domingo, 31 de maio de 2020

CESTA BÁSICA DE TÁXI

FATO RELEVANTE NESTA MADRUGADA DOMINGUEIRA. Levantei para ir ao banheiro às 4h30 da madrugada. Aproveitei para tomar um pingado. Saí na sacada, a noite estava linda. Não muito frio, tempo seco, pouco vento. Já ia voltando pra cama quando voltei, olhei lá fora de novo, e decidi dar um rolê na cidade vazia. Creio que entre 5 e 7h da manhã de domingo pode. Saí com cuidado para não acordar a cônjuge, melhor perguntar na volta se ela concordava. Saí do prédio pelas vias aéreas. Nunca se sabe, tenho vizinhas muito ativas e atentas. Fui até a cobertura pela escada. O elevador faz barulho e aciona a câmera, que apita o monitor na cabine, que acorda o porteiro, que conversa com as vizinhas ativas e atentas. Acionei a ignição do helicóptero e nem esperei esquentar direito, para não fazer muito barulho, decolei na vertical em marcha lenta. Fui subindo na vertical até ultrapassar a nuvem de poeira e fuligem que paira suspensa sobre a cidade de janeiro a janeiro, com ou sem greve geral. Lá em cima, dava pra ver até estrelas, o fiapo de lua já se insinuava no horizonte leste. Eram 5h da madrugada, noite braba nesse final de outono subtropical e meridional. Peguei o corredor aéreo da 23 de maio, em direção ao aeroporto. Sobre o obelisco, em frente ao Ibirapuera, investiguei o parque com meu binóculo de infravermelho e vi, na Pedro Álvares Cabral, uma fila enorme de carros brancos. Fiquei intrigado. Fiz a aeronave baixar além da nuvem de poeira e fuligem, para chegar mais perto do meu objeto de interesse. Efetivamente, era uma fila de carros brancos numa via de trânsito expresso, onde ninguém sequer para. Mas estes estavam parados. Da altura em que eu estava, olhei à esquerda, olhei à direita, e não vi nem a cabeça nem o rabo da fila. Diabeísso? Embaixo, o gramado enorme da praça do obelisco, com espaço livre e plano do tamanho de um campo de futebol, me convidava ao pouso. Não teria problemas, ainda era noite e só estava claro por causa das potentes luminárias. Deixei a máquina no gramado e saí caminhando, em direção aos carros parados. Vi, na calçada ao lado da fila, um grupo de 4 homens de pé, parados como quem participa de um velório. Como se sabe, ninguém aguenta uma madrugada de velório sem piada e alguma coisa quente de beber. Cheguei, perguntei, como se fosse mais um. Ainda bem que eles não haviam visto o helicóptero lá longe, estacionado, senão não me responderiam direito. Na alucinação da madrugada friorenta, que ali na baixada fazia 11ºC, talvez vissem um cidadão comum, sobre uma bicicleta.

Era a fila para pegar a cesta básica. Oferecimento do vereador Adilson Amadeu. Esse é o fato relevante, minha gente.

Cada um que o julgue conforme seu referencial e seu interesse. Mas continuei a conversa com os taxistas. Sim, o referido vereador se diz representante dos taxistas e a fila de carros brancos, entremeados, aqui e ali, com um preto, era de táxis. Um dos homens me informou que a cesta é composta de artigos básicos no valor aproximado de 50 reais. Recursos próprios do vereador que, segundo eles, o vereador arrecada junto a alguns empresários. Um deles não tem direito aos 600 reais do estado porque seu filho e sua mulher já recebem; outros dois estão com os pedidos pendentes na Caixa e o quarto diz que os funcionários é que atrapalham, por isso não tem direito. Andei uns 500 metros para ver até onde ia a fila, mas os carros entravam pela República do Líbano a perder de vista. Aí pensei: vou ver até onde isso vai. O último carro estava parado na Av. Indianópolis, que é a continuação da República do Líbano, altura da Ruben Berta, cerca de 4 Km longe da cabeça da fila. O relógio do canteiro da avenida marcava 5h50 da madrugada deste domingo, ainda estava escuro.

Fiz as contas mentalmente, dava uns 700 carros. A 50 reais por cabeça, dava 35 mil reais, dinheiro de pinga para alguns empresários, preço de um carro popular bem usado. Me lembrei de que este é ano de eleições, me lembrei de uma construção chamada curral eleitoral, me lembrei de dentadura — a parte de cima, a parte de baixo —, me lembrei de alguns artigos de certa lei eleitoral, da regulação dos recursos de campanha… tava frio, ali era brejo antigamente, a umidade remanescente potencializava a friagem.

