VIOLÊNCIA, pra
mim, é o salário do porteiro, a poluição do Rio Pinheiros. É o que se
faz com o professor e a escola dos pobres. É jogar lixo na rua. É o
vidro fumê dos carros. Violento é um automóvel de 2 toneladas, é o clube
exclusivo, é o restaurante “fino”. Violenta é a fortaleza, a mansão. É a
cerca elétrica, com muro e caco de vidro. É a câmera vigilante e o
holofote que acende na tua cara. Violência, pra mim, é um colar de 10
mil dólares, um relógio de 10 mil dólares, um vestido de 10 mil dólares.
Violência, pra mim, é a agressão paternal, é o muxoxo pro vizinho.
É desdenhar o diferente, é a ignorância da carência. É a indiferença. A
humilhação da esmola. A embromação. Violento é o dono da terra, o dono
da fábrica, o dono da loja, o dono da rua, o dono. Violento é o barulho
do ar condicionado do prédio aqui do lado. Violência é pôr aquela
mocinha pra segurar uma placa na esquina, anunciando imóveis. É deixar
morrer de sede a árvore que a prefeitura plantou na tua calçada.
Violento, pra mim, é o pai que nunca levou o filho ao parque. E violenta
é a família que sempre levou o filho de carro, não permitindo que ele
conhecesse o metrô. Violência é largar uma criança na frente da TV. É
deixá-la só, embora perto. É não incentivar a prática esportiva.
Violento é o lar sem livros. Violência, pra mim, é o analfabetismo
funcional. O colonialismo cultural. O assédio moral. É a felicidade
obrigatória. É o proselitismo religioso, é o pastor na TV, é o padre na
TV, é o governador demagogo.
Violenta é a fumaça dos escapamentos
dos carros, das chaminés das fabricas, dos cigarros nos pulmões. É a
propaganda de bebidas alcoólicas. Violentos são os biscoitos recheados e
os salgadinhos industrializados. Violenta é a bomba de chocolate e a
propaganda de guloseimas. É a substituição da água pela coca-cola.
Violência, pra mim, é negar ao corpo o benefício do suor. É dormir além
da conta. É o desleixo. É a abstinência sexual. Violência é o consumo de
drogas, suicídio parcelado.
Violência, pra mim, é a cerca, é a
cancela, é a segunda porta na entrada dos edifícios. É a lei que proíbe,
é a arma do policial. É a sirene que grita. Violento é o ódio, é o
grito. É o preço do remédio, é o comércio da saúde. Violento é o
oligopólio. É o descaso. O individualismo. Violência, pra mim, é a fome,
a miséria, a desigualdade. Violenta é a oligarquia. É a grosseria.
Violento é o palavrão gratuito. O ataque histérico. E o salário do
Neymar.
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