Estava
eu de bobeira na esquina da Rua Luiz Seraphico Junior com a Rua
Bragança Paulista, em Santo Amaro, quando apareceu um homem nu,
coberto apenas com um sujo cobertor fazendo o papel de capa. Sei que
ele não tinha nenhuma roupa por baixo da capa porque num dado
momento ele escancarou a abertura frontal. E sei também porque o
segurança da casa de show ali da esquina me contou depois.
Era
uma quinta feira, por volta das 5h da tarde. Não havia ninguém na
rua. Somente alguns carros e ônibus passavam. O comércio da região
atende ao povo que gosta da noite. E ainda era dia. O mendigo zanzava
pra lá e pra cá, segurando um saco de plástico cheio nas costas
com uma mão e, com a outra, segurava as abas do cobertor que cobria
seu corpo. O saco continha suas roupas, suponho.
O
segurança se aproximou de mim e puxou conversa, me perguntando se eu
tinha visto o doido, só com o cobertor. Reafirmou que o homem era
doido, que era um perigo, que podia atacar alguém. Em verdade, penso
que o segurança, de longe, desconfiou de mim, e chegou para
averiguar e, se necessário, me afugentar. Eu estava de bermuda,
chinelo, camiseta molambenta, parado na esquina… Chegou perto, viu
que eu estava no time dos homens que não têm necessidade de agir
como doidos, disfarçou. E destampou a me contar histórias de doidos
e mendigos que ele conhecia em sua variada militância de leão de
chácara pelas diversas casas e hotéis da cidade. E faltou pouco
para ele me declarar que a melhor coisa a fazer com tais seres
humanos era matá-los. Desconversei, dizendo que a doidice era uma
maneira de enfrentar a dureza da vida.
Depois
fiquei pensando: o sujeito fica doido e vai morar na rua ou vai morar
na rua e fica doido? Porque um sujeito normal não dura nem uma
semana na rua. Ou morre ou fica doido ou vira bandido. Um ser humano
que perde o direito a um teto particular sofre o mesmo efeito de
alguém que toma uma caixa inteira de pílulas de ódio. E basta
tomar algumas pílulas de ódio para morrer ou ficar doido ou virar
bandido.
Mas
o segurança lá da casa de shows me contou outra, para que eu visse
nele um sujeito esperto (tem gente tão fraca de espírito que
precisa contar vantagens o tempo todo para se autoafirmar). Disse que
tinha uns caras que vendiam relógios pra ele. Que acabara de receber
uma ligação, me mostrando o celular, que um dos vendedores lhe
comunicara que já tinha vendido todos os 20 relógios recebidos. Me
disse, fazendo jeito de cansaço, que dissera ao outro que amanhã
teria mais… Dando uma de sonso, eu perguntei como era aquilo. E
ele, dando uma de ingênuo — ou esperto demais — me disse que
pegava os relógios na Galeria Pagé a R$10; quem vendia seus
relógios deveria lhe pagar R$20. Me disse que, normalmente, os
vendedores vendiam ao consumidor final por R$25, ficando com R$5 de
lucro e ele, atravessador, ficava com R$10 líquidos.
Então,
todas essas relações de poder, de domínio e exploração do homem
pelo homem, de carências absolutas ou relativas, são pílulas de
ódio. Mas você, ô olho grande, que não quer nem saber, que só
quer se dar bem, que se phoda os otários, que já está aí a
esticar o pescoço sobre a rentável e leve intermédia travessa lá
do segurança de Santo Amaro, não vá se metendo a besta não. Sabe
qual o apelido do cara? Pit Bull.