Deus do céu, o que leva 700 homens (tudo bem, devia haver umas 50 mulheres, embora eu não tenha visto nenhuma) a enfrentarem uma fila daquela às 5h da manhã num domingo, por uma cesta básica de 50 reais? Não pode ser apenas necessidade básica, fome de estômago. Deve ser uma pobreza maior.

(a informação está aí, creio que não seja de interesse das partes lá deles que ela circule amplamente, acho que não vai sair nos jornais).


quinta-feira, 28 de maio de 2020

O INFERNO DE DANTE.

Dante, guiado por Virgílio, chega em frente à porta do Inferno. É uma porta larga e alta. No alto dela, em letras escuras (isso quer dizer que a porta é clara), está escrito:

PER ME SI VA NE LA CITTÀ DOLENTE,
PER ME SI VA NE L'ETTERNO DOLORE,
PER ME SI VA TRA LA PERDUTA GENTE.
GIUSTIZIA MOSSE IL MIO ALTO FATTORE;
FECEMI LA DIVINA PODESTATE,
LA SOMMA SAPIENZA E'L PRIMO AMORE.
DINANZI A ME NON FUOR COSE CREATE
SE NON ETTERNE, E IO ETTERNA DURO.
LASCIATE OGNE SPERANZA, VOI CH'INTRATE.

Vejam que a porta é grande mesmo. Tudo isso aí parecia uma plaquinha no cimo dela. Vejam também que não está nem em latim, nem em inglês. Naquela terra estrangeira, cada um lê sua própria língua, para todo mundo entender bem, para que não reste dúvida. Como Dante é toscano, está escrito na língua toscana. O poeta vivente fica impressionado e questiona seu mestre, sobre a dureza da inscrição:

Queste parole di colore oscuro
vid'io scritte al sommo d'una porta;
per ch'io: “Maestro, il senso lor m'è duro”.

Então, Virgílio o reconforta:

Ed elli a me, come persona accorta:
Qui si convien lasciare ogne sospetto;
ogne viltà convien che qui sia morta.
Noi siam venuti al loco ov' i' t'ho detto
che tu vedrai le genti dolorose
c'hanno perduto il bem de l'intelletto”.

Mas a alma do poeta romano (Dante está vivo, mas Virgílio morreu faz tempo) pega, de leve, a mão de Dante e lhe fala: Dêxa di sê besta, cara, vem comigo. E atravessam o umbral daquela sinistra porteira:

E poi che la sua mano a la mia puose
con lieto volto, ond'io mi confortai,
mi mise dentro a le segrete cose.
Quivi sospiri, pianti e alti guai
risonavan per l'aere sanza stelle,
per ch'io al cominciar ne lagrimai.
Diverse lingue, orribili favelle,
parole di dolore, accenti d'ira,
voci alte e fioche, e suon di man con elle
facevano un tumulto, il qual s'aggira
sempre in quell'aura sanza tempo tinta,
come la rena quando turbo spira.

Dante, espantado, pergunta a Virgílio: que gente mais doida é essa? Doida no sentido figurado dos jovens daquele tempo, porque era uma gente desinquieta, reclamando baixo pelos cantos. Então o Virgílio explica-lhe: gente amarga, não? É uma gente que, ainda que barulhenta em seu clamor, caminha feito gado, derrotada. Uma gente sonsa, no pior sentido do termo, que não se compromete, que não se arrisca, que serve a dois senhores, que serve a quem lhe convém, que dá uma no prego e outra na ferradura, que foge igualmente do perigo e da glória, gente que acende uma vela pra deus e outra pro diabo, gente sem infâmia e sem louvor. Viveu tão isolada no mundo, tão descompromissada, que agora, nem deus nem o diabo quer. (note que aí ainda é o átrio do Inferno, ainda não atravessaram o Aqueronte, porque é do outro lado que o bicho pega).

