sexta-feira, 20 de agosto de 2021

PUTZ! CEM REAL!!

 Estava eu motorista parado no farol... bom, essa é uma reflexão sobre dinheiro, moeda, caridade e consciência. Tudo muito prático, baseado na vida real e recente. Mas, antes, um preâmbulo. Ora, tudo na vida tem um preâmbulo, um porquê, nada existe ou acontece por acaso nem está isolado no mundo.

 

Já escrevi aqui que todos os mendigos ou pedintes odeiam receber moedas. Aquele pedido “moço, me dá uma moeda” é apenas retórico, para não melindrar o orgulhoso cidadão capaz de prover seu próprio sustento e não parecer ousado e arrogante, ainda que miserável. No fundo, todos — todos! — odeiam moedas, até as pesadas de 1 real.

 

[Mas houve um tempo em que as bonitas moedas de 1 real eram amadas, no primeiro governo do FHC, quando 1 real era igual a 1 dólar. As crianças, sempre mais sinceras e objetivas, já pediam “moço, me dá um real” ao invés de pedir uma moeda. FHC segurou até ser reeleito, depois a coisa degringolou, com a desvalorização cambial (1 real era igual a 1 dólar, mas o salário valia 60 dólares, isso é o que chamo de fazer milagre com o santo alheio...). Com Lula, a moeda voltou a ser aceita; aceita, não amada; afinal, enchia o saco mas não era difícil juntar três para dar um dólar.]

 

Agora a novidade, o que eu já desconfiava e tive a certeza ontem, quando estava motorista parado do farol. Os pedintes já não gostam de receber o papel-moeda de 2 reais. Enquanto você, óh cidadão desatualizado, pensa que tá abafando quando dá aquela nota verde novinha para o pedinte e você, óh metódica e caridosa cidadã, que nunca esquece seu elegante porta-moedas, nunca deixa de atender literalmente ao retórico pedido, o pobre recolhe a miséria e parte para outra, revoltado.

 

Paradoxalmente, os que ganham de manhã para comer no almoço são os primeiros a sentirem a desvalorização monetária. Nestes tempos de gasolina e dólar a seis, coxão mole a sessenta e gás a cem, dois reais não alivia nem o pecado de matar passarinhos.

 

Antes de relatar o acontecido, informo-lhes:  já fui caixa de banco e, portanto, já manipulei moeda e papel-moeda de frente e de trás pra frente.

 

Estava eu motorista parado no farol quando se aproximou um pedinte disfarçado de limpador de para-brisa. Educado, colocou a máscara e pediu permissão. Eu disse que não precisava, que eu, bonzinho, não exigia trabalho em troca de dois reais. E saquei a carteira para encontrar a nota verdinha. O farol quase abrindo, o motorista de trás impaciente, eu saquei uma verdinha e dei pra ele. Ele pegou e exultou. Putz! Cem real!

 

Era! Eu, vacilão, falei que havia me enganado, para ele me devolver a nota. E ele devolveu!!

 

 Nisso minha cônjuge preencheu meu ato falho com a devida verdinha, a de dois reais. Mas, enquanto eu restituía a fortuna de cem reais à carteira, o prestador de serviços, segurando a nota de dois reais, quase chorou, implorando: “moço, me dá mais uma nota, vai, eu te devolvi a de cem”.

 

E se tudo nesse mundo tem um propósito, qual o propósito disso que aconteceu comigo? Sei lá, mas tem. Talvez para sugerir que eu ande mais por aí, no mundo real. Que eu me atualize sobre produtos financeiros. Que eu não desdenhe minha antiga profissão. Quer saber!? Acho que foi só para eu ter assunto para esta crônica.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

O FUTURO DAS MULHERES.

 

O FUTURO DAS MULHERES BRASILEIRAS.

