domingo, 29 de janeiro de 2017

CRÔNICA PARAGUAYA

     Só eu faço turismo no Paraguay, é justo que publique os comentários. Muita gente vai a Ciudad del Este, mas não divulgam, porque vão a trabalho e para não dar bandeira à Receita Federal...e também porque só andam uns 500 metros no território e voltam. De fato, atravessei de ônibus o Paraguay, do nascente ao poente, ou seja, de Ciudad del Este a Asunción del oeste. Das margens do Rio Paraná às margens do Rio Paraguay, uns 400 Km. Fiquei uma noite e um dia lá, andei a pé, de ônibus urbano, compartilhei um tereré. Não comi chipa, mas qualquer dia volto lá só pra isso.

TERERÉ & CHIPA.

     Um povo que tem como produtos típicos tereré e chipa só pode ser inteligente. Tereré é uma espécie de chimarrão com água gelada. Chipa é um pão de queijo em forma de argola. Todo mundo anda com uma bolsa a tiracolo contendo el termo, la guampa e la bomba e el mate e el "remédio". A garrafa térmica para manter a água gelada; a guampa é uma ponta de chifre de boi com que se faz uma espécie de copo; a bomba é um canudo de aço inoxidável com filtro, para sorver a infusão. A folha de mate é triturada mais grossa que no chimarrão; acrescenta-se a ela o "remédio": outras ervas medicinais ou aromáticas que curam até dor-de-cotovelo. E segundo um senhor que me ofereceu sua bomba para eu compartilhar seu tereré, esse ato de compartilhamento é chamado u-tereré, na língua guarani. Língua esta que, junto com o espanhol, é oficial no país e todo mundo fala. Ou seja, é um povo bilingue.

     E eu aceitei sugar na bomba que ele acabara de mamar? Claro que aceitei. Evito agressões baratas. E se negar a compartilhar o tereré oferecido por alguém é lá considerada agressão barata, motivo para inimizade eterna. E eu dou um boi para fazer um amigo e uma boiada para conservar sua amizade. Eu, que não sou muito apreciador de chás em geral, gostei. É um líquido delicado, que hidrata e combate o calor. Calor que, no verão, o calor é brabo lá, daí a inteligência do chã gelado. Tive a impressão de que os paraguayos trocam o cigarro pelo chá: ao invés de fumarem para aliviar a tensão, tomam o chá.

     Já a chipa, sei que tem sustança, porque o senhor inglês que ia no ônibus pediu sem titubear quando a vendedora entrou. Quase todas mulheres, vestidas de modo elegante, segurando uma vasilha em forma de bacia contendo as chipas escrupulosamente cobertas com uma toalha de algodão. Ficam na beira da estrada, o ônibus para, elas entram, a viagem continua; lá na frente uns 10 Km elas descem. Tanto onde entram como onde descem, várias chiperias, endereços fixos de fabricação e venda do biscoito. Deve ter o gosto e a sustança daquele biscoitão mineiro que sempre como quando ando na Mantiqueira e que tem em todo boteco. Só falta ao biscoitão mineiro o prestígio e a elegância da chipa.

DEFENSORES DEL CHACO.

     Se "Chaco" te lembra "encharcado", estás na direção certa. A palavra vem do quechua e significa território de caça. Denomina um imenso território que vai do pantanal matogrossense até quase Buenos Aires no sentido norte-sul e das imediações do Rio Paraguay até aos pés da Cordilheira dos Andes, no sentido leste-oeste. Engloba terras de Argentina, Paraguay, Bolívia e Brasil. Bolivia e Paraguay fizeram uma guerra com 100 mil mortos para disputar parte desse território, na década de 1930. Parece que estes últimos se consideraram vitoriosos, daí que em Asunción tem estádio e avenida com esse nome e há outra avenida chamada Médicos del Chaco. Já cruzei boa parte desse território em ambos os sentidos e quando o fiz me senti intimidado pela solidão da imensa planície sem fim e despovoada e a vegetação pobre, seja pelo excesso de água no solo na parte leste, seja pela falta de água na parte oeste, próxima aos Andes. A altitude não passa de 100 metros acima do nível do mar, ali um dia já foi mar de verdade. E quando chove, é um problema, porque a água não escorre: quando o solo fica saturado pela infiltração, o que sobra vira poça ou lagoa. No verão, o clima é quente e úmido e o sol é muito forte. Deve ser por isso que as cidades paraguayas, especialmente as pequenas e médias, parecem mais florestas com casas entremeadas. Quanto mais encorpada a copa da árvore, como as mangueiras, melhor. Nos bairros de classe média as casas aparecem mais, há menos árvores: eles podem comprar aparelhos de ar condicionado...