Aí Dante fica, assim, meio sem entender: mas, afinal, por que reclamam tanto, se não sofrem nenhuma pena, apenas esse inferno de pernilongos? Aí o Virgílio, meio já sem paciência com todo aquele interesse de Dante para com aquele povo pobre de espírito: — Escuta, de uma vez por todas. Serei curto e grosso; mais sucinto que aquela inscrição lá da porta:

Questi non hanno speranza di morte,
e la lor cieca vita è tanto bassa,
che 'invidiosi son d'ogne altra sorte.
Fama di loro il mondo esser non lassa;
misericordia e giustizia li sdegna:
non ragioniam di lor, mas guarda e passa”.

Por fim, Virgílio, como bom romano, arremata: cara! Ninguém mais se lembra desse povo. Esquece essa gente! São cheios de picuinhas, invejosos, rancorosos; medíocres. Deles não cuides mais, mas olha e passa. Vamos em frente.

terça-feira, 26 de maio de 2020

OS TOLOS

QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS. Não sei porque, acordei hoje encasquetado com essa marmota do Machado de Assis. Parece que foi uma das primeiras coisas que publicou. Sim, em capítulos, numa revista chamada, exatamente, A marmota. Agora, pelo google, fico sabendo que há controvérsias, parece que quem escreveu o original foi um francês, o Machado só traduziu. Não interessa. O que interessa é que tem tudo a ver. Digo, agora, em 2020.

Sim, conheço alguns casais… a mulher linda, inteligente, culta, sagaz; o cara… pelamordedeus! Claro que há situações inversas. Mas isso também não me interessa. O que eu quero é falar dos tolos. E das tolas, por que não? Porque pasmaceira não tem sexo. Não, pasmaceira não, porque os tolos são bem ativos. Sabe essas pessoas cheias de iniciativas, que estão sempre a sorrir? Certa feita, uma amiga, que já morou lá, me disse que os estadunidenses são tolos.

Ela me disse: numa festa, num convescote qualquer, numa excursão turística, num evento onde haja gente de várias nacionalidades, os estadunidenses são sempre os primeiros a aderirem às brincadeiras bobas propostas pelos animadores. Claro que não são todos, ela queria dizer que há uma pandemia de tolice entre os cidadãos daquele país. (Eu chuto que a tolice das nacionalidades é diretamente proporcional aos respectivos valores das moedas).

Mas se o Machado fosse escrever (ou traduzir, tanto faz) esse texto hoje, acho que ele não usaria o mesmo substantivo-adjetivo. (Sim, o conceito de Tolo é tão típico e comum no humano, que, além de qualificativo, é sujeito e objeto também. Tem personalidade distinta, substância própria. Um tolo! E punto e basta!) Tolo está fora de moda, ninguém mais fala tolo (a palavra está fora de moda, não o conceito).

Vejo muitos jovens usando IDIOTA. Há a variante IMBECIL. Não gosto de nenhuma das duas. Sou do tempo que um IDIOTA gerava mais rebuliço que um FILHADAPUTA. IMBECIL também equivalia a um míssil de cruzeiro. Hoje a molecada tasca idiota e imbecil com a leveza de uma live. Tudo bem, são sinônimos, o que não quer dizer nada, se vocês me entendem. Porque um tolo não merece a peremptoriedade de um idiota ou imbecil. Um tolo é um bobo alegre. Não, bobo alegre também não é adequado, porque não pode ser composto e, segundo, porque também está em desuso. Mas não é por isso que um tolo deixa de ser um idiota ou um imbecil ou um bobo alegre.

Eu tenho usado BRONCO. Mas tenho notado, pelas reações, que também já passou seu tempo ou é meio confuso, parece Branco e pode confundir com algo destroncado. Não, o tolo é, em geral, bem articulado. Burro também não serve, o tolo às vezes sabe ser bem esperto; da mesma forma, Grosso também não, o Tolo não se caracteriza exatamente pela rudeza, antes, sabe ser finório.

Olha, quer saber? Acho que o Machado ia desistir desse espécime. Esse tolo do século XXI é tão profundo, tão convicto, que todos seus sinônimos são insuficientes.