Agora que a extrema-direita galgou o poder, o que será do futuro das mulheres do Brasil, meu deus? Ia indo tão bem, conseguimos até eleger uma mulher para a presidência, nenhuma mulher precisava mais vender seu corpo para comprar arroz e feijão, nenhuma mulher precisava mais criar o filho sozinha por causa do sumiço do pai, de repente, inesperadamente, antes do previsto, o exército de Brancaleone e machos brancos entra pelo portão do país com a maior facilidade, acho até que as portas foram abertas pelos nossos antigos comandantes, o que será agora das nossas mulheres, que estavam ganhando a mesma coisa que os homens em funções similares, que ocupavam os altos escalões das empresas em pé de igualdade com os homens, que fundavam igrejas neopentecostais e já já iam começar a rezar missa? Agora nossas mulheres vão ter de retornar ao antigo esquema de tripla jornada, trabalhar fora, lavar, passar, cozinhar, não passar não, que ninguém mais passa roupa, quem diz que a gente não evolui?, criar filho. Logo mais será criada uma lei em que será obrigatório aquilo que muitas mulheres já fazem, que é tirar a bota do marido quando ele chega em casa e aquela lei que permitia ao marido anular o casamento caso a mulher não fosse virgem, que afinal acabou faz pouco tempo, certamente vai voltar, isso não é difícil, burocraticamente falando. Foram 20 anos de avanços extraordinários para a mulher brasileira, de repente foi tudo por água abaixo, agora elas vão ter de cobrir os ombros para entrar na igreja e logo, logo, serão proibidas de usar calça comprida, o que vou achar muito bom, porque gosto de mulher de vestido. Meu deus, o que será das feministas brasileiras? Claro, já fugiram todas pra Miami, não Miami não, que não são bestas, fugiram todas pra Paris e as mais pobres pra Montevidéu. Bem-feito para elas, que atrapalharam o processo de emancipação da mulher brasileira, não fosse elas as mulheres brasileiras estariam muito mais à frente, graças à compreensão e apoio dos homens... que tristeza saber que a metade dos parlamentares brasileiros terá de voltar para casa, numa casa em que já é obrigatório o uso do terno e gravata. Estávamos tão bem, as mulheres já ocupavam quase metade da Câmara e progrediam no Senado, agora elas, logo, logo, nem poderão votar, meu deus! Mas tudo tem seu lado bom. Pense nas empresas, que não terão de pagar auxílio-maternidade nem se preocupar com mulher grávida na hora da admissão; nas crianças, que serão mais bem educadas; nas comidas, que serão mais bem temperadas; nos lares, que serão mais bem arrumados; nos casamentos, que serão mais bem definidos; na autoridade, que será muito bem definida. Pense na indigência cultural da subserviência colonial que nos leva ao automático alinhamento de narrativa com a diretriz estadunidense, que é deprimente.  

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

QUE SORTE!

 QUE SORTE!

Eu tinha um compromisso inadiável agora de manhã. Levantei tarde, com tempo apenas de tomar o café e sair. Estiquei o olho na janela e vi que, além de frio, estava chuviscando lá fora. Ô tristeza! Porque frio com garoa ninguém merece. E o tempo estava daqueles em que, não precisando, o cidadão fica em casa.

Tomei café, vesti uma camiseta, um fleece e uma capa de chuva que, em verdade, é um casaco perfeito, com manga e gorro. Quando saí, a garoa tinha parado, só ficaram o frio e a umidade. Subi o morro da Paulista andando depressa e, lá em cima, 1,5 quilômetros depois,  eu estava molhado da cintura para cima. É que a capa-casaco, perfeitamente assentada no corpo, é totalmente impermeável e... totalmente NÃO transpirável. O suor bate e volta. Ou melhor: bate e fica.

Quando cheguei ao destino e parei, daí a pouco comecei a passar frio. Não tem agasalho que aquece um corpo molhado no frio. Pensei: daqui a pouco apanho uma pneumonia e morro. No trajeto de 1500 metros fui abordado por 4 pedintes e vi 3 crianças de rua nos colos dos respectivos pais. Pensei: frio, garoa, pobreza e desamparo, ô miséria! Hoje o dia tá desinfeliz.