MUAMBA PARAGUAYA.

     Me pareceu injusta essa má fama paraguaya em relação a tudo que faz ou vende. Até a inspiração e o título da minha crônica é preconceituoso: estou comentando meu turismo paraguaio no Paraguay... Parece que isso se deve a Ciudad del Este, onde a coisa realmente é braba. Mas os modos e os produtos dessa cidade  não representam de jeito nenhum o Paraguay e os brasileiros tem no mínimo metade da culpa pela pantomina. Mas, sem dúvida, há no país um espírito agressivo de liberdade comercial. Como se sabe, o sonho de todo comerciante é abolir todos os limites e respectivos encargos. Então, começamos pelo câmbio: na rodoviária da capital, há inúmeros quiosques, com placa e tudo, que trocam a moeda estrangeira pelo Guarani. Um real compra 1600 guaranis. Na Rua Dr. Francia e arredores há um mercado - equivalente à 25 de março paulistana - onde esse  paroxismo comercial atingiu níveis assustadores: as lojas ocuparam a calçada e parte da rua com puxadinhos precários, coberturas de folhas de zinco, dando a impressão de uma enorme favela comercial. Contudo, acho que nenhum turista passa ali, exceto aqueles que andam de ônibus misturados à população local, como eu. Parece que, de propósito, todas as linhas da cidade passam ali para ir e pra voltar. O trânsito é atravancado numa única faixa de rolamento a toda hora interrompida por manobras as mais diversas. Os coletivos andam com as portas abertas, vendedores ambulantes entram e saem a toda hora, como tentáculos do grande molusco comercial que envolve e lambe até os potenciais consumidores motorizados. Ao menos, em Ciudad del Este, acho que um Kassab e sua lei cidade limpa ia bem. E uma sutileza em meio à largueza: o custo da passagem do ônibus é 3 mil guaranis se tiver ar condicionado e 2 mil se não tiver. E há duas catracas, uma na entrada e outra na saída, para evitar espertezas de toda sorte.

LÍNGUA & VOCABULÁRIO.

     Você cumprimenta com um holla (orra) e eles respondem: holla, que tal? Esse 'que tal' é muito menos que o nosso 'como vai?' ou 'tudo bem?'; é quase um simples 'oi'. Já 'comandância' é muito mais apropriada que a nossa 'superintendência', não acham? Mas se o imóvel está à venda direto com o proprietário, então, curto e grosso, 'dueño vende'. E 'comedor' é onde se come, uai! Carro é coche e vaga para estacionar o coche é o quê? Cochera, é claro! Quanto a pedágio, a palavra é 'peaje', algo incompleta, quase infantil. Mas onde se lava carro é no lavadero, muito melhor que o palavrão composto português. E onde se compra carne? Na carniceria...! E onde se corta os pelos? Na peluqueria, é óbvio. E onde se compra secos & molhados, ferragens, louças, etc.? Simples: na Despensa. E onde se conserta a goma furada? Na Gomeria. Goma é pneu ou câmara de ar, enfim, borracha. Já dulce me pareceu muito mais doce do que a nossa doce. Mas a palavra mais linda denomina o lago  onde en  "Una noche tibia nos conocimos/Junto al agua azul de ypacaraí/Tú cantabas triste por el camino/Viejas melodías en guaraní": Ypacaraí, o Lago do Senhor.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

