(Uma moça linda e saudável, um noivo feio e saudável...)
Dia desses, em plena calçada d'Avenida Paulista, encontrei a filha de ex-colega. Quem diria, aquela menininha de então, agora um mulherão. Grande e linda. Junto com o namorado. Ops, noivo.
— Estamos noivos há 7 meses, ainda faltam 218 dias para o casamento, ai, estou tão ansiosa, não vejo a hora - me contou ela, exultante e carente, indicando o marmanjo que a acompanhava.
— 218 dias e 4 horas e — olhou no relógio do celular — 32 minutos — acrescentou o marmanjo que a acompanhava, demonstrando o mesmo entusiasmo e a mesma carência.
Acrescente-se que a moça tem 29 anos. Sei, porque me lembro de quando ela nasceu. O moço deve estar por aí, também. A conversa não durou muito, é sempre embaraçante esses encontros fortuitos entre pessoas pouco relacionadas entre si, ainda mais em SP, onde todos temos o tempo contado.
Uma moça linda e saudável, sozinha com o noivo feio e saudável, em meio à multidão de possibilidades e alternativas do centro do centro do Brasil. Ano 17 do século 21. Uma mulher de 29 anos, curso superior completo, creio que o homem também. Ansiosos pela (não viam a hora de chegar a) noite de núpcias.
Bom, uma mulher assim não pode mais estar ansiosa pela noite de núpcias (mas, faço uma concessão e admito). Já, um homem assim, nunca houve, é ridículo: se espera sua própria primeira noite ou se espera a primeira noite dela, se está ansioso, se não vê a hora... Atenta contra sua própria natureza...ativa! Sendo que há muito que as mulheres de 29 anos deixaram de ser passivas. (já disse, estou lendo "O segundo sexo", da Simone de Beauvoir, cuidado! ela é demolidora).
A virgindade e a noite de núpcias faziam sentido no século XIV, quando era quase impossível um jovem e uma jovem ficarem sozinhos antes do casamento. Porque quando ela e ele ficam sós, seja lá no século XIV, seja agora, não tem quem segura, ressalvada a dissimulação.
Enfim, conhecendo bem o berimbau e a gaita, e rindo muito desses noivados tão longos, desses virgens tão puros, dessas bodas tão longa e antecipadamente planejadas — e desconfiado de que quanto mais denso o ritual, mais ralo o milharal —, desejo muitas felicidades aos nubentes...
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