sexta-feira, 15 de maio de 2020

MÁSCARA.

Encontrei esses versinhos num papel amassado no chão do fim da feira, escritos a lápis em caligrafia tosca e ortografia barroca e redondilhas menores. São, portanto, até segunda ordem, de domínio público. E, pelo que se vê, é coisa aberta, sempre cabe mais um versinho, uma estrofezinha, que você pode acrescentar. Não é coisa nova, isso de acrescentar versinhos em modinhas que estão na boca do povo. Paulo Vanzolini fez isso, que eu sei, na Moda da Pinga, popularizada pela Inezita Barroso, e em Cuitelinho, que eu recomendo, no dueto de Pena Branca e Xavantinho. Esses versinhos, já li batucando, ao som de um imaginário violãozinho básico, ou talvez um pandeiro, sou meio surdo, e a fila de ônibus roncando na subida da Brigadeiro não ajudava: (a última estrofe é minha).

Nem sei como pode
nem sei como existe
tanta gente pobre
tanta gente triste.

Tanto automóvel
tanta patinete
tanto ignóbil
que não vale o frete.

Nem sei como ocorre
nem sei como ouviste
mata come ou corre
perde ou persiste.

Sala pra cozinha
arruma a antena
vida mais sozinha
nessa quarentena.

Vida que sucede
vida que insiste
vida que se impede
mas que não desiste.

Coisa passageira
coisa barulhenta
uma vida inteira
tem gente que aguenta.

Se vira nos trinta
cai levanta tenta
cai levanta e finta
essa zaga lenta.

Pede pra sair
que perdeu a graça
não deixa cair
que isso logo passa.

Nem que a vaca tussa
e o tatu aguente
a coisa tá russa
a chapa tá quente.

Eu daqui não saio
eu aqui insisto
corro sento caio
puro sujo ou misto.

Toda essa leseira
esse fim de feira
não tem cabimento
esse virulento.

Esse oportunista
esse populista
esse violento
não tem cabimento.

Cadê sua máscara
use sua máscara
guarde sua máscara
lave sua máscara.

Vai cair a máscara
já caiu a máscara
que o povo comprou
no verão passado.

Párarárarára
párarárarára
párarárarára
párarárarára!


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