A
notícia saiu 5 dias atrás nos sites da Folha, do Estadão, G1, R7,
O Povo, O dia… Trazia, em todos os jornais, o mesmo e seguinte
título:
“Atirador mata combatente do Estado Islâmico com disparo a 3,5 km de distância”.
Em
seguida, os jornais, todos iguais — que estavam apenas repassando
algo que veio de cima já devidamente mastigado —, especificavam:
A
distância do disparo bem sucedido, confirmada à BBC pelo Comando de
Operações Especiais canadense, é considerada recorde na história
militar.
Segundo
o jornal canadense "Globe and Mail", o soldado efetuou o
disparo do alto de um edifício. A bala teria demorado dez segundos
para atingir o alvo. O disparo teria sido registrado em vídeo”.
E
a notícia ainda continuava, dizendo que o soldado canadense havia
quebrado o record anterior, que era de…. e mencionava a distância
do record anterior. Um outro soldado, em outra tocaia, num outro dia,
em outra ou naquela mesma guerra, havia matado um soldado inimigo
distraído, a muitos mil metros de distância, mas agora o canadense
havia sido mais eficaz, tivera mais sorte, fora mais feliz…
Mas
para minha tristeza, vi que essa notícia ficou entre as mais lidas
do jornal. Para aumentar minha tristeza, vi que a notícia continuou
entre as mais lidas do jornal por vários dias. Sendo que eu fora um
dos leitores que contribuíram para tal… (e talvez seja para espiar
essa culpa que escrevo esta crônica...).
Tudo
bem, é sabido o fascínio que provocam na população as notícias
sobre violências, vide o sucesso dos programas vespertinos na TV. Na
década de 1970 havia um jornal, editado pela Folha, chamado Notícias
Populares, que, dizia-se, se espremesse, saía sangue. Mais que isso,
a população gosta da representação violenta desde as tragédias
gregas, vide os filmes bang bang e o sucesso dos filmes e dos livros
policiais. Porém,
os filmes de farwest e policiais estadunidenses para a TV são
limpinhos: não aparece sangue… e sabemos que são ficção. Já o
soldado do EI e o canadense são homens reais, do nosso tempo, de
carne e osso e nervos e muito sangue. Cada um deles deve ter deixado
em casa gente querida a esperá-los.
Mas
um foi muito feliz num tiro à absurda distância de três
quilômetros e mais quinhentos metros para uma arma portátil. Ah,
sim!, e esse um, tão eficiente e feliz e eufórico e recordista era,
é um cidadão canadense ocidental — provavelmente cristão
protestante — que combate sem tréguas, mas de muito longe e bem
protegido, aqueles árabes muçulmanos horríveis e banais, a ponto
de se deixarem matar por uma arma de mão a 3,5 Km de distância…
Só
que a notícia que me deixou calado de espanto foi essa que segue
abaixo, vinda à luz do nosso conhecimento humano há um ou dois
dias, na esteira do sucesso e da repercussão daquela primeira acima:
“Professor de física e atiradores explicam disparo que matou um soldado do Estado Islâmico a 3,5 km de distância
O G1 ouviu especialistas para explicar a ciência e a tecnologia por trás do tiro que, segundo o exército canadense, matou um combatente do Estado Islâmico a 3,5 km de distância no mês passado.”.
Perceberam a ciência, a tecnologia, a razão, a limpeza? A isenção e a frieza do franco burocrata especialista? A diversão pachorrenta da massa leitora? Perceberam a tristeza?
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