do prazo, pelos cálculos do José, mas nada que
se afigurasse anormal. O tempo foi passando, José se mudou
provisoriamente para o quartinho anexo, para ajudar a cuidar do bebê
(sem desfazer sua casa, onde morava só). Quanto à semelhança entre as
orelhas do menino e as dele, entre os narizes, entre os olhos, os
cabelos, as testas, Maria garantia, brejeira, serem mera coincidência e
ainda lhe passava um carão, perguntando se ele não havia estudado
biologia no colégio.