segunda-feira, 19 de setembro de 2016

GUERRA. Há meia hora um helicóptero...

Há meia hora um helicóptero paira sobre o prédio em que trabalho, na avenida Paulista. Na calçada em frente, o rio de pedestres escorre com dificuldades entre inúmeras viaturas da polícia estacionadas. Há suspeita de bomba na agência bancária ao lado.

 Antes-de-ontem, no xig-lig da esquina, seguranças do estabelecimento entraram em confronto com guardas municipais, para impedir duvidosa fiscalização.

 Outro dia, um pedestre foi executado por dois motoqueiros, enquanto caminhava na calçada em frente.

 O esmoler profissional que faz ponto ali perto da banca de jornal recolhe a moeda ou a nota tão logo é depositada em sua caixa de papelão, para evitar sócios mãozudos.

 Quase em frente, as revistas e jornais pendurados desinformam, para confundir o inimigo.

 Em cada quadra da avenida, caminhando na hora do almoço, encontro duas ou três duplas de policiais militares.Os policiais portam pistolas ponto quarenta, algemas, cacetetes, sprays venenosos, vários aparelhos de comunicação, e estão vestidos com coletes à prova de bala.

 Nas esquinas há sentinelas postados em guaritas elevadas.

 A todo momento passam viaturas abrindo caminho no grito, levando feridos ou acudindo ataques.

 A avenida está completamente tomada por batalhões de pedestres em marcha em ambas as calçadas e por veículos nas faixas de rodagem. Entre os caminhantes, ninguém se arrisca a usar joias e quase todos portam aparelhos de comunicação móvel.

 Dentro dos carros não se vê ninguém, por causa dos vidros escuros. O entrevero propaga-se pelas paralelas e transversais. Os carros, cada vez maiores, se trancam blindados, autosuficientes em seus sistemas de ar condicionado, contra abordagens especializadas nos faróis.

 As casas cada vez menores, se amontoam em prédios de apartamentos, para facilitar a defesa, isolados por grades encimadas por fios energizados ou por muros com rolos cortantes em cima.

 Vigilantes tristes espreitam o entorno, de dentro de cabines com vidros escuros, nas portarias. Se é noite, fachos de potentes luminárias disparam na frente de cada prédio à medida que o pedestre vai passando, comandados por células de presença.

 Câmaras filmadoras estão penduradas nos beirais, nos postes, nos portões, nos satélites, profusamente instaladas pelo poder público e pelos particulares, cobrindo completamente exteriores e interiores domésticos e comerciais.

 Monitores remotos complementam a vigilância presencial pública e privada. As motocicletas são consideradas eficientes veículos táticos e por isso é proibido levar alguém na garupa.

sábado, 17 de setembro de 2016

O QUE NOS SUSTENTA.

NA HORA DO VAMUVÊ, 

O QUE NOS SUSTENTA... 

(nossos relatos ou comentários ou fotos sobre atividades por nós realizadas objetivam divulgar a atividade – propaganda – e despertar a inveja dos amigos. No meu caso, sobre a Travessia da Serra Fina, há um terceiro: alertar os incautos para que não caiam nessa robada).

 Mas, na hora do vamuvê, o que nos sustenta é uma dupla chamada NaCl e Lipídeo. Ou seja, sal de cozinha e gordura. 

Depois vem o carbohidrato e a proteína, ordinários, que se encontram por toda parte. Açúcar tem em tudo e carne..., sim, pode ser carne de soja, embora não preencha as necessidades do espírito. 

É, a carne de soja, ou seja lá o que diabos mais for de soja, não é coisa de Deus. Faz bem para o corpo (no meu caso, me provoca umas coisas na pele), mas maltrata a alma.

 O amendoim é coisa do demônio: tem muita gordura e proteína e, se acrescentarmos um salzinho, vira bomba. Só precisa muita água pra moer e digerir.

 Agora imagina você no meio do nada, mato, pedra, parede pra subir, parede pra descer. Aí vem um sujeito e frita uma lingüiça bem encharcada. Não tem nada mais motivador para levar um vivente que pensa que pensa ao cimo do pico mais próximo: é muito sal, muita gordura e muita proteína, e quente, pra aquecer o corpo das rajadas de vento gelado lateral.

 Na hora do vamuvê, o sujeito precisa de sal, pra intumescer a crista. A crista aqui não é a fina, da serra, que perseguimos, mas a do homem, como se fora uma galinha. Porque todos sabem o destino de uma galinha de crista caída (segundo minha professora-zootecnista Lolay, é a panela!).

 É, o sal tem o poder de manter nosso entusiasmo, enquanto a gordura mantém a nossa intrepidez física, necessária para varar bosques de capim-elefante e capinzal de bambu.

 Quem frita lingüiça na montanha é o Vinícus, guia de Itanhandu, para desespero dos ortodoxos consumidores de miojo e liofilizados. O fato é que ele anda naquelas brenhas com uma cargueira de 80 litros e 25 Kg como se estivesse no jardim. E acrescento que ele levava ovo, para a omelete do café da manhã.

 Já com um outro guia da montanha, o Vandeira, aprendi outra coisa sobre a água. É ela que mantém nossa alegria de viver. Porque não tem nada mais sem graça do que a sede.