quarta-feira, 28 de junho de 2017

CRÔNICA TRISTE SOBRE NOTÍCIA INSISTENTE.

     A notícia saiu 5 dias atrás nos sites da Folha, do Estadão, G1, R7, O Povo, O dia… Trazia, em todos os jornais, o mesmo e seguinte título:

Atirador mata combatente do Estado Islâmico com disparo a 3,5 km de distância”.

     Em seguida, os jornais, todos iguais — que estavam apenas repassando algo que veio de cima já devidamente mastigado —, especificavam:


Um atirador das forças especiais do Canadá matou um integrante do grupo extremista autodenominado Estado Islâmico com um tiro disparado a 3,5 km de distância, no mês passado, no Iraque.
A distância do disparo bem sucedido, confirmada à BBC pelo Comando de Operações Especiais canadense, é considerada recorde na história militar.
Segundo o jornal canadense "Globe and Mail", o soldado efetuou o disparo do alto de um edifício. A bala teria demorado dez segundos para atingir o alvo. O disparo teria sido registrado em vídeo”.

     E a notícia ainda continuava, dizendo que o soldado canadense havia quebrado o record anterior, que era de…. e mencionava a distância do record anterior. Um outro soldado, em outra tocaia, num outro dia, em outra ou naquela mesma guerra, havia matado um soldado inimigo distraído, a muitos mil metros de distância, mas agora o canadense havia sido mais eficaz, tivera mais sorte, fora mais feliz…
     Mas para minha tristeza, vi que essa notícia ficou entre as mais lidas do jornal. Para aumentar minha tristeza, vi que a notícia continuou entre as mais lidas do jornal por vários dias. Sendo que eu fora um dos leitores que contribuíram para tal… (e talvez seja para espiar essa culpa que escrevo esta crônica...).
     Tudo bem, é sabido o fascínio que provocam na população as notícias sobre violências, vide o sucesso dos programas vespertinos na TV. Na década de 1970 havia um jornal, editado pela Folha, chamado Notícias Populares, que, dizia-se, se espremesse, saía sangue. Mais que isso, a população gosta da representação violenta desde as tragédias gregas, vide os filmes bang bang e o sucesso dos filmes e dos livros policiais.       Porém, os filmes de farwest e policiais estadunidenses para a TV são limpinhos: não aparece sangue… e sabemos que são ficção. Já o soldado do EI e o canadense são homens reais, do nosso tempo, de carne e osso e nervos e muito sangue. Cada um deles deve ter deixado em casa gente querida a esperá-los.
     Mas um foi muito feliz num tiro à absurda distância de três quilômetros e mais quinhentos metros para uma arma portátil. Ah, sim!, e esse um, tão eficiente e feliz e eufórico e recordista era, é um cidadão canadense ocidental — provavelmente cristão protestante — que combate sem tréguas, mas de muito longe e bem protegido, aqueles árabes muçulmanos horríveis e banais, a ponto de se deixarem matar por uma arma de mão a 3,5 Km de distância…
     Só que a notícia que me deixou calado de espanto foi essa que segue abaixo, vinda à luz do nosso conhecimento humano há um ou dois dias, na esteira do sucesso e da repercussão daquela primeira acima:

Professor de física e atiradores explicam disparo que matou um soldado do Estado Islâmico a 3,5 km de distância

O G1 ouviu especialistas para explicar a ciência e a tecnologia por trás do tiro que, segundo o exército canadense, matou um combatente do Estado Islâmico a 3,5 km de distância no mês passado.”.



     Perceberam a ciência, a tecnologia, a razão, a limpeza? A isenção e a frieza do franco burocrata especialista? A diversão pachorrenta da massa leitora? Perceberam a tristeza?

segunda-feira, 19 de junho de 2017

PEGA-LADRÃO NO METRÔ.

Ia eu distraído pela rampa vazia da saída do metrô, quando passaram ventando por mim, em ritmo de cem metros rasos, dois homens adultos e acima do peso. A rampa que sai da Estação São Bento do metrô para o Vale do Anhangabaú tem uns 100 metros de extensão e é pouco inclinada, quase plana.

Embora estivessem na mesma velocidade, um dos gordos ia na frente do outro uns 5 metros, o que não é comum nesse tipo de corrida, em que o vencedor costuma ganhar por um nariz, coisa de dois décimos de segundo. Apesar dessa diferença, a corrida era séria. Seríssima. Valia quase uma vida, valia a liberdade.

Eram três horas da tarde, pouca gente sai por ali nessa hora, de maneira que assisti à corrida sozinho. Eu estava na metade da rampa quando os contendores passaram por mim fazendo a maior ventania, me tirando da pasmaceira vespertina. Na verdade, assisti à parte mais emocionante, os 50 metros finais.

Me impressionou como corriam convictos. Arrancavam do organismo todas as adrenalinas e endorfinas disponíveis, exigindo tudo dos respectivos corpos pesados. O que ia na frente era um jovem de cerca de vinte anos. O que ia atrás, todo de preto, tinha uns vinte anos a mais, mas, a julgar pelo menear da cabeça, em ritmo de fanfarra militar, tinha muito ódio concentrado, o que o tornava forte e competitivo.

Porém o da frente, além de ser bem mais novo, estava mais motivado e, afinal, manteve os cinco metros na dianteira até alcançar a luz do sol e a liberdade do Anhangabaú. Quando eu, em seguida, alcancei a saída, passei ao lado do quarentão ainda esbaforido, olhando desolado para a imensidão do vale.

Ele ainda estava meio inseguro, recuperando-se do esforço, mas não se sentia desmoralizado, pois mantinha intacto seu estoque de ódio, segundo seu olhar. Acho que não considerava desonroso perder para um oponente vinte anos mais novo. Fui me aproximando, sem conseguir apagar o sorriso no rosto. A gargalhada, consegui conter, mas a felicidade não tive como. Vi que ele avançou o queixo, trincou os dentes, flexionou as sobrancelhas, além de menear a cabeça, embora parado — tudo isso pro meu lado. Pensei: pronto!

Dizem que a melhor defesa é o fingimento. Continuei no mesmo passo lento sem desviar um milímetro. Quando estava quase ao alcance das garras do homem, desejei um certo tremor em sua alma, quisera real. Mas ele estava realmente hesitante, me deixou passar incólume. Acho que não quis correr o risco de perder novamente. Sendo que, dessa vez, o risco era maior, porque teria de pegar um com vinte anos a mais… Misturando lisonja e alívio, continuei pelo vale, a imaginar a suposta interpelação:

Por que você não passou uma rasteira nele, por que você não gritou pega ladrão?

Simples: porque eu tava torcendo pelo ladrão.

Ele ficaria uma fera; poderia querer fazer comigo o que não conseguiu fazer com o contraventor gordinho do metrô. Mas eu tinha argumentos. Minha torcida foi espontânea, não foi fruto da razão. Foi coisa de simpatia, de gostar, de emoção e, contra o coração não há argumentos.


Ninguém decide se vai gostar desse ou daquele, disso ou daquilo, quando o sujeito se dá conta, pronto, já tá gostando. E quando eu bati o olho na dupla corredora, como dito antes, já nos 50 metros derradeiros, entre o vil e o ladrão, eu fiquei com o ladrão. Gostei do ladrão, fazer o quê?

segunda-feira, 12 de junho de 2017

PLANOS E LAVRAS. SUL DE MINAS.

Cena de uma viagem mista — a pé, de ônibus, de carona — ao longo do Rio Grande, até sua nascente. Cenário: Terminal de ônibus de Lavras (MG). Segunda década do Séc.XXI.
Hotelzinho no centro, domingo deserto, levanto cedo, me ponho a cismar: Vou de ônibus até Itutinga e de lá continuo a pé até Carrancas...
...mas ninguém trabalha hoje e o circular só vai até Itumirim. Então vou com o circular, desço no trevo de Macuco e acabo de chegar de carona...
...ou vou andando...
...se atrasar e não chegar antes do escurecer, acampo na estrada (para isso, levo a casa nas costas, 2,5 Kg a mais).
Mas poderia iniciar a caminhada em Rosário ou ficar dormindo no hotel em Lavras.
E se eu ficasse curtindo uma praia no Capivari, a meio caminho?
Ou improvisasse um anzol e uma linha num bambu, cujas moitas estão por toda parte? É possível colher minhocas com a mão, no brejo beira rio.
Ligo a internet móvel ou economizo? Vale a pena ver as últimas notícias?
Nego ajuda ao espertinho que perdeu a carteira e quer 8,50 pra voltar pra casa, porque sou andarilho e estou com o dinheiro contado.
Incrível como pululam esses tipos nas rodoviárias.
Mas abro o Google Maps pra mocinha bonita que me pergunta se sei onde tem um mapa.
Ela me pergunta se conheço algum lugar bonito pra se ir, está viajando de carona pela BR.
Ela quer aventura, mostro-lhe a mochila. Mas ela só aceita carona na BR. Só que aqui não tem BR, aqui tem MG.
Sendo que sou SP, mas posso trabalhar com outras letras do alfabeto.
Digo que estou a pé, ela tira os trem. 
E, afinal, há um ônibus  às 9h45 pra São João Del Rei, que passa em Itutinga. Mais uma etapa viabilizada.
Amanhã a gente planeja o depois de amanhã, no hotel em Carrancas, antes de dormir.
São Vicente ou Madre de Deus?
Só o Rio Grande que não sai do lugar. Represas. Não corre mas sobe ou desce. Pulsa.
E o caipira a cismar: sou quase mineiro.


quinta-feira, 8 de junho de 2017

NO CONFESSIONÁRIO DOS HOMENS DE MASSACHUSETTS.


