FATO
RELEVANTE NESTA MADRUGADA DOMINGUEIRA. Levantei para ir ao banheiro
às 4h30 da madrugada. Aproveitei para tomar um pingado. Saí na
sacada, a noite estava linda. Não muito frio, tempo seco, pouco
vento. Já ia voltando pra cama quando voltei, olhei lá fora de
novo, e decidi dar um rolê na cidade vazia. Creio que entre 5 e 7h
da manhã de domingo pode. Saí com cuidado para não acordar a
cônjuge, melhor perguntar na volta se ela concordava. Saí do prédio
pelas vias aéreas. Nunca se sabe, tenho vizinhas muito ativas e
atentas. Fui até a cobertura pela escada. O elevador faz barulho e
aciona a câmera, que apita o monitor na cabine, que acorda o
porteiro, que conversa com as vizinhas ativas e atentas. Acionei a
ignição do helicóptero e nem esperei esquentar direito, para não
fazer muito barulho, decolei na vertical em marcha lenta. Fui subindo
na vertical até ultrapassar a nuvem de poeira e fuligem que paira
suspensa sobre a cidade de janeiro a janeiro, com ou sem greve geral.
Lá em cima, dava pra ver até estrelas, o fiapo de lua já se
insinuava no horizonte leste. Eram 5h da madrugada, noite braba nesse
final de outono subtropical e meridional. Peguei o corredor aéreo
da 23 de maio, em direção ao aeroporto. Sobre o obelisco, em frente
ao Ibirapuera, investiguei o parque com meu binóculo de
infravermelho e vi, na Pedro Álvares Cabral, uma fila enorme de
carros brancos. Fiquei intrigado. Fiz a aeronave baixar além da
nuvem de poeira e fuligem, para chegar mais perto do meu objeto de
interesse. Efetivamente, era uma fila de carros brancos numa via de
trânsito expresso, onde ninguém sequer para. Mas estes estavam
parados. Da altura em que eu estava, olhei à esquerda, olhei à
direita, e não vi nem a cabeça nem o rabo da fila. Diabeísso?
Embaixo, o gramado enorme da praça do obelisco, com espaço livre e
plano do tamanho de um campo de futebol, me convidava ao pouso. Não
teria problemas, ainda era noite e só estava claro por causa das
potentes luminárias. Deixei a máquina no gramado e saí caminhando,
em direção aos carros parados. Vi, na calçada ao lado da fila, um
grupo de 4 homens de pé, parados como quem participa de um velório.
Como se sabe, ninguém aguenta uma madrugada de velório sem piada e
alguma coisa quente de beber. Cheguei, perguntei, como se fosse mais
um. Ainda bem que eles não haviam visto o helicóptero lá longe,
estacionado, senão não me responderiam direito. Na alucinação da
madrugada friorenta, que ali na baixada fazia 11ºC, talvez vissem um
cidadão comum, sobre uma bicicleta.
Era
a fila para pegar a cesta básica. Oferecimento do vereador Adilson
Amadeu. Esse é o fato relevante, minha gente.
Cada
um que o julgue conforme seu referencial e seu interesse. Mas
continuei a conversa com os taxistas. Sim, o referido vereador se diz
representante dos taxistas e a fila de carros brancos, entremeados,
aqui e ali, com um preto, era de táxis. Um dos homens me informou
que a cesta é composta de artigos básicos no valor aproximado de 50
reais. Recursos próprios do vereador que, segundo eles, o vereador
arrecada junto a alguns empresários. Um deles não tem direito aos
600 reais do estado porque seu filho e sua mulher já recebem; outros
dois estão com os pedidos pendentes na Caixa e o quarto diz que os
funcionários é que atrapalham, por isso não tem direito. Andei uns
500 metros para ver até onde ia a fila, mas os carros entravam pela
República do Líbano a perder de vista. Aí pensei: vou ver até
onde isso vai. O último carro estava parado na Av. Indianópolis,
que é a continuação da República do Líbano, altura da Ruben
Berta, cerca de 4 Km longe da cabeça da fila. O relógio do canteiro
da avenida marcava 5h50 da madrugada deste domingo, ainda estava
escuro.
Fiz
as contas mentalmente, dava uns 700 carros. A 50 reais por cabeça,
dava 35 mil reais, dinheiro de pinga para alguns empresários, preço
de um carro popular bem usado. Me lembrei de que este é ano de
eleições, me lembrei de uma construção chamada curral eleitoral,
me lembrei de dentadura — a parte de cima, a parte de baixo —, me
lembrei de alguns artigos de certa lei eleitoral, da regulação dos
recursos de campanha… tava frio, ali era brejo antigamente, a
umidade remanescente potencializava a friagem.
Deus
do céu, o que leva 700 homens (tudo bem, devia haver umas 50
mulheres, embora eu não tenha visto nenhuma) a enfrentarem uma fila
daquela às 5h da manhã num domingo, por uma cesta básica de 50
reais? Não pode ser apenas necessidade básica, fome de estômago.
Deve ser uma pobreza maior.
(a
informação está aí, creio que não seja de interesse das partes
lá deles que ela circule amplamente, acho que não vai sair nos
jornais).