NÃO QUERO SER AMIGO DE MEU NETO NO FACEBOOK
Não sei se
afirmo ou se torço para que o Facebook se inviabilize. O fato é que me sinto
muito incomodado com algumas situações que só o Facebook possibilita. Hoje
entrei lá e boa parte de meus amigos estava rezando. É um que me recomenda à
Senhora Aparecida, é outro que reza a Ave Maria, é padre que disse isso, pastor
que afirmou aquilo, pai de santo, médium..., frases e mais frases religiosas
devidamente emolduradas, passagens bíblicas, relato de milagres, e uma profusão
de “se Deus quiser”, “se a Virgem Maria
ajudar”. E um monte de amigos que fazem uma profissão de fé lá do seu dogma
religioso com o indefectível arremate: “se você acredita, diga amém”. E os
inevitáveis améns de outros tantos amigos que se seguem...
São meus
amigos, gente que conheço de verdade, gente que já veio na minha casa, eu fui
na deles... convivemos, trabalhamos juntos, estudamos juntos, jogamos futebol,
muitos têm o meu sangue... Como podemos ver e interpretar as coisas da vida e
do tempo e do mundo de modo tão disparatado? Mais de um curte o Bolsonaro,
vários pedem a volta dos militares, muitos odeiam os políticos. Tenho muitos
amigos simples, gente honesta, trabalhadora, pobre, pouca instrução formal
(vários têm curso superior, mas a qualidade de tais cursos recomenda tal
classificação quanto à instrução...), que rejeitam – odeiam - o Lula, sem atinar para o paradoxo de tal
posição.
Eu
compreendo tais diferenças ideológicas. Porque nós não somos donos do que
pensamos. Nós refletimos o que nos rodeia. E cada um tem sua roda própria...
Imagina um jovem de 30 anos que trabalha numa casa de material de construção há
dez, estuda à noite na Uniesquina, frequenta a neopentecostal do bairro, seu
pai é um desenraizado frustrado, seu patrão chama a polícia quando vê um sindicalista,
seus professores são acríticos profissionais do mercado... Esse jovem está
casado há dois anos e a família da mulher consegue ser mais desatualizada ainda
que a sua... ele cresceu sob ordens, sem nenhum livro e sem nenhum debate.
Sempre debaixo do chicote autoritário do pai, do patrão, do pastor, do professor, do Sílvio
Santos, do Datena... E pra culminar, arranjou um sogro que supera todo o povo
anterior em anacronismo e preconceito. Esse jovem não será de direita nem de
esquerda, muito ao contrário, será um pobre coitado sem condições de qualquer
ponderação.
Pois bem: de
um extremo a outro, tenho amigos de todo tipo. Natural, porque muitos são do
interior, moram em cidades pequenas, outros moram nas periferias das grandes
cidades, tenho amigos estudantes da USP,
sindicalistas, políticos profissionais, atletas, literatos, agricultores,
amigos que moram na zona rural, amigos que moram no centro de São Paulo, amigos
crentes, descrentes, católicos, protestantes, espíritas, umbandistas,
machistas, homossexuais, assalariados, microempresários, sacoleiros, funcionários públicos, formais, informais... cada um com seu modo particular de ver o mundo e se
posicionar. Até aí tudo bem. O problema é que o FACEBOOK coloca todo mundo lado
a lado, a frio, e o choque é inevitável e machuca.
Tenho
evitado, ultimamente, me tornar amigo virtual de amigos verdadeiros, parentes
incluídos, que sei que vivem uma realidade muito diferente da minha. Sempre que
tais pessoas se apresentam, me pergunto
se esse meu verdadeiro amigo não será mais um que curte o Bolsonaro e odeia o
Lula. Então não aceito. Prefiro, para o bem da nossa amizade, constatar suas
convicções esporádica e pessoalmente quando nos encontrarmos no mesmo tempo e
no mesmo espaço. O FACEBOOK aproxima amigos que estão em tempos e espaços
distintos. E não sei se torço ou afirmo que isso não leva a nada, não tem
futuro - embora exalte penosamente os
ânimos do momento.
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