domingo, 29 de janeiro de 2017

CRÔNICA PARAGUAYA

     Só eu faço turismo no Paraguay, é justo que publique os comentários. Muita gente vai a Ciudad del Este, mas não divulgam, porque vão a trabalho e para não dar bandeira à Receita Federal...e também porque só andam uns 500 metros no território e voltam. De fato, atravessei de ônibus o Paraguay, do nascente ao poente, ou seja, de Ciudad del Este a Asunción del oeste. Das margens do Rio Paraná às margens do Rio Paraguay, uns 400 Km. Fiquei uma noite e um dia lá, andei a pé, de ônibus urbano, compartilhei um tereré. Não comi chipa, mas qualquer dia volto lá só pra isso.

TERERÉ & CHIPA.

     Um povo que tem como produtos típicos tereré e chipa só pode ser inteligente. Tereré é uma espécie de chimarrão com água gelada. Chipa é um pão de queijo em forma de argola. Todo mundo anda com uma bolsa a tiracolo contendo el termo, la guampa e la bomba e el mate e el "remédio". A garrafa térmica para manter a água gelada; a guampa é uma ponta de chifre de boi com que se faz uma espécie de copo; a bomba é um canudo de aço inoxidável com filtro, para sorver a infusão. A folha de mate é triturada mais grossa que no chimarrão; acrescenta-se a ela o "remédio": outras ervas medicinais ou aromáticas que curam até dor-de-cotovelo. E segundo um senhor que me ofereceu sua bomba para eu compartilhar seu tereré, esse ato de compartilhamento é chamado u-tereré, na língua guarani. Língua esta que, junto com o espanhol, é oficial no país e todo mundo fala. Ou seja, é um povo bilingue.

     E eu aceitei sugar na bomba que ele acabara de mamar? Claro que aceitei. Evito agressões baratas. E se negar a compartilhar o tereré oferecido por alguém é lá considerada agressão barata, motivo para inimizade eterna. E eu dou um boi para fazer um amigo e uma boiada para conservar sua amizade. Eu, que não sou muito apreciador de chás em geral, gostei. É um líquido delicado, que hidrata e combate o calor. Calor que, no verão, o calor é brabo lá, daí a inteligência do chã gelado. Tive a impressão de que os paraguayos trocam o cigarro pelo chá: ao invés de fumarem para aliviar a tensão, tomam o chá.

     Já a chipa, sei que tem sustança, porque o senhor inglês que ia no ônibus pediu sem titubear quando a vendedora entrou. Quase todas mulheres, vestidas de modo elegante, segurando uma vasilha em forma de bacia contendo as chipas escrupulosamente cobertas com uma toalha de algodão. Ficam na beira da estrada, o ônibus para, elas entram, a viagem continua; lá na frente uns 10 Km elas descem. Tanto onde entram como onde descem, várias chiperias, endereços fixos de fabricação e venda do biscoito. Deve ter o gosto e a sustança daquele biscoitão mineiro que sempre como quando ando na Mantiqueira e que tem em todo boteco. Só falta ao biscoitão mineiro o prestígio e a elegância da chipa.

DEFENSORES DEL CHACO.

     Se "Chaco" te lembra "encharcado", estás na direção certa. A palavra vem do quechua e significa território de caça. Denomina um imenso território que vai do pantanal matogrossense até quase Buenos Aires no sentido norte-sul e das imediações do Rio Paraguay até aos pés da Cordilheira dos Andes, no sentido leste-oeste. Engloba terras de Argentina, Paraguay, Bolívia e Brasil. Bolivia e Paraguay fizeram uma guerra com 100 mil mortos para disputar parte desse território, na década de 1930. Parece que estes últimos se consideraram vitoriosos, daí que em Asunción tem estádio e avenida com esse nome e há outra avenida chamada Médicos del Chaco. Já cruzei boa parte desse território em ambos os sentidos e quando o fiz me senti intimidado pela solidão da imensa planície sem fim e despovoada e a vegetação pobre, seja pelo excesso de água no solo na parte leste, seja pela falta de água na parte oeste, próxima aos Andes. A altitude não passa de 100 metros acima do nível do mar, ali um dia já foi mar de verdade. E quando chove, é um problema, porque a água não escorre: quando o solo fica saturado pela infiltração, o que sobra vira poça ou lagoa. No verão, o clima é quente e úmido e o sol é muito forte. Deve ser por isso que as cidades paraguayas, especialmente as pequenas e médias, parecem mais florestas com casas entremeadas. Quanto mais encorpada a copa da árvore, como as mangueiras, melhor. Nos bairros de classe média as casas aparecem mais, há menos árvores: eles podem comprar aparelhos de ar condicionado...

