Os
homens de Massachusetts agora atendem em Menlo Park. Todo dia eu me
sento-ajoelho no divã-confessionário deles e conto o que estou
pensando. É que, invariavelmente, eles me perguntam: no que você
está pensando, Roberto? E eu conto, na maior sinceridade. É. Me
sinto forte, confiante, no recesso do meu lar. Me sinto desinibido,
só, no isolamento das minhas quatro paredes, minhas, o imóvel é
meu, estou dentro dele, sou inatingível. Então me sinto forte e
todo forte é sincero. Conto a eles direitinho, tudo que penso. Não,
não conto. Escrevo. Mais, muito mais: digito. Eles não têm o
trabalho e o gasto nem de pagar a um digitador para transcrever meus
pensamentos para uma planilha, aquela que eles pagaram a um
programador para planilhar. É. Já entrego meu serviço pronto para
ser mastigado. Mais: já distribuo nas gavetas lá deles: digito,
compartilho, curto, amo, rio, lato, choro e rosno. Lá na planilha
deles, que eles abriram em meu nome… não, não, fui eu mesmo que
abri a planilha pra eles, coloquei meu nome e o nome dos meus amigos.
Digitei lá a data e o local do meu nascimento, onde estudei, onde
trabalhei e trabalho, o nome do meu cônjuge, dos filhos, dos netos,
onde nasci, onde moro… Lá, naquela planilha, vive aparecendo as
palavras “corrida”, “caminhada”, aparece até com certa
frequência “maratona”. Eles não têm nenhuma dúvida de que uso
muito tênis. Se uso, compro. Mais: sou obrigado a comprar. Artigos
para bike eles não me oferecem. Eles não sabem que gosto e uso
bike. É que não uso bike. Uso bicicleta. Pronto: mas agora, com
essas três bikes ali atrás, estou ferrado. Ainda não, daqui a
pouco, quando sentar lá e contar o que estou pensando, quando anexar
esta crônica lá, eles saberão também que, sim, eles já
desconfiavam, eu curto e amo e compro bikes e respectivos acessórios.
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