segunda-feira, 19 de junho de 2017

PEGA-LADRÃO NO METRÔ.

Ia eu distraído pela rampa vazia da saída do metrô, quando passaram ventando por mim, em ritmo de cem metros rasos, dois homens adultos e acima do peso. A rampa que sai da Estação São Bento do metrô para o Vale do Anhangabaú tem uns 100 metros de extensão e é pouco inclinada, quase plana.

Embora estivessem na mesma velocidade, um dos gordos ia na frente do outro uns 5 metros, o que não é comum nesse tipo de corrida, em que o vencedor costuma ganhar por um nariz, coisa de dois décimos de segundo. Apesar dessa diferença, a corrida era séria. Seríssima. Valia quase uma vida, valia a liberdade.

Eram três horas da tarde, pouca gente sai por ali nessa hora, de maneira que assisti à corrida sozinho. Eu estava na metade da rampa quando os contendores passaram por mim fazendo a maior ventania, me tirando da pasmaceira vespertina. Na verdade, assisti à parte mais emocionante, os 50 metros finais.

Me impressionou como corriam convictos. Arrancavam do organismo todas as adrenalinas e endorfinas disponíveis, exigindo tudo dos respectivos corpos pesados. O que ia na frente era um jovem de cerca de vinte anos. O que ia atrás, todo de preto, tinha uns vinte anos a mais, mas, a julgar pelo menear da cabeça, em ritmo de fanfarra militar, tinha muito ódio concentrado, o que o tornava forte e competitivo.

Porém o da frente, além de ser bem mais novo, estava mais motivado e, afinal, manteve os cinco metros na dianteira até alcançar a luz do sol e a liberdade do Anhangabaú. Quando eu, em seguida, alcancei a saída, passei ao lado do quarentão ainda esbaforido, olhando desolado para a imensidão do vale.

Ele ainda estava meio inseguro, recuperando-se do esforço, mas não se sentia desmoralizado, pois mantinha intacto seu estoque de ódio, segundo seu olhar. Acho que não considerava desonroso perder para um oponente vinte anos mais novo. Fui me aproximando, sem conseguir apagar o sorriso no rosto. A gargalhada, consegui conter, mas a felicidade não tive como. Vi que ele avançou o queixo, trincou os dentes, flexionou as sobrancelhas, além de menear a cabeça, embora parado — tudo isso pro meu lado. Pensei: pronto!

Dizem que a melhor defesa é o fingimento. Continuei no mesmo passo lento sem desviar um milímetro. Quando estava quase ao alcance das garras do homem, desejei um certo tremor em sua alma, quisera real. Mas ele estava realmente hesitante, me deixou passar incólume. Acho que não quis correr o risco de perder novamente. Sendo que, dessa vez, o risco era maior, porque teria de pegar um com vinte anos a mais… Misturando lisonja e alívio, continuei pelo vale, a imaginar a suposta interpelação:

Por que você não passou uma rasteira nele, por que você não gritou pega ladrão?

Simples: porque eu tava torcendo pelo ladrão.

Ele ficaria uma fera; poderia querer fazer comigo o que não conseguiu fazer com o contraventor gordinho do metrô. Mas eu tinha argumentos. Minha torcida foi espontânea, não foi fruto da razão. Foi coisa de simpatia, de gostar, de emoção e, contra o coração não há argumentos.


Ninguém decide se vai gostar desse ou daquele, disso ou daquilo, quando o sujeito se dá conta, pronto, já tá gostando. E quando eu bati o olho na dupla corredora, como dito antes, já nos 50 metros derradeiros, entre o vil e o ladrão, eu fiquei com o ladrão. Gostei do ladrão, fazer o quê?

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