quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Casal viaja pelo mundo sem destinos nem datas.



     Esta é a típica crônica sobre notícia de jornal.

     O casal viaja pra Miami, fica lá uma semana, deixa todo seu dinheiro para o Disney e os donos dos hotéis e dos restaurantes locais. Todo o dinheiro que sobrou de um ano de trabalho diário. Porque o dinheiro do avião e o serviço da agência de viagens ainda vai ser pago em prestações no ano que entra...  Os dois prometem roteiros e estilos alternativos nas próximas férias. Aí o jornal publica a notícia de que alguém saiu por aí, leve e solto, e o casal, que nunca se libertará do procedimento medíocre e convencional, no mínimo lê a notícia. 

     É comum os jornais publicarem de vez em quando que fulano largou o emprego, vendeu o carro, e saiu para conhecer o mundo, em viagem tão longa quanto o dinheiro permitir. De bicicleta, ou a pé, ou até de avião ou de carro, mas em modo bem econômico, dormindo em barracas ou albergues, fazendo a própria comida, com o mínimo de badulaques. Esse tipo de aventura desperta o interesse de boa parte dos leitores de jornais, que sonham realizar algo parecido, mas que nunca jamais o farão. Em geral, viajam duas semanas por ano, para locais super conhecidos, gastando e cansando muito. 

     Porém, os aventureiros, também conhecidos como mochileiros, logo são taxados de vagabundos. Deviam arrumar emprego, estudarem, comprarem uma casa, elevarem-se na carreira profissional. Deviam permanecer junto dos familiares e amigos, frequentarem  o clube, comparecerem a todas as efemérides  sociais, como casamentos, aniversários, funerais. Deviam adotar um gato, plantarem uma horta, fazerem um mestrado, terem um filho. Varrerem a calçada todo dia, irem à missa todos os domingos, consolarem os doentes, visitarem o túmulo dos avós... 

     Enquanto isso os aventureiros lá, no bem-bom, egoístas, pensando só no bem-estar pessoal. Experimento esse sentimento quando saio por aí sozinho a caminhar em longas travessias de duas semanas. Deviam permanecer quietos, bem comportados, gastando o dia e a noite em atividades rotineiras de sobrevivência inglória. Ganhando dinheiro e gastando tudo em badulaques, pagando a NET, a COMGÁS, A SABESP, A ELETROPAULO. Cansando da cor das paredes da sala e dos azulejos do banheiro e trocando de carro e de armários e de roupas, num movimento circular sem fim tentando morder o próprio rabo. 

     Mas aqueles viajantes podem ficar um ano fora, voltarem apenas com a roupa do corpo e uma mão na frente e a outra atrás e realizarem tudo o que o modo de vida convencional preconiza. Com chances de serem melhores sucedidos que os acomodados mortais que ficaram a criticá-los, pois, no mínimo, se tornaram mais tolerantes às vicissitudes da vida. E a tolerância é virtude fundamental em qualquer empreitada. Porque um sujeito é tanto mais intolerante quanto mais aferrado ao seu mundo local.  E a tendência de um intolerante é não sair do lugar.

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