MUAMBA PARAGUAYA.

     Me pareceu injusta essa má fama paraguaya em relação a tudo que faz ou vende. Até a inspiração e o título da minha crônica é preconceituoso: estou comentando meu turismo paraguaio no Paraguay... Parece que isso se deve a Ciudad del Este, onde a coisa realmente é braba. Mas os modos e os produtos dessa cidade  não representam de jeito nenhum o Paraguay e os brasileiros tem no mínimo metade da culpa pela pantomina. Mas, sem dúvida, há no país um espírito agressivo de liberdade comercial. Como se sabe, o sonho de todo comerciante é abolir todos os limites e respectivos encargos. Então, começamos pelo câmbio: na rodoviária da capital, há inúmeros quiosques, com placa e tudo, que trocam a moeda estrangeira pelo Guarani. Um real compra 1600 guaranis. Na Rua Dr. Francia e arredores há um mercado - equivalente à 25 de março paulistana - onde esse  paroxismo comercial atingiu níveis assustadores: as lojas ocuparam a calçada e parte da rua com puxadinhos precários, coberturas de folhas de zinco, dando a impressão de uma enorme favela comercial. Contudo, acho que nenhum turista passa ali, exceto aqueles que andam de ônibus misturados à população local, como eu. Parece que, de propósito, todas as linhas da cidade passam ali para ir e pra voltar. O trânsito é atravancado numa única faixa de rolamento a toda hora interrompida por manobras as mais diversas. Os coletivos andam com as portas abertas, vendedores ambulantes entram e saem a toda hora, como tentáculos do grande molusco comercial que envolve e lambe até os potenciais consumidores motorizados. Ao menos, em Ciudad del Este, acho que um Kassab e sua lei cidade limpa ia bem. E uma sutileza em meio à largueza: o custo da passagem do ônibus é 3 mil guaranis se tiver ar condicionado e 2 mil se não tiver. E há duas catracas, uma na entrada e outra na saída, para evitar espertezas de toda sorte.

LÍNGUA & VOCABULÁRIO.

     Você cumprimenta com um holla (orra) e eles respondem: holla, que tal? Esse 'que tal' é muito menos que o nosso 'como vai?' ou 'tudo bem?'; é quase um simples 'oi'. Já 'comandância' é muito mais apropriada que a nossa 'superintendência', não acham? Mas se o imóvel está à venda direto com o proprietário, então, curto e grosso, 'dueño vende'. E 'comedor' é onde se come, uai! Carro é coche e vaga para estacionar o coche é o quê? Cochera, é claro! Quanto a pedágio, a palavra é 'peaje', algo incompleta, quase infantil. Mas onde se lava carro é no lavadero, muito melhor que o palavrão composto português. E onde se compra carne? Na carniceria...! E onde se corta os pelos? Na peluqueria, é óbvio. E onde se compra secos & molhados, ferragens, louças, etc.? Simples: na Despensa. E onde se conserta a goma furada? Na Gomeria. Goma é pneu ou câmara de ar, enfim, borracha. Já dulce me pareceu muito mais doce do que a nossa doce. Mas a palavra mais linda denomina o lago  onde en  "Una noche tibia nos conocimos/Junto al agua azul de ypacaraí/Tú cantabas triste por el camino/Viejas melodías en guaraní": Ypacaraí, o Lago do Senhor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário