sábado, 24 de outubro de 2015

MARIA JOSÉ


     Maria era uma linda jovem de 35 anos de idade. Independente, culta, trabalhava numa valorizada repartição pública, onde entrou por concurso. Só baixava a cabeça aos regulamentos e estatutos e portarias. Tinha dificuldades com os homens e isso a deixava infeliz, pois, nela, a vida exuberante fazia cobranças... Era uma mulher para homens muito corajosos ou ingênuos. Você, genuíno leitor, já vê que as mulheres com esse perfil costumam ser, no mínimo, chatas. Você sabe que gostamos das mulheres submissas e apenas suficientemente sábias. Em tese, uma mulher independente e culta e inteligente como a Maria poderia nos ser submissa e exercer a sua sabedoria apenas o necessário, e daí nos ser muito agradável, e isso é verossímil, mas essa possibilidade quase sempre não ultrapassa a mera teoria, daí porque somente os puros nela acreditam e somente os temerários nela embarcam. Quando acertam, tiram a sorte grande. Não se trata de loteria, que nestas apostam os mais metódicos e crédulos.

     Está claro que Maria é uma mulher moderna e também está claro que ela arca com o fardo pesado dessa condição. Porque à mulher não moderna – que as há em quantidade por aí, talvez em maioria – não faltam carinhos variados de machos criativos. Enfim, Maria queria homem e queria filho. Sim, uma parte dela queria, daí porque o conflito interno que já há algum tempo lhe atormentava: um filho teria um pai, que quereria ser dono. Era dose aguentar um homem, Maria não gostava do homem civil, aquele cheio de direitos e autoridades, que traz em seus genes 4 mil anos de cultura machista. Maria gostava de homem – e como gostava! – mas somente em alguns dias. Nesses dias ela  se tornava mansa e obediente... No dia a dia, entretanto, nem pensar!

     Então Maria engendrou um plano para ter um filho sem homem. Procurou o banco de sêmen da Maternidade São Gabriel, e combinou uma inseminação artificial. Contudo, havia um problema secundário que, na prática, se revelava quase grave: não queria que seu filho tivesse como pai um asterisco. Ela, como militante burocrata, imaginava tristes as pessoas que passavam por sua mesa e apresentavam documentos de identidade só com o nome da mãe. Desembaraçada, convidou um amigo para cumprir tal função:

     - José, vou ter um filho em produção independente, mas não quero que ele saia por aí com a carteira de identidade sem nome de pai. Você não quer emprestar seu nome?

     José, equivalente à Maria em situação no mundo, não só concordou em emprestar o nome, como se dispôs a emprestar mais, muito mais...  para que ela poupasse as despesas e a burocracia e os embaraços do banco de espermas... naturalmente, sem interesses, respeitando os estatutos da produção independente.

     Porém, quando José ia indo, Maria já vinha voltando. Declinou da generosa oferta e contratou os serviços da São Gabriel e foi até o final, se submetendo à inseminação. Mas Maria era sensual, feminina, fêmea... lembram que já deixei isso subentendido? Ela quase gozava de prazer só em se imaginar com um homem em trabalhos de inseminação... natural. Se o sexo civil já era bom, ela imaginava que o sexo religioso (para procriação: certas religiões só admitem o sexo para procriação, daí porque aqui ele é chamado de religioso) deveria ser muito melhor. Sim, contraditoriamente, nada mais objetivo, animal, que aquelas trepadas destinadas à procriação, como as dos animais.

     Porque o espírito independente da Maria, aquela autossuficiência, aquele individualismo, era pura fachada. Quero dizer: era coisa da sua porção racional, da sua cultura recentemente adquirida, do seu meio imediato, do seu verniz.(o pior é que aquela soberba toda mais atraía o José). As suas entranhas milenares eram de uma mulher parideira e anexa a um homem viril e cheio de iniciativas. E, enfim, se ela e eu e o José não podemos fugir aos nossos condicionamentos remotos, ao menos podemos, com a ajuda da nossa inteligência superficial, alterar alguns eventos secundários para confortos de segunda ordem.

     Está evidente que Maria é esperta. No dia da inseminação, levou o José junto, para dar apoio moral. O José, ali na sala de espera, queria subir pelas paredes, ante tamanho desperdício, mas amizade é compreensão e sofrimento. Ele se conformava, quero dizer, uma parte dele. A outra parte aprovava, já havia aprovado há muito, aquele útero para chocar seu futuro, e não se conformava não. E o homem moderno foi feito para remoer as suas contradições e eu quero dizer que o homem moderno foi feito para se controlar diante de uma mulher bonita e acessível, mas dona de si.

     Enfim, Maria saiu da sala sorridente e maquiavélica. Alguns dias depois, comunicou ao José a confirmação da sua gravidez. E, finalmente, após alguns preâmbulos,  foram pra casa brincar. E muito brincaram ainda, antes que a barriga atrapalhasse. Uma brincadeira leve, sem perigo e sem cuidado. Enfim, o bebê nasceu saudável – um feio espécime do sexo masculino – um pouco além do prazo, pelos cálculos do José, mas nada que se afigurasse anormal. O tempo foi passando, José se mudou provisoriamente para o quartinho anexo, para ajudar a cuidar do bebê (sem desfazer sua casa, onde morava só). Quanto à semelhança entre as orelhas do menino e as dele, entre os narizes, entre os olhos, os cabelos, as testas, Maria garantia, brejeira, serem mera coincidência e ainda lhe passava um carão, perguntando se ele não havia estudado  biologia no colégio.

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