Estou convencido de que o fim está próximo. Consulto o movimento das nuvens, o voo dos pássaros, a faina dos vendedores ambulantes, a pressa dos pedestres, a histeria dos motoristas. Ausculto as veias abertas da cidade, seus meandros, seus detalhes, seus anjos caídos trabalhando de estátua, de malabaristas, dublando e vendendo seus próprios CD's, pregando, trombando, cantando de verdade. Uma multidão de artistas mal aproveitados, Caveirinha canta desafinado música caipira ali no começo da 15 de novembro: - se quiser filmar ou fotografar, deixe uma moeda, que minha figura exótica autoexposta na rua é pra isso mesmo, minha sordidez é meu ganha-pão; e aproveito pra avisar que esta minha pobre performance estará no programa da Patrícia no SBT dia 2.
O fim está próximo(e sei que essa é uma fórmula fácil de fazer sucesso), é ali embaixo, na várzea do Anhangabaú com o Tamanduateí, onde, no final dos tempos, os fiéis e os infiéis se misturavam numa suruba a céu aberto, sobre os regos encobertos e com os auspícios da prefeitura. É! Guardas civis e policiais da PM protegem, enquanto aproveitam a patrulha para dar uma olhadinha nesse bumerangue que pisca, naquele bonequinho que ri, na carne fresca de frango baratinha que estão vendendo apressados ali no chão da calçada da esquina da Carlos de Souza Nazaré, nos óculos, nas bolas, nas camisetas da seleção, nos brinquedos de um dia, nas bijuterias. Nas teletelas várias que te vigiam e nos displays que te sugam desta realidade carnal para a inanição da vida de vidro.
Se fosse só em São Paulo 'tava bom. Ainda que grande, é minoria e o planeta estaria a salvo. Mas a maioria das pessoas, nos quatro cantos do país, está sob a influência dos produtos e do espírito da Ladeira Porto Geral. Sou capaz de apostar que em Sananduva, interior do Rio Grande do Sul, ou em Lagoa Alegre, Piaui, tem uma sacoleira da 25 de março. Em todas as capitais há uma praça ou uma região que funciona nos moldes desse furdunço. E o que é que vendem? Vendem produtos de escandalosas virtudes, quase todas frágeis -quebráveis-, que só servem para atravancar a vida e drenar o bolso e fazer a economia funcionar e o lixão aumentar. O consumo e o descarte desses produtos me lembram Penélope, que tecia de dia e desfazia de noite, só para enrolar o tempo e os venais ao redor.
Mas o mundo está-se acabando, vejo claramente, porque além de vender, estão comprando. É impressionante a proliferação de compradores de consciências, de opiniões, de vontades e votos: é um profeta que te protegerá no dia do juízo final, é uma simpática militante do greenpeace que te convida a salvar o planeta, é uma família vestida de verdeamarelo que te avisa que fora da moral e dos bons costumes não há salvação, é um vegano que te excomunga, é um homofóbico que te xinga, é um gay que te desqualifica, é uma feminista que te esclarece, é um racionalista cristão, é um materialista histórico, é um anacrônico maçom, é um cientista político, é um ressuscitado da TFP, é um corretor de voluntariado, é um vendedor de palestras, é um salvador da pátria, é um cronista...
Antes só uma meia dúzia queria me comprar, um sindicato aqui, um partido ali, dois ou três jornais, a FIESP, o Rotary, a Globo, o arcebispo e só quatro montadoras de automóveis. E os pregões eram realizados após cansativas reuniões preparatórias, custosos anúncios e a autorização do coronel. O mundo girava pacato, sonolento e seguro. Agora, qualquer sítio virtual organiza e convoca pregões de toda natureza, sem custo ou burocracia. E assim, em todas as praças das enormes cidades, sou requerido a me vender, e minha alienação é imprescindível - me intimam e ameaçam - para salvar a Gomorra ali instalada. Sou imprescindível? Então fudeu, porque sou muito, muito caro. E lento. E fiquem tranquilos: vou-me acabando e termino ali por 2050, se tudo correr bem.
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