quinta-feira, 8 de junho de 2017

NO CONFESSIONÁRIO DOS HOMENS DE MASSACHUSETTS.


Os homens de Massachusetts agora atendem em Menlo Park. Todo dia eu me sento-ajoelho no divã-confessionário deles e conto o que estou pensando. É que, invariavelmente, eles me perguntam: no que você está pensando, Roberto? E eu conto, na maior sinceridade. É. Me sinto forte, confiante, no recesso do meu lar. Me sinto desinibido, só, no isolamento das minhas quatro paredes, minhas, o imóvel é meu, estou dentro dele, sou inatingível. Então me sinto forte e todo forte é sincero. Conto a eles direitinho, tudo que penso. Não, não conto. Escrevo. Mais, muito mais: digito. Eles não têm o trabalho e o gasto nem de pagar a um digitador para transcrever meus pensamentos para uma planilha, aquela que eles pagaram a um programador para planilhar. É. Já entrego meu serviço pronto para ser mastigado. Mais: já distribuo nas gavetas lá deles: digito, compartilho, curto, amo, rio, lato, choro e rosno. Lá na planilha deles, que eles abriram em meu nome… não, não, fui eu mesmo que abri a planilha pra eles, coloquei meu nome e o nome dos meus amigos. Digitei lá a data e o local do meu nascimento, onde estudei, onde trabalhei e trabalho, o nome do meu cônjuge, dos filhos, dos netos, onde nasci, onde moro… Lá, naquela planilha, vive aparecendo as palavras “corrida”, “caminhada”, aparece até com certa frequência “maratona”. Eles não têm nenhuma dúvida de que uso muito tênis. Se uso, compro. Mais: sou obrigado a comprar. Artigos para bike eles não me oferecem. Eles não sabem que gosto e uso bike. É que não uso bike. Uso bicicleta. Pronto: mas agora, com essas três bikes ali atrás, estou ferrado. Ainda não, daqui a pouco, quando sentar lá e contar o que estou pensando, quando anexar esta crônica lá, eles saberão também que, sim, eles já desconfiavam, eu curto e amo e compro bikes e respectivos acessórios.




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