PÍLULAS DE AMOR

O SMARTPHONE NO CAFÉ DA MANHÃ

Havia deitado tarde, agora não conseguia levantar. Já estava atrasada. O relógio de ponto não tergiversava. Pior é que o relógio de ponto não era macho nem patrão, era máquina. E controlado por uma mulher. Mulher e assalariada, como ela. Não servia usar a luta de classes nem o machismo como desculpa. Finalmente conseguiu se pôr de pé, já estava atrasada. Viu o smartphone, caminhou para ele...

— N Ã O !!!! — alguém gritou em seu ouvido.

— Não toque nele! — continuou a voz — passe reto, passe reto !!!

— Vai pra cozinha, toma pelo menos um café preto, come uma bolacha, antes de mexer nesse gadget... — ponderou a voz, já mais calma.

O SMARTPHONE NO ALMOÇO

"Josué, traz um lanche pra mim" (digitado no whatsapp)

"A senhora não vem hoje? Hoje tá bom, tem berinjela, arroz integral, couve, rúcula..." (whatsapp)

"Não tenho tempo. Fiquei aqui atualizando meus grupos e conversas e passou o horário" (whatsapp).

     Chega o lanche, ela vai comer na copa. Sobre a mesinha, põe o sanduíche do lado esquerdo e o smartphone do direito. Vai começar a comer mas, antes, pega o aparelho e

— N Ã O !!! — ouviu a mesma voz gritando novamente — larga isso. Você já não foi almoçar... Não faça da alimentação algo acessório.

O SMARTPHONE NO JANTAR

     Também saiu atrasada do trabalho, toda esbaforida, com a bolsa no ombro e mais duas sacolas: uma na mão esquerda e  outra pendurada no V oposto ao cotovelo, formado pelo antebraço flexionado, cuja mão direita segurava e manipulava o smartphone.

     A padaria perto da sua casa fechara, não aguentou a concorrência do supermercado — que pena — entrou e foi direto pro fundo pegar pão de forma, presunto e muzzarela e

— N Ã O !! — de novo aquela voz — pão com presunto e queijo outra vez não. Você já comeu isso ontem, antes de ontem, tresantontem... cozinha um grão, um legume, descasca uma fruta... leva arroz, feijão, ovo... óleo, sal, cebola...alho.

O SMARTPHONE NA HORA DE DORMIR

     Comeu seu misto frio e foi pro celular. Depois de navegar por uma hora, lembrou que tinha de tomar banho. Tomou banho rápido e voltou pro celular. Lá pelas onze horas da noite, largou o celular e

— N Ã O ! — não toque nessa TV. A série dura quatro horas. Era menos pior no tempo da novela, que durava só 50 minutos. Você nunca vai conseguir vencer a Netflix. A cada série que você assistir, ela lançará mais dez, cada uma mais intrigante e surpreendente que a outra...

— N Ã O faça do seu sono algo também secundário, como já fez com suas refeições, seu banho e seus dentes.

— DESAPEGA, menina!

sábado, 14 de janeiro de 2017

CRÔNICA CONTIDA

     Sou um cronista crônico. Escrevo,  apesar da indiferença. E acho que tudo pode ser resumido numa sequência de ês.  Aparecê, sorvê, cumê e crescê;   lê, aprendê, escrevê e corrê;    fodê, bebê, perdê (ou vendê) e sofrê;    amolecê, adoecê, encolhê e anoitecê.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

URGÊNCIA NO NOIVADO

(Uma moça linda e saudável, um noivo feio e saudável...)

     Dia desses, em plena calçada d'Avenida Paulista, encontrei a filha de ex-colega. Quem diria, aquela menininha de então, agora um mulherão. Grande e linda. Junto com o namorado. Ops, noivo.