sábado, 23 de maio de 2020

CERIMONIAL, PROTOCOLO, DECORO

O CERIMONIAL, O PROTOCOLO, O DECORO. Esse vídeo dessa reunião ministerial, que só sei pelos comentários, me lembrou Ruth Cardoso. E também uma professora de matemática da 3ª série do ginásio, de quem esqueci o nome, mas não a fisionomia.
Fiquei sabendo agora que Ruth Cardoso foi a primeira primeira-dama com diploma universitário no Brasil. Mas isso não tem nada a ver. Também não tem nada a ver o fato dela ser pós-doutora orientadora de doutores em antropologia e outras sociologias pelas USPs e Columbias e Sorbones da vida.
Entretanto, o fato dela ser filha de Araraquara e de contador com farmacêutica já começa a pegar. Ruth Cardoso era uma dessas pessoas opacas, embora ilustradas. Pacata. E detestava o título de primeira-dama, o cerimonial do palácio, o protocolo do cargo do marido. Mas, como antropóloga, sabia do valor e da importância e da necessidade e do significado do ritual.
Isso foi o que ela respondeu, certa feita, aos jornalistas que, sacanas, sabedores de quem era Ruth Cardoso, conhecedores daquela catedrática austera — alguns provavelmente vítimas do seu rigor metodológico —, perguntaram a ela como se sentia naquele anacrônico papel. “Como antropóloga, sei o valor do ritual”, respondeu curto e grosso aos gozadores. E fim de papo.
Essa reunião presidencial — o vídeo, ou melhor, os comentários sobre o vídeo — desencadeou em mim, como pedras de dominó colocadas de pé em sequência, uma derrubando a outra, a lembrança da dona Ruth e, imediatamente, a lembrança da minha professora de matemática da 3ª série do ginásio, que eu cursava no IEEF, 560 quilômetros a oeste da Praça da Sé.
Não lembro o nome dela. Mas lembro a pessoa. Cerca de 45 anos de idade, cabelos grisalhos que nunca haviam visto tinta e que um dia foram bem pretos, pele morena clara muito lisa, perfeita de longe, ainda quase nenhuma ruga. Professora inexpressiva, ensinava equação do segundo grau de forma burocrática, ar cansado, devia ser daquelas que davam 40 aulas semanais para conseguir comprar um fusca, nos anos 1960.
Certo dia essa professora apagou a lousa inteirinha, que ia de parede a parede, coisa que não era usual. E apagou de forma mais lenta e caprichada que de costume. E escreveu, no centro dela, em letras cursivas de tamanho normal, uma frase de cerca de dez palavras, da qual só me lembra INTELECTUAL. Não disse nada, apenas bateu o giz sobre a lousa, mostrando-nos a frase. Caminhou pra lá e pra cá, respirou fundo, e retomou a matéria corriqueira.
Não me lembro da frase, mas do que ela queria dizer, nunca esqueci. A frase demonstrava uma séria preocupação com a formação INTELECTUAL da juventude, em meio à barbárie que vivenciávamos. Me lembro da minha reação: fiquei perplexo, pela matéria inesperada. Saquei na hora que aquela atitude e aquela palavra tinham a ver com algo sério e profundo, de que eu não fazia a menor ideia. Deve ter acontecido algo grave, em nível nacional — corria o ano de 1970 —, para aquela pacata e metódica professora preencher uma lousa inteira com uma frase de apenas dez palavras, que não tinha nada a ver com álgebras e aritméticas.


quinta-feira, 21 de maio de 2020

POBRE, MAS DIREITO.

POBRE DE DIREITA (DE NOVO!). É que ontem, ao postar no feicibuque o hino Bandiera Rossa, do PC Italiano, me referi outra vez ao Pobre de Direita. E toda vez que faço isso, fico matutando, insatisfeito, me sentindo culpado. Porque assim, curto, seco, na lata, sem explicação, vira provocação barata.

Na boa: não acredito em Pobre de Direita. Não, não estou dizendo que PD seja mentiroso. Tô dizendo que PD não existe. PD é um rótulo elitista nosso. O que existe é o PD, o Pobre Diabo, um sujeito em desvantagem material ou intelectual ou as duas coisas. Alguém isolado, desinformado, equivocado, explorado, rancoroso. E Manipulado. Não é difícil distrair uma mente alienada. Vi escrito não sei onde, “sua tia não é fascista, é manipulada”.

Claro que todo PD é passível de se transformar num pequeno sacana vendido. A humilhação que esse pobre coitado sofre cotidianamente é tão grande, que ele venderia a própria mãe, para mudar a vida, se tivesse oportunidade. Mas, como é normal numa sociedade muito desigual, poucos têm essa oportunidade.

A grande maioria, nosotros, se vende aos pedacinhos, às migalhas, no varejo, de janeiro a janeiro, com ou sem eleição, de segunda a sábado, das 9 às 17h. A indispensável esperança, vai buscar no Além, na igreja. E assim, já salvo e cansado e enfastiado e desinteressado, relega o desprezo ao concreto, ao coletivo, à coisa pública e terrena: à Política.

