domingo, 4 de junho de 2017

ESGELHA x DIRETO.

De repente, me dou conta de que sou de esguelha. Ia correndo na trilha do Ibirapuera; em minha frente, vários corredores domingueiros. É uma trilha informal que segue a grade que cerca o parque. A maior parte do percurso, de 6 Km, é de terra batida ou grama, por entre os eucaliptos e outras árvores e suas raízes. Raízes, algumas pedras, buracos, lombadas, parece com a vida. Cheia de imprevistos capazes de derrubar os incautos que não observam bem o chão em que estão pisando. Ao longo do tempo, foram se formando trilhos mais batidos, evidentes, e muitas variantes.

Há corredores que não saem do trilho mais batido. São diretos, preferem trilhar por onde a maioria dos pés já trilharam. Não querem correr o risco de uma variante menos batida. Descobri que sou de esguelha porque fujo dos trilhos mais fundos, mais visíveis. Prefiro ir pelas bordas, pisando na folhagem, no gramado, correndo o risco de topar com uma raiz saliente, mas sentindo o prazer de pisar um terreno mais macio.

Correndo e pensando. Cada um tem o seu critério para dividir ou classificar a humanidade. São-paulinos versus corintianos; agnósticos versus místicos. (há os santistas, uma variante, ou terceira opção, que não quero usar para não estragar minha crônica). Ali na trilha do Ibirapuera, descobri que divido os humanos em “de esguelha” e “diretos”.

Por exemplo: Capitu é de esguelha; Bentinho é direto. Bentinho era adepto do casamento eterno e da monogamia (para a mulher; o homem podia pular; olha eu outra vez querendo estragar minha crônica…). Capitu era escrava das circunstâncias, mas não dissimulava suas ânsias. Capitu via todas as trilhas e sub-trilhas e não descartava nenhuma, queria experimentá-las todas. Bentinho era adepto do óbvio estabelecido.

O cara de esguelha quase sempre escolhe o caminho mais torto. Leva em conta detalhes e vieses, considera as segundas intenções dos que passaram antes, pensa no passado e no futuro, demora. Já o cidadão direto não titubeia, confia plenamente nas aparências e acredita nos indicadores mais evidentes. Para esse cidadão direto, as aparências não enganam.


E assim, de forma oblíqua e profunda, ou de forma rasa e direta, os cidadãos se posicionam na vida pública, nas pendengas que envolvem a todos: drogas, banditismo, pena de morte, divórcio, corrupção, políticos, governo, opção sexual, partidária. Dou como exemplo o divórcio, acho que hoje ninguém mais é contra. Me lembro de quando ele foi aprovado no Congresso. Os diretos diziam que era o fim da família. As famílias continuam aí, talvez um pouco menos hipócritas. Enfim, confesso que é abstrata demais a ideia de que a desigualdade e a injustiça são as causas das nossas misérias. 

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