sábado, 21 de outubro de 2017

PÍLULAS DE ÓDIO.

Estava eu de bobeira na esquina da Rua Luiz Seraphico Junior com a Rua Bragança Paulista, em Santo Amaro, quando apareceu um homem nu, coberto apenas com um sujo cobertor fazendo o papel de capa. Sei que ele não tinha nenhuma roupa por baixo da capa porque num dado momento ele escancarou a abertura frontal. E sei também porque o segurança da casa de show ali da esquina me contou depois.
Era uma quinta feira, por volta das 5h da tarde. Não havia ninguém na rua. Somente alguns carros e ônibus passavam. O comércio da região atende ao povo que gosta da noite. E ainda era dia. O mendigo zanzava pra lá e pra cá, segurando um saco de plástico cheio nas costas com uma mão e, com a outra, segurava as abas do cobertor que cobria seu corpo. O saco continha suas roupas, suponho.
O segurança se aproximou de mim e puxou conversa, me perguntando se eu tinha visto o doido, só com o cobertor. Reafirmou que o homem era doido, que era um perigo, que podia atacar alguém. Em verdade, penso que o segurança, de longe, desconfiou de mim, e chegou para averiguar e, se necessário, me afugentar. Eu estava de bermuda, chinelo, camiseta molambenta, parado na esquina… Chegou perto, viu que eu estava no time dos homens que não têm necessidade de agir como doidos, disfarçou. E destampou a me contar histórias de doidos e mendigos que ele conhecia em sua variada militância de leão de chácara pelas diversas casas e hotéis da cidade. E faltou pouco para ele me declarar que a melhor coisa a fazer com tais seres humanos era matá-los. Desconversei, dizendo que a doidice era uma maneira de enfrentar a dureza da vida.
Depois fiquei pensando: o sujeito fica doido e vai morar na rua ou vai morar na rua e fica doido? Porque um sujeito normal não dura nem uma semana na rua. Ou morre ou fica doido ou vira bandido. Um ser humano que perde o direito a um teto particular sofre o mesmo efeito de alguém que toma uma caixa inteira de pílulas de ódio. E basta tomar algumas pílulas de ódio para morrer ou ficar doido ou virar bandido.
Mas o segurança lá da casa de shows me contou outra, para que eu visse nele um sujeito esperto (tem gente tão fraca de espírito que precisa contar vantagens o tempo todo para se autoafirmar). Disse que tinha uns caras que vendiam relógios pra ele. Que acabara de receber uma ligação, me mostrando o celular, que um dos vendedores lhe comunicara que já tinha vendido todos os 20 relógios recebidos. Me disse, fazendo jeito de cansaço, que dissera ao outro que amanhã teria mais… Dando uma de sonso, eu perguntei como era aquilo. E ele, dando uma de ingênuo — ou esperto demais — me disse que pegava os relógios na Galeria Pagé a R$10; quem vendia seus relógios deveria lhe pagar R$20. Me disse que, normalmente, os vendedores vendiam ao consumidor final por R$25, ficando com R$5 de lucro e ele, atravessador, ficava com R$10 líquidos.
Então, todas essas relações de poder, de domínio e exploração do homem pelo homem, de carências absolutas ou relativas, são pílulas de ódio. Mas você, ô olho grande, que não quer nem saber, que só quer se dar bem, que se phoda os otários, que já está aí a esticar o pescoço sobre a rentável e leve intermédia travessa lá do segurança de Santo Amaro, não vá se metendo a besta não. Sabe qual o apelido do cara? Pit Bull.



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