—  Estamos noivos há 7 meses, ainda faltam 218 dias para o casamento, ai, estou tão ansiosa, não vejo a hora - me contou ela, exultante e carente, indicando o marmanjo que a acompanhava.

 — 218 dias e 4 horas e — olhou no relógio do celular — 32 minutos — acrescentou o marmanjo que a acompanhava, demonstrando o mesmo entusiasmo e a mesma carência.

     Acrescente-se que a moça tem 29 anos. Sei, porque me lembro de quando ela nasceu. O moço deve estar por aí, também. A conversa não durou muito, é sempre embaraçante esses encontros fortuitos entre pessoas pouco relacionadas entre si, ainda mais em SP, onde todos temos o tempo contado.

     Uma moça linda e saudável, sozinha com o noivo feio e saudável, em meio à multidão de possibilidades e alternativas do centro do centro do Brasil. Ano 17 do século 21. Uma mulher de 29 anos, curso superior completo, creio que o homem também. Ansiosos pela (não viam a hora de chegar a) noite de núpcias.

     Bom, uma mulher assim não pode mais estar ansiosa pela noite de núpcias (mas, faço uma concessão e admito). Já, um homem assim, nunca houve, é ridículo: se espera sua própria primeira noite ou se espera a primeira noite dela, se está ansioso, se não vê a hora... Atenta contra sua própria natureza...ativa! Sendo que há muito que as mulheres de 29 anos deixaram de ser passivas. (já disse, estou lendo "O segundo sexo", da Simone de Beauvoir, cuidado! ela é demolidora).

     A virgindade e a noite de núpcias faziam sentido no século XIV, quando era quase impossível um jovem e uma jovem ficarem sozinhos antes do casamento. Porque quando ela e ele ficam sós, seja lá no século XIV, seja agora, não tem quem segura, ressalvada a dissimulação.

     Enfim, conhecendo bem o berimbau e a gaita, e rindo muito desses noivados tão longos, desses virgens tão puros, dessas bodas tão longa e antecipadamente planejadas — e desconfiado de que quanto mais denso o ritual, mais ralo o milharal —, desejo muitas felicidades aos nubentes...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

SOU DE HUMANAS

(Aliviado, tive a impressão que ele babava, quando entrou no carro)

     Não gosto da expressão 'sou de humanas'. Prefiro 'sou humanista'. Até porque, um humanista pode ser de exatas. Alguém que saiba gramática e goste de matemática só pode ser um cara legal. Gosto dos ecléticos, mas desconfio dos ecumênicos. Quanto aos ortodoxos, dia desses enfrentei um.

     Perambulava pela garagem do condomínio quando vi uma bicicleta com três cadeados. Um deles prendia um cabo que passava pela roda da frente e se enroscava pelo garfo e o guidão; um outro prendia outro cabo que segurava a roda traseira, a corrente e o selim; e o outro prendia uma corrente grossa que amarrava a bicicleta à coluna do prédio. Por coincidência, enquanto eu olhava, chegou o dono da vaga. Acho que ia trabalhar, vestia traje social completo e rigoroso, cabelo sem nenhum fio fora do lugar, barba escanhoada, parecia que ia para o próprio casamento, como diria meu avô. Conheço-o pouco, sei que é muito religioso, tem mais ou menos a minha idade e altura e uns 40 quilos a mais. Eu estava indignado com a quantidade de cadeados da bici mas, ao contrário do que fiz com a ciclista desavisada da Rafael de Barros, com quem dialoguei algum tempo atrás, preferi com esse, por prudência, dialogar só na ficção:

— Pô, meu! Três trancas?! — indaguei, olhando pra ele com firmeza e estendendo a mão espalmada no rumo da bici, como se tivesse acabado de lançar milho aos pombos.

— É, prevenção. Há muito roubo de bike — respondeu ele, surpreso com minha atrevida abordagem.
— Mas precisava três cadeados? — continuei.