Os homens de Massachusetts agora atendem em Menlo Park. Todo dia eu me sento-ajoelho no divã-confessionário deles e conto o que estou pensando. É que, invariavelmente, eles me perguntam: no que você está pensando, Roberto? E eu conto, na maior sinceridade. É. Me sinto forte, confiante, no recesso do meu lar. Me sinto desinibido, só, no isolamento das minhas quatro paredes, minhas, o imóvel é meu, estou dentro dele, sou inatingível. Então me sinto forte e todo forte é sincero. Conto a eles direitinho, tudo que penso. Não, não conto. Escrevo. Mais, muito mais: digito. Eles não têm o trabalho e o gasto nem de pagar a um digitador para transcrever meus pensamentos para uma planilha, aquela que eles pagaram a um programador para planilhar. É. Já entrego meu serviço pronto para ser mastigado. Mais: já distribuo nas gavetas lá deles: digito, compartilho, curto, amo, rio, lato, choro e rosno. Lá na planilha deles, que eles abriram em meu nome… não, não, fui eu mesmo que abri a planilha pra eles, coloquei meu nome e o nome dos meus amigos. Digitei lá a data e o local do meu nascimento, onde estudei, onde trabalhei e trabalho, o nome do meu cônjuge, dos filhos, dos netos, onde nasci, onde moro… Lá, naquela planilha, vive aparecendo as palavras “corrida”, “caminhada”, aparece até com certa frequência “maratona”. Eles não têm nenhuma dúvida de que uso muito tênis. Se uso, compro. Mais: sou obrigado a comprar. Artigos para bike eles não me oferecem. Eles não sabem que gosto e uso bike. É que não uso bike. Uso bicicleta. Pronto: mas agora, com essas três bikes ali atrás, estou ferrado. Ainda não, daqui a pouco, quando sentar lá e contar o que estou pensando, quando anexar esta crônica lá, eles saberão também que, sim, eles já desconfiavam, eu curto e amo e compro bikes e respectivos acessórios.




domingo, 4 de junho de 2017

ESGELHA x DIRETO.

De repente, me dou conta de que sou de esguelha. Ia correndo na trilha do Ibirapuera; em minha frente, vários corredores domingueiros. É uma trilha informal que segue a grade que cerca o parque. A maior parte do percurso, de 6 Km, é de terra batida ou grama, por entre os eucaliptos e outras árvores e suas raízes. Raízes, algumas pedras, buracos, lombadas, parece com a vida. Cheia de imprevistos capazes de derrubar os incautos que não observam bem o chão em que estão pisando. Ao longo do tempo, foram se formando trilhos mais batidos, evidentes, e muitas variantes.

Há corredores que não saem do trilho mais batido. São diretos, preferem trilhar por onde a maioria dos pés já trilharam. Não querem correr o risco de uma variante menos batida. Descobri que sou de esguelha porque fujo dos trilhos mais fundos, mais visíveis. Prefiro ir pelas bordas, pisando na folhagem, no gramado, correndo o risco de topar com uma raiz saliente, mas sentindo o prazer de pisar um terreno mais macio.

Correndo e pensando. Cada um tem o seu critério para dividir ou classificar a humanidade. São-paulinos versus corintianos; agnósticos versus místicos. (há os santistas, uma variante, ou terceira opção, que não quero usar para não estragar minha crônica). Ali na trilha do Ibirapuera, descobri que divido os humanos em “de esguelha” e “diretos”.

Por exemplo: Capitu é de esguelha; Bentinho é direto. Bentinho era adepto do casamento eterno e da monogamia (para a mulher; o homem podia pular; olha eu outra vez querendo estragar minha crônica…). Capitu era escrava das circunstâncias, mas não dissimulava suas ânsias. Capitu via todas as trilhas e sub-trilhas e não descartava nenhuma, queria experimentá-las todas. Bentinho era adepto do óbvio estabelecido.

O cara de esguelha quase sempre escolhe o caminho mais torto. Leva em conta detalhes e vieses, considera as segundas intenções dos que passaram antes, pensa no passado e no futuro, demora. Já o cidadão direto não titubeia, confia plenamente nas aparências e acredita nos indicadores mais evidentes. Para esse cidadão direto, as aparências não enganam.


E assim, de forma oblíqua e profunda, ou de forma rasa e direta, os cidadãos se posicionam na vida pública, nas pendengas que envolvem a todos: drogas, banditismo, pena de morte, divórcio, corrupção, políticos, governo, opção sexual, partidária. Dou como exemplo o divórcio, acho que hoje ninguém mais é contra. Me lembro de quando ele foi aprovado no Congresso. Os diretos diziam que era o fim da família. As famílias continuam aí, talvez um pouco menos hipócritas. Enfim, confesso que é abstrata demais a ideia de que a desigualdade e a injustiça são as causas das nossas misérias.