Ia
eu distraído pela rampa vazia da saída do metrô, quando passaram
ventando por mim, em ritmo de cem metros rasos, dois homens adultos e
acima do peso. A rampa que sai da Estação São Bento do metrô para
o Vale do Anhangabaú tem uns 100 metros de extensão e é pouco
inclinada, quase plana.
Embora
estivessem na mesma velocidade, um dos gordos ia na frente do outro
uns 5 metros, o que não é comum nesse tipo de corrida, em que o
vencedor costuma ganhar por um nariz, coisa de dois décimos de
segundo. Apesar dessa diferença, a corrida era séria. Seríssima.
Valia quase uma vida, valia a liberdade.
Eram
três horas da tarde, pouca gente sai por ali nessa hora, de maneira
que assisti à corrida sozinho. Eu estava na metade da rampa quando
os contendores passaram por mim fazendo a maior ventania, me tirando
da pasmaceira vespertina. Na verdade, assisti à parte mais
emocionante, os 50 metros finais.
Me
impressionou como corriam convictos. Arrancavam do organismo todas as
adrenalinas e endorfinas disponíveis, exigindo tudo dos respectivos
corpos pesados. O que ia na frente era um jovem de cerca de vinte
anos. O que ia atrás, todo de preto, tinha uns vinte anos a mais,
mas, a julgar pelo menear da cabeça, em ritmo de fanfarra militar,
tinha muito ódio concentrado, o que o tornava forte e competitivo.
Porém
o da frente, além de ser bem mais novo, estava mais motivado e,
afinal, manteve os cinco metros na dianteira até alcançar a luz do
sol e a liberdade do Anhangabaú. Quando eu, em seguida, alcancei a
saída, passei ao lado do quarentão ainda esbaforido, olhando
desolado para a imensidão do vale.
Ele
ainda estava meio inseguro, recuperando-se do esforço, mas não se
sentia desmoralizado, pois mantinha intacto seu estoque de ódio,
segundo seu olhar. Acho que não considerava desonroso perder para um
oponente vinte anos mais novo. Fui me aproximando, sem conseguir
apagar o sorriso no rosto. A gargalhada, consegui conter, mas a
felicidade não tive como. Vi que ele avançou o queixo, trincou os
dentes, flexionou as sobrancelhas, além de menear a cabeça, embora
parado — tudo isso pro meu lado. Pensei: pronto!
Dizem
que a melhor defesa é o fingimento. Continuei no mesmo passo lento
sem desviar um milímetro. Quando estava quase ao alcance das garras
do homem, desejei um certo tremor em sua alma, quisera real. Mas ele
estava realmente hesitante, me deixou passar incólume. Acho que não
quis correr o risco de perder novamente. Sendo que, dessa vez, o
risco era maior, porque teria de pegar um com vinte anos a mais…
Misturando lisonja e alívio, continuei pelo vale, a imaginar a
suposta interpelação:
— Por
que você não passou uma rasteira nele, por que você não gritou
pega ladrão?
— Simples:
porque eu tava torcendo pelo ladrão.
Ele
ficaria uma fera; poderia querer fazer comigo o que não conseguiu
fazer com o contraventor gordinho do metrô. Mas eu tinha argumentos.
Minha torcida foi espontânea, não foi fruto da razão. Foi coisa de
simpatia, de gostar, de emoção e, contra o coração não há
argumentos.
Ninguém
decide se vai gostar desse ou daquele, disso ou daquilo, quando o
sujeito se dá conta, pronto, já tá gostando. E quando eu bati o
olho na dupla corredora, como dito antes, já nos 50 metros
derradeiros, entre o vil e o ladrão, eu fiquei com o ladrão. Gostei
do ladrão, fazer o quê?
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