— Eu poderia usar uma corrente maior que prendesse todos os itens juntamente com a coluna e usar apenas um cadeado, mas tem bandido que consegue abrir cadeado. Com três, ele desanima e vai numa bike mais desprotegida — respondeu ele, deixando-me atônito, porque vi que ele estava induzindo e direcionando o 'bandido' para a minha doce Bicy, que fica ali perto, totalmente livre. Mas não acusei o golpe e continuei:

— Mas aqui é área interna, só passam os moradores do prédio. Você acha que tem bandido morando no prédio?

— O prédio é grande, nunca se sabe...

— Quer dizer que todos nós somos suspeitos? inquiri-o, firme, mas calmo.

— Não é bem assim... é que eu prefiro orar e vigiar — respondeu ele, meio sem graça.

— Que  o  senhor  vigia, estou  vendo. Mas  não  sabia que o senhor orava  — respondi meio sarcástico.

— Oro sim. Sou crente metodista kardecista católico ortodoxo do opus dei — informou-me ele, sentindo-se revigorado. E antes que eu continuasse com meu sarcasmo, continuou ele:
— Ajudo a servir a hóstia aos domingos e distribuo sopa toda quarta aos mendigos da Praça da Sé —  me revigorando na contenda, com tal resposta. Primeiro pensei que meu interlocutor era uma espécie de compadre Quelemém do Riobaldo, para depois retrucar:

— Tô entendendo. O senhor carrega dentro de si desconfiança e culpa. Aliás, é a culpa que leva à desconfiança e à benemerência. O senhor tem muita fé em Deus e nenhuma fé na Humanidade.

— Alto lá — retrucou ele — cumpro todas as leis e faço caridade. Tenho a consciência tranquila — me dirigindo um olhar desafiador. Então eu vi os dois carrões enormes em sua vaga dupla e arrisquei:

— O senhor não tem nenhuma multa de trânsito? Nunca fez gambiarra no Imposto de Renda?

— Peraí!! O senhor está me desrespeitando! — ameaçou ele.

— O senhor me desrespeitou primeiro.

— Como assim?
— Suspeitou que eu pudesse roubar sua bicicleta.

— Quando eu disse isso?

— Lá no começo da nossa conversa. Mais que suspeito, o senhor me considera culpado. Para o senhor, todos somos culpados, até prova em contrário.

— Só Cristo salva — retrucou ele, apoplético, com as veias do pescoço estufadas e os olhos arregalados e vermelho como um tomate, em posição de enfrentar e expulsar o Satanás. Então respondi, num tom mais baixo, para conter as labaredas:

— Acabo de entender o sentido exato dessa frase, que também vejo colada no vidro do seu carro. Na frase, 'Cristo' é objeto. De todos nós vagabundos safados, só Cristo salva. Todos somos culpados, só Cristo não é culpado. O senhor é coerente com suas três trancas... — ao que ele me deixou falando sozinho, após balbuciar algo ininteligível. Aliviado, tive a impressão que ele babava, quando entrou no carro. Saiu cantando os pneus, com seu SUV de três toneladas e três mil e quinhentos cavalos; e blindado, a julgar pelo ronco do motor ao subir a rampa de acesso à rua. Fazer o quê?  Apesar de chato, sei alguma coisa de Sintaxe, com especialização em Trigonometria. Livre-pensar é só pensar, como dizia o Millôr. Se, mais que suspeitos, todos somos culpados, faz sentido a truculência da polícia, a pena de morte, o porte de armas, a ira contra os dos 'direitos humanos', a ausência de democracia... Certamente ele responderia que não tenho Salvação. E é verdade, porque Salvação é um conceito anti-humanista.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

MEUS PECADOS VENIAIS*

     Xingar a mãe é pecado mortal ou pecado venial? E lembrar da vizinha com pensamentos libidinosos? Xingar a mãe fere o quarto mandamento, mas a mãe é mulher, então creio que é só um pecado venial. Mortal seria xingar o pai. Afinal a Igreja (e quase todas as demais religiões, me parece) considera a mulher muito menos importante do que o homem. Mas nem sempre ela, a Igreja, nos favorece. Por exemplo, o nono mandamento: nós homens não podemos desejar a mulher do próximo; mas as mulheres podem desejar o homem da próxima à vontade. Sim, o que não está escrito não é proibido; junte-se que há um regulamento específico para o sexo oposto (nós homens). Advogo uma constituinte para, dentre outros, revogar tal injustiça. Ou proibir pras mulheres também!

     E matar passarinhos é o quê? Venial ou mortal? Acho que é venial,  porque o padre Ramon sempre me perdoava, mediante apenas um padre-nosso e três ave-marias (mas o pecado de xingar a mãe ele nunca ficou sabendo que eu cometia, porque nunca confessei, tinha medo, achava que iria passar a tarde inteira ajoelhado e contrito rezando padre-nossos e ave-marias). Só que agora - com essa esquizofrenia próbicho de pagar plano de saúde pro cachorro, fazer enterro do gato, dar nome de gente pra  bicharada, conversar com eles, chamá-los de benzinho, querido, chamar de eutanásia ao ato de matar bicho doente -, matar bicho deve ser pecado mortal, à luz do quinto mandamento, frangos e bois e porcos à parte.

     Mas a radicalização do virtual é coisa do Cristo, sabiam? Antes, no tempo dos judeus, só era pecado agarrar a mulher do próximo, chegar às vias de fato. Então veio Cristo e disse: nãnãninanão!  - Só de pensar você já tá pecando.(porque Cristo era um puro). Mas não precisava radicalizar assim. Veja bem, Meu Senhor: o pensamento não tem cerca. Se a mulher do próximo faz por merecer, fazer o quê? Sendo que esse cidadão libidinoso será incurso também nos pecados da Luxúria e da Inveja. E da Gula. Isso ainda que permaneça a vida inteira lá quietinho, no seu arroz-com-feijão, nunca um mexilhão acebolado, nenhuma bicada fora do cocho. Só que Cristo está mais atual que nunca: todos os conjuges consideram traição o sexo virtual, esse da internet, assim de longe, só pensado. O vilão é o desejo, minha gente!

     E essa classificação dos pecados serve pra quê? Pra facilitar a vida do porteiro da morada eterna. Deve haver uma tabela com pontos: o nº de pontos de cada alma determina seu destino: o Céu, o Inferno ou o Purgatório. Mas essa política do catecismo católico sofreu um baque forte com o advento do grande poema do Dante, há uns 600 anos. É que, até então, a capacidade motivadora do Céu sobre o Inferno era inquestionável, uma disputa desigual assim como comparar Vila Mariana com Guaianazes. Aí Dante descreveu direitinho todo aquele mundo além da morte e muita gente descobriu que o Céu é o mais chato dos três tomos. Então saíram pecando consciente e adoidadamente, pra não amargarem aquela pasmaceira eterna.

     Peraí. Sério que gostar muito de manjar de maizena com calda de caramelo, coco ralado e ameixa por cima é pecado? Gostar muito da transação carnal rica e variada? É sim. Explico: gostar muito é a mesma coisa que adorar, certo? E Deus não gosta que a gente adore nem odeie nada nem ninguém, exceto Ele. Para as coisas mundanas, devemos ter temperança. Só com Ele devemos ser fanáticos. Isso me lembra as aulas de catecismo, quando eu e meus colegas discutíamos com naturalidade quais os pecados mortais e os veniais, assim como fazíamos, nas aulas de português, com as orações subordinadas sindéticas e assindéticas. Porra, eu tenho temperança com Deus e fanatismo com os pudins...carajo!

* Esta crônica serviu para eu aprender que venial vem de vênia (desculpa, perdão) e não do verbo vender.

domingo, 1 de janeiro de 2017

O FIM DO MUNDO

VEJO NO VIDRO.
  