Na Brigadeiro com a Cincinato, um ônibus articulado passou ventando na sarjeta, assustando a moça que caminhava distraída na calçada. Do outro lado, eu via a cena de esguelha e em fuga, eis que o tal ônibus vinha para meu lado feito doido e eu tinha toda razão, porque o monstro teve de subir no meio-fio para completar a curva.

Peguei a bicicleta na oficina e só não passei por cima da tachinha que estava de tocaia no primeiro quarteirão da ciclovia porque o ciclista que ia em minha frente passou primeiro. Pensei: êta vida perigosa, meu deus! Porque é de lascar trocar câmera de ar debaixo de frio e garoa.

Entretanto, nada me abalava e meu bom-humor permanecia em alta. Voltei para casa e saí de novo, de carro, para fazer uma pequena corrida de uber familiar. Não peguei um farol aberto e uma rua desatravancada e gastei 40 minutos para rodar 3 quilômetros. Prejuízo na certa.

Enfim, voltei para casa e só então, ao acender o smartphone, descobri o grande risco que havia passado nessas duas aventuras extradomiciliares: hoje é sexta-feira, dia 13. E, como se não bastasse, de agosto!

Agora estou em vias de fechar todas as janelas e cortinas e me encobertar na cama, para emergir somente amanhã, quando o azar já estiver longe e a cidade equilibrada e feliz. Ora, se todo mundo defende na cara dura a meritocracia e a desigualdade, por que eu não posso defender a sorte e o azar? Alienado é seu tio!

terça-feira, 10 de agosto de 2021

BERMUDA, CAMPEÃ!

 BERMUDAS, A GRANDE CAMPEÃ DE TÓQUIO 2021.

Sim, Bermuda, em inglês, um pequeno arquipélago meio escanteado no Mar das Caraíbas (Caribe), território inglês, de cerca de 70 mil habitantes.

A Índia ficou em último lugar, dos países que ganharam ao menos uma medalha de ouro. E Bermudas ficou em primeiro.

A única medalha de ouro conquistada pela Índia precisou de 1,388 bilhão de pessoas para forjar esse campeão solitário e custou 2,09 trilhões de dólares.

Já Bermudas conseguiu um campeão entre apenas 100 mil pessoas e sua medalha custou apenas 0,004 trilhão de dólares.

Os 05 primeiros colocados, pelo critério população por medalha foram Bermudas, Bahamas, Eslovênia, Nova Zelândia e Jamaica (por esse critério, o Brasil ficou em 53º).

E pelo critério Produto Interno Bruto por medalha foram Bermudas, Jamaica, Bahamas, Kosovo e Fiji (por esse critério, o Brasil ficou em 43º).

E sabe quais foram os 5 últimos colocados, pelo critério PIB/medalha? Ei-los: Índia, Indonésia, Filipinas, USA e Áustria.

Entre os latino-americanos, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, as Guianas, México e todos da América Central não ganharam nenhuma medalha de ouro.

Eis a classificação por medalhas, na América Latina: Brasil, Cuba, Jamaica, Equador, Bahamas, Venezuela, Bermudas e Porto Rico (não sei se Bahamas, Jamaica e Bermudas são considerados latino-americanos).

Se o Brasil produzisse atletas campeões  como a República Tcheca, em termos proporcionais à população, teria conquistado 80 medalhas (a Rep.Tcheca, com seus 10,6 milhões de habitantes, conquistou 4 medalhas; com uma população 20 vezes maior – 212 milhões – teria conquistado 4x20).

Essas comparações do desempenho olímpico com a população e o PIB são deveras imprecisas e sujeitas a muitos questionamentos. Mas uma coisa é certa: os indianos não gostam de esportes olímpicos