Mas sempre sobra alguém mais disposto, mais afoito, mais desavisado. Que se dá, que se entrega. De graça. É o nosso PD. Adota um líder ou um lado graciosamente, por impulso, na emoção da hora, como se dá com nossas simpatias por um time de futebol, por ódios familiares ou pessoais, antagonismos corriqueiros, contrariedades momentâneas, sem qualquer racionalidade, esquecido de toda lógica.

A escolha inicial acontece por oportunismo ou para negar algo novo que lhe assusta ou para desaforar alguém próximo ou para sublimar o desespero ou para sufocar a revolta. A partir de então, identifica e adota, com impressionante clareza, o lado oposto ao daquele que originou o ódio lá atrás, no começo da carreira. Sendo redundante, entra num processo reacionário de negação.

O fogo brando do rancor forja a pessoa insensata. E quando esse caminho coincide com o indicado pelo padre ou pastor que lhe supre de esperança ou pelo guru virtual que lhe mostra a capa vermelha do toureiro da autoajuda, o pobre se transforma num fanático. O PD não existe, portanto. O que existe é o Pobre Coitado. Que, de tão espoliado, perde o rumo. Vira um PSN. Pobre Sem Noção.





sexta-feira, 15 de maio de 2020

MÁSCARA.

Encontrei esses versinhos num papel amassado no chão do fim da feira, escritos a lápis em caligrafia tosca e ortografia barroca e redondilhas menores. São, portanto, até segunda ordem, de domínio público. E, pelo que se vê, é coisa aberta, sempre cabe mais um versinho, uma estrofezinha, que você pode acrescentar. Não é coisa nova, isso de acrescentar versinhos em modinhas que estão na boca do povo. Paulo Vanzolini fez isso, que eu sei, na Moda da Pinga, popularizada pela Inezita Barroso, e em Cuitelinho, que eu recomendo, no dueto de Pena Branca e Xavantinho. Esses versinhos, já li batucando, ao som de um imaginário violãozinho básico, ou talvez um pandeiro, sou meio surdo, e a fila de ônibus roncando na subida da Brigadeiro não ajudava: (a última estrofe é minha).

Nem sei como pode
nem sei como existe
tanta gente pobre
tanta gente triste.

Tanto automóvel
tanta patinete
tanto ignóbil
que não vale o frete.

Nem sei como ocorre
nem sei como ouviste
mata come ou corre
perde ou persiste.

Sala pra cozinha
arruma a antena
vida mais sozinha
nessa quarentena.

Vida que sucede
vida que insiste
vida que se impede
mas que não desiste.

Coisa passageira
coisa barulhenta
uma vida inteira
tem gente que aguenta.

Se vira nos trinta
cai levanta tenta
cai levanta e finta
essa zaga lenta.

Pede pra sair
que perdeu a graça
não deixa cair
que isso logo passa.

Nem que a vaca tussa
e o tatu aguente
a coisa tá russa
a chapa tá quente.

Eu daqui não saio
eu aqui insisto
corro sento caio
puro sujo ou misto.

Toda essa leseira
esse fim de feira
não tem cabimento
esse virulento.

Esse oportunista
esse populista
esse violento
não tem cabimento.

Cadê sua máscara
use sua máscara
guarde sua máscara
lave sua máscara.

Vai cair a máscara
já caiu a máscara
que o povo comprou
no verão passado.

Párarárarára
párarárarára
párarárarára
párarárarára!


domingo, 10 de maio de 2020

DIA DAS MÃES.

