Esta é a típica crônica sobre notícia de
jornal.
O casal viaja pra Miami, fica lá uma
semana, deixa todo seu dinheiro para o Disney e os donos dos hotéis e dos
restaurantes locais. Todo o dinheiro que sobrou de um ano de trabalho diário.
Porque o dinheiro do avião e o serviço da agência de viagens ainda vai ser pago
em prestações no ano que entra... Os
dois prometem roteiros e estilos alternativos nas próximas férias. Aí o jornal
publica a notícia de que alguém saiu por aí, leve e solto, e o casal, que nunca
se libertará do procedimento medíocre e convencional, no mínimo lê a notícia.
É comum os jornais publicarem de vez em
quando que fulano largou o emprego, vendeu o carro, e saiu para conhecer o
mundo, em viagem tão longa quanto o dinheiro permitir. De bicicleta, ou a pé,
ou até de avião ou de carro, mas em modo bem econômico, dormindo em barracas ou
albergues, fazendo a própria comida, com o mínimo de badulaques. Esse tipo de
aventura desperta o interesse de boa parte dos leitores de jornais, que sonham realizar
algo parecido, mas que nunca jamais o farão. Em geral, viajam duas semanas por
ano, para locais super conhecidos, gastando e cansando muito.
Porém, os aventureiros, também conhecidos
como mochileiros, logo são taxados de vagabundos. Deviam arrumar emprego,
estudarem, comprarem uma casa, elevarem-se na carreira profissional. Deviam
permanecer junto dos familiares e amigos, frequentarem o clube, comparecerem a todas as
efemérides sociais, como casamentos,
aniversários, funerais. Deviam adotar um gato, plantarem uma horta, fazerem um
mestrado, terem um filho. Varrerem a calçada todo dia, irem à missa todos os
domingos, consolarem os doentes, visitarem o túmulo dos avós...
Enquanto isso os aventureiros lá, no bem-bom,
egoístas, pensando só no bem-estar pessoal. Experimento esse sentimento quando
saio por aí sozinho a caminhar em longas travessias de duas semanas. Deviam
permanecer quietos, bem comportados, gastando o dia e a noite em atividades
rotineiras de sobrevivência inglória. Ganhando dinheiro e gastando tudo em
badulaques, pagando a NET, a COMGÁS, A SABESP, A ELETROPAULO. Cansando da cor
das paredes da sala e dos azulejos do banheiro e trocando de carro e de
armários e de roupas, num movimento circular sem fim tentando morder o próprio
rabo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário