quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

PÍLULAS DE AMOR

O SMARTPHONE NO CAFÉ DA MANHÃ

Havia deitado tarde, agora não conseguia levantar. Já estava atrasada. O relógio de ponto não tergiversava. Pior é que o relógio de ponto não era macho nem patrão, era máquina. E controlado por uma mulher. Mulher e assalariada, como ela. Não servia usar a luta de classes nem o machismo como desculpa. Finalmente conseguiu se pôr de pé, já estava atrasada. Viu o smartphone, caminhou para ele...

— N Ã O !!!! — alguém gritou em seu ouvido.

— Não toque nele! — continuou a voz — passe reto, passe reto !!!

— Vai pra cozinha, toma pelo menos um café preto, come uma bolacha, antes de mexer nesse gadget... — ponderou a voz, já mais calma.

O SMARTPHONE NO ALMOÇO

"Josué, traz um lanche pra mim" (digitado no whatsapp)

"A senhora não vem hoje? Hoje tá bom, tem berinjela, arroz integral, couve, rúcula..." (whatsapp)

"Não tenho tempo. Fiquei aqui atualizando meus grupos e conversas e passou o horário" (whatsapp).

     Chega o lanche, ela vai comer na copa. Sobre a mesinha, põe o sanduíche do lado esquerdo e o smartphone do direito. Vai começar a comer mas, antes, pega o aparelho e

— N Ã O !!! — ouviu a mesma voz gritando novamente — larga isso. Você já não foi almoçar... Não faça da alimentação algo acessório.

O SMARTPHONE NO JANTAR

     Também saiu atrasada do trabalho, toda esbaforida, com a bolsa no ombro e mais duas sacolas: uma na mão esquerda e  outra pendurada no V oposto ao cotovelo, formado pelo antebraço flexionado, cuja mão direita segurava e manipulava o smartphone.

     A padaria perto da sua casa fechara, não aguentou a concorrência do supermercado — que pena — entrou e foi direto pro fundo pegar pão de forma, presunto e muzzarela e

— N Ã O !! — de novo aquela voz — pão com presunto e queijo outra vez não. Você já comeu isso ontem, antes de ontem, tresantontem... cozinha um grão, um legume, descasca uma fruta... leva arroz, feijão, ovo... óleo, sal, cebola...alho.

O SMARTPHONE NA HORA DE DORMIR

     Comeu seu misto frio e foi pro celular. Depois de navegar por uma hora, lembrou que tinha de tomar banho. Tomou banho rápido e voltou pro celular. Lá pelas onze horas da noite, largou o celular e

— N Ã O ! — não toque nessa TV. A série dura quatro horas. Era menos pior no tempo da novela, que durava só 50 minutos. Você nunca vai conseguir vencer a Netflix. A cada série que você assistir, ela lançará mais dez, cada uma mais intrigante e surpreendente que a outra...

— N Ã O faça do seu sono algo também secundário, como já fez com suas refeições, seu banho e seus dentes.

— DESAPEGA, menina!

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