      Estou convencido de que o fim está próximo. Consulto o movimento das nuvens, o voo dos pássaros, a faina dos vendedores ambulantes, a pressa dos pedestres, a histeria dos motoristas. Ausculto as veias abertas da cidade, seus meandros, seus detalhes, seus anjos caídos trabalhando de estátua, de malabaristas, dublando e vendendo seus próprios CD's, pregando, trombando, cantando de verdade. Uma multidão de artistas mal aproveitados, Caveirinha canta desafinado música caipira ali no começo da 15 de novembro:  - se quiser filmar ou fotografar, deixe uma moeda, que minha figura exótica autoexposta na rua é pra isso mesmo, minha sordidez é meu ganha-pão; e aproveito pra avisar que esta minha pobre performance estará no programa da Patrícia no SBT dia 2.

     O fim está próximo(e sei que essa é uma fórmula fácil de fazer sucesso), é ali embaixo, na várzea do Anhangabaú com o Tamanduateí, onde, no final dos tempos, os fiéis e os infiéis se misturavam numa suruba a céu aberto, sobre os regos encobertos e com os auspícios da prefeitura. É! Guardas civis e policiais da PM  protegem, enquanto aproveitam a patrulha para dar uma olhadinha nesse bumerangue que pisca, naquele bonequinho que ri, na carne fresca de frango baratinha que estão vendendo apressados ali no chão da calçada da esquina da Carlos de Souza Nazaré, nos óculos, nas bolas, nas camisetas da seleção, nos brinquedos de um dia, nas bijuterias. Nas teletelas várias que te vigiam e nos displays que te sugam desta realidade carnal para a inanição da vida de vidro.
 
     Se fosse só em São Paulo 'tava bom. Ainda que grande, é minoria e o planeta estaria a salvo. Mas a maioria das pessoas, nos quatro cantos do país, está sob a influência dos produtos e do espírito da Ladeira Porto Geral. Sou capaz de apostar que em Sananduva, interior do Rio Grande do Sul, ou em Lagoa Alegre, Piaui, tem uma sacoleira da 25 de março. Em todas as capitais há uma praça ou uma região que funciona nos moldes desse furdunço. E o que é que vendem? Vendem produtos de escandalosas virtudes, quase todas frágeis -quebráveis-, que só servem para atravancar a vida e drenar o bolso e fazer a economia funcionar e o lixão aumentar. O consumo e o descarte desses produtos me lembram Penélope, que tecia de dia e desfazia de noite, só para enrolar o tempo e os venais ao redor.

     Mas o mundo está-se acabando, vejo claramente,  porque além de vender, estão comprando. É impressionante a proliferação de compradores de consciências, de opiniões, de vontades e votos:  é um profeta que te protegerá no dia do juízo final, é uma simpática militante do greenpeace que te convida a salvar o planeta, é uma família vestida de verdeamarelo que te avisa que fora da moral e dos bons costumes não há salvação, é um vegano que te excomunga, é um homofóbico que te xinga, é um gay que te desqualifica, é uma feminista que te esclarece, é um racionalista cristão, é um materialista histórico, é um anacrônico maçom, é um cientista político, é um ressuscitado da TFP, é um corretor de voluntariado, é um vendedor de palestras, é um salvador da pátria,  é um cronista...

     Antes só uma meia dúzia queria me comprar, um sindicato aqui, um partido ali, dois ou três jornais, a FIESP, o Rotary, a Globo, o arcebispo e só quatro montadoras de automóveis. E os pregões eram realizados após cansativas reuniões preparatórias, custosos anúncios e a autorização do coronel. O mundo girava pacato, sonolento e seguro. Agora, qualquer sítio virtual organiza e convoca pregões de toda natureza, sem custo ou burocracia. E assim, em todas as praças das enormes cidades,  sou requerido a me vender, e minha alienação é imprescindível - me intimam e ameaçam -  para salvar a Gomorra ali instalada. Sou imprescindível? Então fudeu,  porque sou muito, muito caro. E lento. E fiquem tranquilos: vou-me acabando e termino ali por 2050, se tudo correr bem.