Bom, se o dia das mães foi instituído, no Brasil, pelo pai do nosso atual governador ou pelo Getúlio Vargas, não interessa. O que interessa é que, para o meu pai, todo dia era dia da mãe. E, para mim, todo dia era dia da minha mãe, até os 11 anos de idade, quando fui estudar na cidade. A partir de então, fiquei sabendo que estava errado. Havia um e único dia por ano que era da mãe. Os demais 364 dias eram… eram… sei lá, do pai, do avô, do tio, do bispo, do raiosqueoparta masculino.
Ainda que tenha sido instituído mais tarde, pelo Dória-pai, na década de 1940, meu pai não ficou sabendo não. Meu pai não integrava o mundo comercial então nascente. Meu pai não fazia parte do público-alvo, como se diria mais tarde. Mas, para meu pai, todo dia era dia da mãe porque, creio, meu pai viu sua mãe em todos os dias da sua vida, enquanto ela viveu. Viu com os próprios olhos, nunca viveu longe dela mais do que 500 metros.
Já minha mãe perdeu sua mãe quando casou. Perdeu a mãe e ganhou uma sogra. Até hoje eu e ela, minha mãe, temos dúvidas se foi uma boa troca. De todo modo, ambas eram mães, enquanto minha mãe era futura-mãe.
Eu, até o quarto ano primário, estudava numa escola em que os sistemas de portaria, monitoria, inspetoria, diretoria, faxinaria, zeladoria, ninharia e ensinadoria eram exercidos por uma única mulher, a Dona Rosa, que não tinha tempo de ensinar aos alunos sobre o dia das mães, talvez porque fosse mãe de um filho excepcional da minha idade que lhe requeria trabalhos extras. Ou também porque seus alunos ainda não haviam entrado para o público-alvo do comércio.
Quando eu nasci, já haviam instituído o dia do natalício de Jesus. Em seguida, mas também antes do meu nascimento, instituíram o dia das mães, depois veio o dos namorados. Em 1964, restaurou-se ou consolidou-se a ideia de substituir a era (não o dia) do cidadão pela do consumidor. Enfim, fazer o quê? Mas, o meu dia, eu não consinto que ninguém institua.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

De pobres & palácios

Leio que Lula disse que Nelson Teich, atual ministro da saúde, parece nunca ter entrado numa UBS. Leio também que a Associação dos Moradores da Favela de Paraisópolis contratou, sem ajuda do governo, um serviço privado de saúde 24 horas, incluindo 3 ambulâncias, dois médicos, dois enfermeiros, três socorristas, com a condição de que passassem a morar dentro da própria favela. Li, tempos e governos atrás, que foi instituído um programa específico para alocar médicos em localidades remotas(parece que tiveram de recorrer aos estrangeiros, para conseguirem os tais).

São três leituras, três notícias. O que elas têm em comum, além do tema (saúde)? Elas têm em comum o pertencimento social. É o ministro-médico que desconhece (ou parece desconhecer) a realidade do serviço público de saúde; são os profissionais de saúde que são obrigados a morar no mesmo mundo dos seus pacientes se quiserem ser contratados; são os médicos normais que não querem trabalhar e muito menos viver nas cidades pequenas ou afastadas nem nas periferias pobres.

O problema seria menos terrível se ocorresse apenas na área da saúde. Vejamos o caso dos transportes coletivos: relacione todos os vereadores, o prefeito, todos os secretários e respectivos assessores do município de S.Paulo: no quesito “quem já pisou dentro de um ônibus urbano da cidade” (não vale em época de eleição), é certo que a maioria vai responder sim, mas estará mentindo. A maioria dessas pessoas que cuidam (decidem, modelam) do transporte coletivo da cidade nunca pisou, para uso ordinário, num coletivo do sistema.

A maioria dos psicólogos nunca pisou num hospício (tudo bem, tô sabeno que não se usa mais essa nomenclatura…), a maioria dos consultores empresariais nunca requereu um CNPJ, a maioria dos comentaristas de futebol nunca chutou uma bola, a maioria dos realizadores de casamentos nunca casou…

Paradoxalmente, a maioria dos policiais militares pertence ao mesmo mundo da bandidagem. Será que é mesmo isso uma contradição, um ponto fora da curva? Ou essa aparente exceção está dentro da lógica de que a PM existe apenas para cuidar da pequena bandidagem, aquela decorrente da pobreza miserável e, para tanto, nada melhor do que colocar o aluno mais tímido para vigiar a classe enquanto o professor vai ao banheiro?

Leio, volta e meia, que o primeiro-ministro da Dinamarca (ou da Suécia, ou da Noruega…) foi trabalhar de metrô. Eu, se um dia vier a me tornar presidente do Brasil… (pelamordedeus!), não, se um dia vier a me tornar um simples vereador desta megalópole (pelamordedeus nº 2!), nunca mais pisarei dentro de um ônibus, a menos que esteja sob pesado disfarce. Não sou doido. Nesta opulência tão minoritária, é mais que inviável, é temerário, aos edis, pertencerem de verdade ao mundo popular. Neste fedor desigual e tropical, os mais de mil milhões miseráveis me… abbiano mangiato; e eu seria mastigado e manjado.